Quando Mateus escreve que Jesus voltou do Egito "para que se cumprisse" Oseias, está explicando o profeta ou pegando o texto emprestado? Foi assim que David Marrone formulou a pergunta no EP. 34 do Cenáculo do Saber - Entrevista. A resposta do Pr. Jonas J. Mendes passa pela distinção entre tipologia e alegoria, uma fronteira que muita gente cruzou sem perceber, inclusive dentro da tradição dispensacionalista.
Como o Novo Testamento cita o Antigo?
O Pr. Jonas reconhece que o tema é complexo e debatido. Walter Kaiser defende que o Novo Testamento usa o Antigo sempre com o mesmo sentido; Darrell Bock fala em um único sentido com múltiplos contextos e referentes (a visão que ele acha mais interessante); Michael Vlach se aproxima de Kaiser; Douglas Moo tem uma visão próxima do sensus plenior. Mas dá para sintetizar. Os autores do Novo Testamento não citam o Antigo sempre do mesmo modo: às vezes é predição e cumprimento; às vezes é aplicação, como fazemos ao pregar; às vezes é alusão ou eco, porque a mente do autor está cheia do Antigo Testamento; e às vezes é um padrão tipológico.
Emanuel e "Do Egito chamei o meu Filho"
O primeiro exemplo é Mateus 1.22-23, que cita Isaías 7.14. Em Isaías, o sinal foi dado ao rei Acaz durante a guerra siro-efraimita: antes que o menino soubesse distinguir o bem do mal, os dois reis inimigos cairiam. Era um sinal para aquele tempo. O Pr. Jonas considera provável, e diz crer que é a melhor interpretação, que o menino fosse o filho do próprio Isaías, já que o tema volta no capítulo 8 (os capítulos 7 a 12 são chamados de "livro do Emanuel"). Mateus olha para Jesus e reconhece o padrão: lá, um menino era sinal de que Deus estava com o povo; aqui, o menino é Deus conosco de fato.
O segundo é Mateus 2.15, que cita Oseias 11.1. Oseias não é profecia preditiva: é Deus lembrando que tirou Israel, seu filho, do Egito, e que Israel lhe virou as costas. Como, então, Mateus fala em cumprimento? Dentro de um padrão tipológico, explica o Pr. Jonas. Israel era o filho primogênito (Êxodo 4) e falhou; Jesus é o Filho que cumpre a vocação de Israel. Sai do Egito, passa 40 dias no deserto, sai das águas do Jordão para a terra seca, sobe o monte e ensina, multiplica o pão.
Qual a diferença entre tipologia e alegoria?
Alegoria, define o Pr. Jonas, é achar um sentido para cada detalhe do texto quando esse sentido não está ali. O exemplo é a parábola do bom samaritano (Lucas 10.25 em diante), alegorizada por Orígenes e Agostinho: o burrinho seria o pastor, a estalagem seria a igreja, as duas moedas seriam os dois Testamentos ou as duas ordenanças. Rende sermão, mas não é o propósito do texto.
Ele faz uma ressalva que, conta, desafiou uma crença que tinha: Craig Blomberg mostra que algumas parábolas são alegóricas, como a do semeador, em que cada elemento tem um correspondente. Só que ali quem dá a interpretação é Jesus. Paulo faz algo parecido com Agar e Sara em Gálatas 4, e também dá a interpretação: é uma alegoria controlada, porque funciona dentro da história da redenção e não de forma arbitrária.
A tipologia é outra coisa: são correspondências que a própria Bíblia estabelece entre pessoas, eventos e instituições. Em Romanos 5, Paulo diz que Adão é tipo de Cristo. O padrão das águas e da terra seca aparece na criação, no dilúvio, na travessia de Israel e em Jesus saindo do Jordão. Davi e Salomão, no reinado, apontam para o Messias. Já ler Zaqueu subindo na árvore como figura do arrebatamento, exemplo que ele encontrou num livro, é alegoria com nome de tipologia. Segundo o Pr. Jonas, o dispensacionalismo clássico pregava a leitura literal e alegorizava; o revisado evitou a tipologia por medo da alegoria; o progressivo a recuperou em diálogo com a teologia bíblica, e ele cita o livro de James Hamilton sobre tipologia.
Um conselho para quem cresceu com a leitura alegórica
O conselho do Pr. Jonas começa pela confiança: o mesmo Espírito que inspirou o texto ilumina quem o lê. Mas isso não dispensa o estudo. Pergunte quem escreveu, por que, para quem, de onde e em que situação. Procure a intenção do autor. Leia o contexto imediato, o remoto, a teologia daquele autor e o lugar do texto no cânon inteiro, uma ênfase do dispensacionalismo progressivo. Quem quiser ver essa lógica aplicada às profecias pode ler O Cumprimento Progressivo das Profecias, também do Pr. Jonas.
Na prática, a diferença é saber de onde vem a ligação: se é a própria Escritura que a estabelece, é leitura bíblica; se a gente a inventa a partir de um detalhe, é alegoria.





