Uma das acusações mais repetidas contra o dispensacionalismo progressivo é a de que ele seria um aliancismo disfarçado, uma teologia da substituição com outro nome. No episódio 32 do Cenáculo do Saber - Entrevista, com David Marrone, o Pr. Jonas J. Mendes enfrentou a pergunta diretamente. Para ele, quem faz essa afirmação realmente não leu a fundo o dispensacionalismo progressivo. A resposta passa por duas definições (o que é o aliancismo e o que o progressivo diz sobre Israel e a igreja) e por uma explicação honesta de por que a confusão aparece.
O que é o aliancismo?
O Pr. Jonas Mendes define o aliancismo como um sistema de continuidade entre o Antigo e o Novo Testamento que entende que a igreja substituiu Israel, ou que Cristo cumpriu Israel, ou que Israel perdeu o seu lugar no plano de Deus. As formulações variam, mas o resultado é o mesmo.
Nesse modelo, Israel tinha um propósito específico, o de trazer o Messias. O Messias veio, o propósito foi cumprido, e agora existe a igreja, entendida como o novo Israel de Deus, uma categoria espiritual. Textos como Gálatas 6.16, que fala do "Israel de Deus", e passagens de Romanos 2, 9 e 11 são lidos como prova de que o cristão é o judeu verdadeiro.
O que o dispensacionalismo progressivo diz sobre Israel e a igreja?
O progressivo discorda completamente disso, explica o pastor. Israel é uma nação chamada para servir o Senhor entre as nações. Craig Blaising usa três termos para descrevê-lo, étnico, nacional e territorial, e Israel recebeu promessas específicas de terra e de nacionalidade, com uma identidade étnica que não se dissolve.
A igreja, por sua vez, é uma realidade neotestamentária, que passa a existir depois da morte, da ressurreição e da ascensão de Cristo e da vinda do Espírito Santo. Igreja e Israel, afirma o Pr. Jonas, são conceitos distintos que não estão em uma luta em que um cancela o outro. Distinguir sem opor é justamente o que separa o progressivo do aliancismo.
Por que o progressivo é acusado de aliancismo?
Segundo o pastor, a acusação nasce de dois motivos. O primeiro é que o dispensacionalismo progressivo enxerga mais continuidade na Bíblia do que os dispensacionalistas anteriores. Ele entende que a nova aliança já foi inaugurada por Cristo e que algumas promessas feitas a Israel têm um cumprimento parcial no povo de Deus hoje. Isso inclui a convicção de que a igreja não é um parêntese nem uma interrupção do plano de Deus. Nas palavras do Pr. Jonas: "A igreja nunca foi um acidente de percurso. Ela está dentro do plano de Deus." Ela cumpre agora elementos proféticos, sem anular ou cancelar o destinatário original de cada promessa.
O pastor reconhece que o cumprimento no Novo Testamento é um tema complexo. Ele lembra que Mateus 2.15 aplica a Jesus o texto de Oseias 11.1, que descrevia Israel, o menino chamado do Egito, e diz que se cumpriu o que o profeta falou. Oseias não fazia ali uma profecia preditiva, e Mateus fala de cumprimento em outro sentido. Reconhecer essa complexidade não transforma ninguém em aliancista.
O segundo motivo é que o progressivo viu utilidade em termos usados por amilenistas e pós-milenistas, como "já e ainda não" e "inauguração sem consumação". O uso desses termos, porém, vem qualificado. O Pr. Jonas cita Michael Vlach, que pergunta o que se quer dizer com já e ainda não e discorda de que isso signifique Jesus já reinando no trono de Davi. Esse debate dentro do próprio dispensacionalismo está desenvolvido no artigo O Trono de Davi e o Dispensacionalismo Progressivo.
Criticar Ryrie é abandonar o dispensacionalismo?
Parte da resistência vem do fato de o progressivo revisar formulações de autores clássicos como Charles Ryrie. O Pr. Jonas trata isso com naturalidade: "Criticar Charles Ryrie é normal, ele não é um deus. Ele é um homem. Então o amor ao sistema não pode ser maior que o amor às Escrituras."
A conclusão do pastor é que o dispensacionalismo progressivo não dissolve Israel na igreja nem trata a igreja como um acidente: mantém os dois no plano de Deus, cada um com o seu lugar. Antes de repetir a acusação, vale ler os proponentes e ver o que eles de fato afirmam, como o Pr. Jonas faz ao longo de toda a conversa do episódio 32.





