Dispensacionalismo Progressivo: Alguns Conceitos Fundamentais

Da conceituação ao éden glorificado.

DISPENSACIONALISMO PROGRESSIVO (DP)

Jonas J. Mendes

6/13/202623 min ler

       Dispensacionalismo Progressivo: Alguns Conceitos Fundamentais

O Dispensacionalismo Progressivo é, provavelmente, uma das correntes teológicas mais mal compreendidas da atualidade. Muitos o criticam sem jamais terem lido seus principais autores; outros o defendem sem conhecer adequadamente suas propostas. Entre acusações de que abandonou o dispensacionalismo clássico e alegações de que se tornou uma forma disfarçada de teologia da substituição, o resultado é que o DP frequentemente é definido por seus críticos, e não por seus próprios proponentes. Mas será que o Dispensacionalismo Progressivo realmente ensina que a Igreja substituiu Israel? Será que ele espiritualiza as promessas do Antigo Testamento? Será que abandonou a interpretação histórico-gramatical? Como entende a relação entre Israel, Igreja, Reino de Deus, Nova Aliança, milênio e nova criação? Nestas breves páginas, pretendo apresentar de forma simples e introdutória alguns dos conceitos fundamentais do Dispensacionalismo Progressivo, permitindo que o leitor conheça essa perspectiva a partir de suas próprias afirmações e não das caricaturas que frequentemente circulam sobre ela.

· Dispensacionalismo Progressivo

Qual seria a melhor maneira de compreender o Dispensacionalismo Progressivo (DP)? Talvez a definição de Darrell Bock ofereça um excelente ponto de partida. Segundo ele, o Dispensacionalismo Progressivo procura explicar como as diferentes dispensações e os compromissos assumidos por Deus em suas alianças avançam progressivamente ao longo da história da redenção, de modo que cada etapa se constrói sobre as anteriores à medida que o programa divino se desenvolve.[1] Essa definição é importante porque revela que o foco central do DP não está simplesmente na distinção entre dispensações, mas na progressão orgânica do plano redentor de Deus. As dispensações não são vistas como economias isoladas ou compartimentos estanques, mas como estágios sucessivos por meio dos quais Deus revela e realiza, de forma crescente, seus propósitos na história. Cada nova etapa preserva elementos das anteriores, ao mesmo tempo em que acrescenta novas dimensões da revelação e do cumprimento.

Por essa razão, o Dispensacionalismo Progressivo enfatiza mais a continuidade do que as formas anteriores da tradição dispensacionalista. Sem negar distinções importantes na história da redenção, os progressivos procuram destacar a unidade do plano divino, a centralidade de Cristo e o desenvolvimento progressivo das promessas pactuais. As alianças abraâmica, davídica e nova aliança não são entendidas como realidades desconectadas, mas como partes de um único programa redentor que avança em direção à consumação final na nova criação. Em outras palavras, o DP procura ler a Bíblia como uma única história da redenção em desenvolvimento, na qual as promessas de Deus não são substituídas nem canceladas, mas ampliadas, aprofundadas e progressivamente cumpridas à medida que a revelação avança e converge em Cristo.

· Continuidade e Descontinuidade

Um dos temas mais debatidos nos círculos dispensacionalistas e aliancistas é a relação entre os dois testamentos. Há uma relação de continuidade ou descontinuidade? Segundo Darrell Bock, há tanto continuidade quanto descontinuidade; elas coexistem lado a lado. No que diz respeito à realização das promessas antigas e aos elementos “novos” nas estruturas que administram essa salvação, há continuidade. Algumas questões que anteriormente eram tratadas de modo excludente por teólogos da aliança e dispensacionalistas (cada um respondendo de maneira distinta) passaram, para os progressivos, a ser entendidas em certos casos como uma proposição do tipo “ambos/e”, isto é, não mais como “ou… ou”, mas “tanto… quanto”. Assim, por exemplo, não é necessário escolher entre o reino como presente ou ainda futuro, mas entendê-lo como ao mesmo tempo presente e futuro, inaugurado, mas ainda não consumado.[2]

