Todo ministério cristão passa por crises. No EP. 35 do Cenáculo do Saber - Entrevista, com David Marrone, o Pr. Valmir Nascimento apresentou as cinco crises que organizam o seu livro Homens de Deus: a dignidade do ministério cristão em tempos de crise (CPAD): a de identidade, a teológica, a ética, a mental e a da fé. Para ele, servir sem problemas é relativamente fácil; é no meio da crise que o ministério é avaliado, porque "as crises provam o nosso chamado".
Por que "homem de Deus" e não só pastor ou líder?
O Novo Testamento tem vários nomes para quem serve: pastor, bispo, presbítero, diácono. O Pr. Valmir escolheu outro, "homem de Deus", o título dado a Moisés, Elias e Eliseu e aplicado por Paulo a Timóteo (1 Timóteo 6.11). O motivo é o peso do nome: quem é chamado assim não age em nome próprio, mas carrega o nome de quem o chamou e recebeu dele um mandato.
Daí a separação que ele faz logo no início. Há quem tenha o título, a função e o reconhecimento da igreja e não seja homem de Deus, porque o chamado, antes de ser cargo, é uma posição espiritual diante de Deus. Por isso a pergunta que ele propõe a cada obreiro: estou pregando, agindo e vivendo como um homem de Deus?
A crise de identidade: atividade sem propósito
O Pr. Valmir usa duas imagens. A primeira é a do operário que passou 35 anos batendo com um martelo nas rodas do trem e nunca soube que aquilo servia para achar rachaduras. A segunda é Aimaás (2 Samuel 18), que correu, cortou caminho e chegou antes ao rei, mas não tinha mensagem para dar.
A causa principal, para ele, é o pragmatismo: a pergunta deixa de ser "é verdade?" e passa a ser "funciona?". O ministério começa a ser medido por seguidores e tamanho de igreja. Por esse critério, lembra ele, Paulo seria um fracasso. Ele distingue fruto de produto: o fruto nasce naturalmente da vida espiritual, o produto se fabrica. Na mesma linha está a teologia coach, que aposta no potencial humano em vez da graça. Nas palavras dele, ela "nada mais é do que o regresso da teologia da autoajuda", enquanto a teologia bíblica é a da ajuda do alto.
A crise teológica: obreiros que não leem a Bíblia
O Pr. Valmir cita uma pesquisa feita no Brasil em que mais da metade dos pastores ouvidos nunca tinha lido a Bíblia inteira. A ressalva é dele: não se exige teologia acadêmica, mas o conhecimento bíblico básico de quem precisa manejar bem a palavra da verdade (2 Timóteo 2.15). Sem isso surge o "pregador de três pontos": lê o texto, sai do texto e nunca mais volta a ele. A desculpa mais comum é a falta de tempo, e a resposta dele é direta: "nós sempre temos tempo para aquilo que nós priorizamos".
A crise ética: hipocrisia ou acrasia?
Aqui ele separa duas falhas. A acrasia (do grego, falta de poder) é a fraqueza de quem quer fazer o certo e não consegue, como Paulo descreve em Romanos 7 e como aconteceu com Pedro ao negar Jesus por medo. Continua sendo erro, mas há caminho de restauração. A hipocrisia é outra coisa: é poder fazer o certo e não fazer, é a distância entre o que se fala e o que se faz, o comportamento que Jesus censurou nos religiosos do seu tempo, que coavam o mosquito e engoliam o camelo. Integridade, para ele, é manter alinhados o que se pensa, o que se fala e o que se faz. Sem perfeição, mas dependendo do Senhor.
A crise mental e a crise da fé
Na crise mental, o Pr. Valmir desmonta o mito do pastor que não adoece: depressão, ansiedade e esgotamento também atingem quem está no púlpito. Ele desenvolve o ponto com a história de Spurgeon, da comparação nas redes e da falta de amigos (o tema está desenvolvido em Quem pastoreia o pastor?).
A crise da fé fecha a lista. Ter dúvidas é natural; o problema, diz ele, são as dúvidas não sanadas, que geram incredulidade. E o maior desafio de hoje já não seria o ateísmo, mas o apateísmo: a pessoa nem nega Deus, só dá de ombros porque acha que Deus não muda nada na vida dela. A saída não está só em argumentos: "você resolve o problema da apatia com fogo, com paixão, com vida espiritual".
O Pr. Valmir não para no diagnóstico: cada capítulo do livro termina com orientações, e a conversa termina no homem de Deus anticrise (a página do episódio traz todos os capítulos). Para quem serve, fica a pergunta: qual dessas crises já está batendo à porta?





