A mentalidade do "ou-ou" versus a lógica bíblica do "e-e"
DISPENSACIONALISMO PROGRESSIVO (DP)
Jonas J. Mendes
7/12/20265 min ler


A mentalidade do "ou-ou" versus a lógica bíblica do "e-e"
Um dos maiores equívocos hermenêuticos na interpretação das Escrituras consiste em impor ao texto bíblico uma lógica de exclusão: ou isto, ou aquilo. Segundo essa perspectiva, uma promessa divina deve estar totalmente cumprida ou totalmente futura; ou pertence ao presente ou pertence exclusivamente ao futuro. Entretanto, essa maneira de pensar não corresponde ao padrão da revelação bíblica. A teologia do Novo Testamento, especialmente a paulina, não é construída sobre a lógica do "ou-ou", mas sobre a lógica do "e-e". Em Cristo, muitas realidades são simultaneamente presentes e futuras, inauguradas e consumadas, possuídas e aguardadas. Não se trata de contradição, mas de diferentes aspectos da mesma verdade redentiva.
Se adotarmos a lógica do "ou-ou", seremos obrigados a afirmar que ou Paulo se contradiz, ou utiliza a linguagem de maneira incoerente. Entretanto, nenhuma dessas conclusões é aceitável. O próprio apóstolo afirma, em diferentes contextos, proposições que, à primeira vista, parecem opostas, mas que, na verdade, descrevem dimensões distintas da mesma realidade escatológica.
Tomemos, por exemplo, a adoção. Em Romanos 8.15, Paulo afirma que já recebemos o Espírito de adoção, pelo qual clamamos: "Aba, Pai". Em Gálatas 4.4–7, declara que já somos filhos de Deus e herdeiros mediante Cristo. Contudo, poucos versículos depois, em Romanos 8.23, afirma que ainda aguardamos a adoção, identificando-a com "a redenção do nosso corpo". Afinal, fomos ou não fomos adotados? A resposta bíblica não é "ou isto, ou aquilo", mas isto e aquilo. Já fomos adotados juridicamente e recebemos todos os direitos de filhos; contudo, ainda aguardamos a manifestação plena dessa adoção na ressurreição do corpo.
O mesmo ocorre com a salvação. Paulo declara que já fomos salvos pela graça (Ef 2.5, 8; Tt 3.5). Entretanto, também afirma que a salvação está mais próxima agora do que quando cremos (Rm 13.11), que seremos salvos da ira (Rm 5.9) e que seremos salvos por sua vida (Rm 5.10). Então, fomos ou não fomos salvos? Novamente, a resposta bíblica é: fomos e ainda seremos. A salvação possui uma dimensão passada (justificação), uma dimensão presente (santificação) e uma dimensão futura (glorificação).
A mesma tensão aparece na glorificação. Romanos 8.30 afirma que Deus glorificou aqueles que justificou, utilizando o verbo no passado como se o evento já tivesse ocorrido. Entretanto, poucos versículos antes Paulo diz que aguardamos a glória futura (Rm 8.17–18), e em Colossenses 3.4 afirma que seremos manifestados com Cristo em glória. Já fomos glorificados ou ainda não? A resposta continua sendo: já fomos e ainda não fomos. Nossa glorificação é uma realidade garantida pela união com Cristo, mas sua manifestação plena ocorrerá apenas em sua vinda.
O mesmo padrão governa a santificação. Paulo escreve aos coríntios chamando-os de "santificados em Cristo Jesus" (1Co 1.2) e afirma que eles foram santificados (1Co 6.11). Contudo, exorta esses mesmos crentes a aperfeiçoarem a santidade (2Co 7.1), a viverem em santificação (Rm 6.19, 22; 1Ts 4.3) e a perseguirem a santificação sem a qual ninguém verá o Senhor (Hb 12.14). Somos santos ou ainda estamos sendo santificados? A resposta bíblica não escolhe entre uma alternativa e outra: somos santos porque fomos separados para Deus, e ainda buscamos a santidade em sua expressão prática e definitiva.