Bock destaca ainda que o dispensacionalismo progressivo tem buscado, em particular, reintroduzir temas de continuidade na sua expressão da tradição, destacando como as alianças da promessa avançaram ou progrediram em seu cumprimento, tanto na primeira vinda de Jesus quanto na consumação, em sua volta. A realização das alianças não é interrompida de uma era para outra, mas experimenta uma concretização progressiva no movimento “já/ainda não” do programa do reino, que emerge com a vinda de Jesus à terra e é consumado em seu retorno, quando completa o que foi prometido tanto no Antigo Testamento (AT) quanto no Novo (NT).[3] As promessas da terra feitas a Israel, diz Bock, não são perdidas nem colocadas em risco pelo cumprimento neotestamentário, porque aquilo que o Antigo Testamento prometeu para Israel como nação governada por seu Messias continua sendo promessa a ser cumprida no futuro. É o conjunto dos textos bíblicos que estabelece os limites da continuidade e da descontinuidade. Qualquer afirmação apriorística sobre hermenêutica e descontinuidade precisa ser testada à luz do texto bíblico, como este estudo procura fazer.[4]

· A Visão Teológica do Dispensacionalismo Progressivo

Segundo Craig Blaising, a melhor forma de compreender o Dispensacionalismo Progressivo é enxergá-lo como uma verdadeira Teologia do Reino. Em suas palavras, “a visão teológica do Dispensacionalismo Progressivo, ou Teologia do Reino, é um Reino de Deus eterno, consumativo e progressivamente revelado, em uma Nova Criação, no qual Jesus Cristo reina para sempre sobre um Israel redimido e sobre povos e nações gentílicas redimidos, constituindo a humanidade redimida em sua herança eterna, compartilhada em glória com o Pai, unidos entre si e santificados para sempre em Cristo pelo Espírito Santo”.[5] Essa definição é extremamente significativa porque demonstra que o centro gravitacional do Dispensacionalismo Progressivo não está propriamente no milênio, nem nas dispensações consideradas isoladamente, mas no Reino eterno de Deus e na Nova Criação. As dispensações, as alianças bíblicas, a história de Israel, a Igreja, o Reino Messiânico e a consumação final são compreendidos como etapas interligadas de um único programa redentor que se desenvolve progressivamente ao longo da história até alcançar sua plena realização na nova criação.

Por essa razão, embora o Dispensacionalismo Progressivo seja claramente pré-milenista, seu foco teológico principal não está apenas no Reino Milenar, mas na realidade escatológica definitiva para a qual o milênio aponta. O Reino Messiânico representa uma fase histórica necessária do cumprimento das promessas divinas, mas não constitui o destino final da redenção. Seu objetivo último é conduzir toda a criação à consumação plena do propósito de Deus, quando Cristo reinará para sempre sobre uma humanidade redimida, composta tanto por Israel quanto pelas nações, em uma criação totalmente renovada. É justamente nesse ponto que se encontra uma das contribuições mais importantes do Dispensacionalismo Progressivo. Em vez de concentrar sua atenção exclusivamente nas distinções entre Israel e Igreja ou nas questões relacionadas ao milênio, o sistema procura situar todos esses temas dentro de uma visão mais ampla da história da redenção, cujo objetivo final é a restauração de todas as coisas em Cristo (At 3.21; Ef 1.10; Cl 1.20). Assim, a Nova Criação não é apenas o último capítulo da história bíblica; ela constitui o horizonte para o qual todo o plano de Deus converge desde Gênesis até Apocalipse.

· Israel e Igreja

Talvez nenhuma questão seja mais mal compreendida no Dispensacionalismo Progressivo do que sua visão acerca da relação entre Israel e a Igreja. Ao contrário do que frequentemente se afirma, os dispensacionalistas progressivos não negam a distinção entre Israel e Igreja. Eles continuam sustentando que Israel possui identidade, promessas e papel próprios dentro do programa redentivo de Deus. Também continuam afirmando a restauração futura de Israel, o cumprimento das alianças abraâmica, davídica e nova, bem como o estabelecimento futuro do Reino Messiânico sobre a terra.