A ressurreição apresenta a mesma estrutura. Paulo afirma que ressuscitamos com Cristo (Ef 2.5–6; Cl 2.12–13; 3.1), mas também ensina que aguardamos a ressurreição do corpo (Rm 8.11, 23; 1Co 15.20–57; Fp 3.20–21). Se alguém insistir na lógica do "ou-ou", terá de concluir que Paulo se contradiz. Mas Paulo não se contradiz. Ele distingue entre a participação presente na vida ressurreta de Cristo e a futura ressurreição física.
O mesmo acontece com o reino de Deus. Jesus declarou que o Reino já havia chegado (Mt 12.28; Lc 11.20) e que alguns já experimentavam sua realidade (Lc 17.20–21). Paulo afirma que Deus já nos transportou para o reino do Filho do seu amor (Cl 1.13). Entretanto, esses mesmos autores ensinam que herdaremos o Reino (1Co 6.9–10; 15.50; Gl 5.21; Ef 5.5) e que oramos diariamente: "Venha o teu Reino" (Mt 6.10). O Reino já veio ou ainda virá? A resposta bíblica é: já veio e ainda virá.
A mesma tensão aparece na Nova Aliança. Cristo declarou: "Este cálice é a nova aliança no meu sangue" (Lc 22.20; cf. Mt 26.28; Mc 14.24; 1Co 11.25). O autor de Hebreus afirma que Cristo é o Mediador da Nova Aliança (Hb 8.6; 9.15; 12.24), que a antiga aliança tornou-se obsoleta (Hb 8.13) e aplica aos cristãos o perdão prometido em Jeremias 31 (Hb 10.14–18). Entretanto, Jeremias também associa a Nova Aliança à restauração nacional de Israel (Jr 31.31–40), realidade ainda futura. A solução não é negar um dos lados da tensão, mas reconhecer ambos: a Nova Aliança já foi inaugurada e ainda aguarda sua plena consumação.
Essa estrutura estende-se ainda ao Espírito Santo. Os crentes já receberam o Espírito (Rm 8.9; Gl 3.2; Ef 1.13), mas Paulo o chama de garantia, penhor e primícias (Rm 8.23; 2Co 1.22; 5.5; Ef 1.13–14), termos que, por definição, indicam que a realidade plena ainda está por vir. Quem possui as primícias ainda espera a colheita; quem recebeu as arras ainda aguarda a totalidade da herança.
Portanto, a lógica da revelação bíblica não é a do "ou-ou", mas a do "e-e". Em Cristo, já fomos adotados e ainda aguardamos a adoção; já fomos salvos e ainda seremos salvos; já fomos glorificados e ainda seremos glorificados; já fomos santificados e ainda buscamos a santificação; já ressuscitamos com Cristo e ainda esperamos a ressurreição; já pertencemos ao Reino e ainda herdaremos o Reino; já participamos da Nova Aliança e ainda aguardamos sua consumação. Exigir que essas realidades sejam exclusivamente presentes ou exclusivamente futuras não resolve a tensão das Escrituras; antes, obriga o intérprete a escolher quais textos aceitar e quais relativizar. O Novo Testamento, porém, não escolhe entre um lado e outro. Ele afirma ambos. A verdade bíblica não está no "ou-ou", mas no "e-e". É precisamente essa lógica que permite compreender a unidade da história da redenção sem reduzir a riqueza da escatologia inaugurada nem antecipar indevidamente sua consumação.
Professor de Teologia do Novo Testamento e coordenador de pós-graduação nas Faculdades Integradas Cantares de Salomão (FEICS)
Mestre em Teologia, com especialização em Novo Testamento.
Mestre e doutorando em Filosofia pela Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT)
Pastor auxiliar no templo sede da Igreja Evangélica Assembleia de Deus de Cuiabá e região (IEAD-CUIABÁ)
Membro do Conselho de Educação e Cultura (CEC) da IEAD-CUIABÁ
Autor dos livros "A Arte da Leitura Bíblica", "A Morte de Deus e o Crepúsculo da Cultura Ocidental" e "Hermenêutica: Uma Introdução à Interpretação Bíblica"
Autor de diversos artigos na revista Obreiro Aprovado (CPAD)