A diferença em relação ao dispensacionalismo clássico e revisado não está na existência dessa distinção, mas na forma como ela é compreendida. O DP argumenta que a relação entre Israel e Igreja é mais complexa do que uma separação rígida entre dois povos distintos de Deus. Em Cristo, judeus e gentios participam conjuntamente das bênçãos espirituais prometidas pelos profetas, sem que isso implique a revogação das promessas nacionais feitas a Israel. Muitas críticas ao sistema surgem porque Israel e Igreja são tratados como categorias equivalentes, quando, na verdade, pertencem a esferas conceituais distintas.

Craig Blaising observa que Israel é, nas Escrituras, uma entidade étnica, nacional e territorial (ENT). Israel é uma nação descendente de Abraão, Isaque e Jacó, à qual Deus fez promessas específicas relacionadas à terra, à descendência, ao reino e à restauração nacional (Gn 12.1-3; 15.18-21; 17.7-8; Jr 31.35-37; Ez 36.24-28; 37.21-28). A Igreja, por sua vez, não é uma nação nem possui identidade étnica ou territorial própria. A Igreja é uma comunidade redentora e escatológica composta por judeus e gentios unidos em Cristo pelo Espírito Santo (Ef 2.14-18; 3.4-6; 1Co 12.13). Portanto, a Igreja não constitui uma terceira raça nem uma nova etnia.[6] Ela é a comunidade dos redimidos que participa das bênçãos da nova aliança e da nova criação inauguradas pela morte, ressurreição e exaltação de Cristo e pela descida do Espírito Santo (At 2).

Por essa razão, para o Dispensacionalismo Progressivo, a Igreja não está em contraposição nem aos judeus nem aos gentios. Pelo contrário, ela é formada precisamente por judeus e gentios reconciliados com Deus e entre si por meio da cruz (Ef 2.14-16). Enquanto Israel é uma categoria étnico-nacional, a Igreja é uma categoria redentiva e escatológica. Um equívoco frequente ocorre quando Israel e Igreja são tratados como categorias paralelas. Nas Escrituras, Israel é uma categoria étnico-nacional (pactual), enquanto a Igreja é uma categoria redentivo-escatológica. Por isso, a oposição mais comum na narrativa bíblica não é entre Israel e Igreja, mas entre Israel e as nações. A Igreja, por sua vez, não substitui nenhum dos dois grupos, mas reúne pessoas de ambos em uma única comunidade messiânica por meio da união com Cristo (Ef 2.11-22; Gl 3.26-29).[7]

· As Bençãos da Era Vindoura

Essa comunidade já experimenta, no presente, algumas das bênçãos da era futura. Por meio da habitação do Espírito Santo, os crentes participam antecipadamente da realidade escatológica prometida pelos profetas (At 2.16-21; Rm 8.23; 2Co 1.22; Ef 1.13-14). Carl B. Hoch observa que

O Espírito Santo constitui o elemento distintivo e indispensável desta nova era. Jesus declarou que era necessário que ele deixasse o mundo para que o Espírito viesse como o Paráclito, conduzindo seu povo à plena compreensão da verdade acerca de sua pessoa e de sua obra (Jo 16.7-15). Dessa forma, o Espírito é o dom do Cristo ressuscitado ao seu povo. Sua presença permanente na Igreja representa uma das maiores evidências de que as promessas escatológicas da Nova Aliança começaram a ser cumpridas, inaugurando uma nova etapa na história da redenção.[8]

Na antiga dispensação, o Espírito atuava de maneira mais seletiva e, em alguns casos, temporária, capacitando líderes específicos e carismáticos em Israel para tarefas determinadas. Na nova economia da redenção, porém, o Espírito Santo vem habitar, pela primeira vez, em todo um povo: a Igreja.[9] A Igreja é o corpo de Cristo (1Co 12.27; Ef 1.22-23), a nova humanidade criada nele (Ef 2.15) e uma manifestação antecipada da nova criação (2Co 5.17; Gl 6.15). É nesse sentido que muitos dispensacionalistas progressivos afirmam que a Igreja é a comunidade do Reino. Isso não significa que a Igreja seja o Reino em sua totalidade. O Reino de Deus é muito mais amplo do que a Igreja, abrangendo toda a manifestação do governo escatológico de Deus sobre a criação. Contudo, a Igreja é uma comunidade do Reino porque já participa das bênçãos desse Reino que será plenamente manifestado na volta de Cristo (Mt 19.28; At 3.21; Ap 11.15).[10]

Outro aspecto importante é que o pertencimento à Igreja não elimina identidades étnicas e nacionais. Ninguém deixa de ser judeu, grego, brasileiro ou membro de qualquer outro povo ao tornar-se parte da Igreja, assim como ninguém deixa de pertencer à humanidade por ser russo ou japonês. Trata-se de identidades que operam em níveis distintos e complementares, não de categorias mutuamente excludentes. A identidade em Cristo não apaga identidades étnicas e nacionais legítimas, mas as redime, ordena e subordina ao senhorio de Cristo.[11] Apocalipse descreve os redimidos como provenientes de "toda tribo, língua, povo e nação" (Ap 5.9; 7.9), demonstrando que a diversidade humana não desaparece na redenção, mas é preservada e reconciliada. A unidade da Igreja não produz uniformidade; antes, reúne povos distintos sob o senhorio de Cristo, antecipando a harmonia das nações redimidas na nova criação (Ap 21.24-26; 22.2).

· Os Santos do Antigo Testamento

Nesse ponto surge uma diferença importante entre o Dispensacionalismo Progressivo e algumas formas do dispensacionalismo tradicional. Os progressivos entendem que os santos do Antigo Testamento participarão pessoalmente do cumprimento das promessas que Deus lhes fez. Abraão, Isaque, Jacó, Davi, os profetas e todos os justos da antiga aliança não aguardam um destino distinto da consumação do plano redentor. Eles ressuscitarão para participar do Reino Messiânico e desfrutar das promessas divinas que lhes foram feitas (Is 26.19; Dn 12.2-3, 13; Ez 37.12-14; Jo 11.24; Hb 11.39-40).

Essa conclusão decorre da própria natureza das promessas abraâmicas. Em diversas passagens, Deus não promete a terra apenas aos descendentes de Abraão, mas ao próprio Abraão. Em Gênesis 13.15, Deus declara: "Toda a terra que vês eu a darei a ti e à tua descendência para sempre". A mesma linguagem aparece em Gênesis 17.8. O problema é que Abraão morreu sem jamais possuir efetivamente a terra prometida. Este é exatamente o argumento de Estêvão em Atos 7.5: "Deus não lhe deu nela herança, nem sequer o espaço de um pé". O mesmo pode ser dito de Isaque e Jacó, que viveram como peregrinos na terra da promessa (Hb 11.9).

Se a promessa foi feita não apenas aos descendentes, mas também aos próprios patriarcas, então seu cumprimento exige necessariamente sua futura ressurreição. Do contrário, Deus teria prometido algo a Abraão, Isaque e Jacó que eles jamais receberiam pessoalmente. É por isso que o Dispensacionalismo Progressivo entende que a esperança da ressurreição está intimamente ligada ao cumprimento das alianças abraâmica e davídica.

· Os Israelitas que pertencem à igreja

Essa compreensão também ajuda a esclarecer a situação dos judeus que hoje pertencem à Igreja. Para o Dispensacionalismo Progressivo, a união com Cristo não cancela identidades étnicas nem invalida promessas pactuais. Um judeu que crê em Jesus continua sendo judeu, assim como um gentio convertido continua sendo gentio. A Igreja não elimina essas identidades; ela reúne ambas em uma nova comunidade redentiva (Ef 2.11-22; 3.4-6). O próprio apóstolo Paulo jamais entendeu que sua pertença à Igreja anulava sua identidade israelita. Mesmo após sua conversão, ele continua se identificando como israelita, descendente de Abraão e membro da tribo de Benjamim (Rm 11.1; 2Co 11.22; Fp 3.5). Da mesma forma, Pedro e os demais apóstolos nunca sugerem que a entrada na Igreja significasse o abandono de sua identidade nacional.

Isso se torna ainda mais evidente nas palavras de Jesus em Mateus 19.28. Dirigindo-se aos apóstolos — que constituem o fundamento da Igreja (Ef 2.20) — Jesus declara que eles se assentarão em doze tronos para julgar as doze tribos de Israel na regeneração. A passagem pressupõe simultaneamente a existência futura de Israel e o papel dos apóstolos dentro do Reino Messiânico. Não há confusão de identidades nem substituição de um povo pelo outro. Assim, para o Dispensacionalismo Progressivo, a participação de judeus na Igreja não implica a perda das promessas feitas a Israel. Pelo contrário, em Cristo essas promessas são confirmadas e garantidas, pois todas as promessas de Deus encontram nele o seu "sim" e o seu "amém" (2Co 1.20). Os santos do Antigo Testamento, os judeus crentes da presente era e os gentios unidos a Cristo participarão juntos da consumação do plano redentor, cada qual preservando sua identidade dentro da unidade maior do povo escatológico de Deus.

· Hebreus e a Consumação Escatológica

É nesse contexto que Hebreus 11 deve ser lido. Muitas vezes esse texto é interpretado como se o autor estivesse substituindo a promessa da terra por uma esperança puramente celestial.[12] Contudo, essa leitura cria dificuldades significativas. O autor afirma que Abraão aguardava "a cidade que tem fundamentos, da qual Deus é o arquiteto e edificador" (Hb 11.10), que os patriarcas buscavam uma "pátria superior, isto é, celestial" (Hb 11.16), e que morreram sem receber as promessas (Hb 11.13, 39). Entretanto, em nenhum momento Hebreus afirma que a promessa da terra foi cancelada, reinterpretada ou transferida para um céu etéreo e não material.

Kevin J. Vanhoozer observa muito bem que o dualismo em questão não é a distinção platônica (dualismo espacial-vertical) entre o reino terreno das sombras e aparências e o reino celestial das ideias ou realidades verdadeiras. Trata-se, antes, da distinção paulina entre duas eras: a presente era e a era vindoura (dualismo temporal-horizontal). Esse é um dualismo apocalíptico e escatológico, cujas raízes se encontram no Antigo Testamento, mas que alcança sua plena expressão na história redentora de Jesus Cristo. Nessa estrutura, céu e terra não são concebidos como realidades antitéticas ou mutuamente excludentes, uma vez que o próprio Cristo voltará à terra em sua segunda vinda (Hb 9.28). Dentro dessa cosmovisão apocalíptica, a ordem presente, marcada pelo pecado e pela corrupção, dá lugar à nova criação prometida por Deus. Embora Hebreus não mencione explicitamente "novos céus e nova terra", a epístola aponta nessa direção ao apresentar o Filho como "herdeiro de todas as coisas" (Hb 1.2) e ao falar do "mundo vindouro" (Hb 2.5), que será submetido ao seu governo. Jesus é aquele que introduz na história o Reino de Deus, trazendo à terra a esfera do domínio e da presença divina. Dessa forma, ele cumpre as expectativas escatológicas e messiânicas do Antigo Testamento, não por meio da substituição da criação, mas por sua redenção e consumação final.[13]

Nota-se que a linguagem de Hebreus aponta para a consumação escatológica da criação e para a realidade final do Reino de Deus. O adjetivo "celestial" não descreve necessariamente algo não material, mas algo cuja origem, caráter e garantia procedem de Deus. A própria carta fala da "Jerusalém celestial" (Hb 12.22), do "mundo vindouro" (Hb 2.5) e do Reino inabalável que os crentes receberão (Hb 12.28). Craig Blaising afirma que:

As referências verticais de Hebreus à posição e ao ministério de Cristo no céu, bem como à cidade celestial, precisam ser compreendidas dentro de uma escatologia futurista. Consequentemente, a busca de Abraão por uma cidade celestial não deve ser entendida como a procura de uma terra celestial em contraste com uma terra terrena, mas como a expectativa de uma cidade que virá do céu para a terra da promessa. Assim, embora Hebreus apresente nova revelação acerca do Messias, de seu ministério celestial e da Jerusalém celestial, sua expectativa futura não é incompatível com a linha narrativa do Tanakh, segundo a qual Deus estabeleceria seu Reino sobre a terra.[14]

O mesmo movimento é encontrado em Romanos 4.13, onde Paulo amplia a promessa feita a Abraão afirmando que ele seria "herdeiro do mundo". Assim, a promessa da terra não é anulada, mas expandida dentro do propósito maior da redenção cósmica. Por isso, os progressivos entendem que Hebreus não espiritualiza Gênesis; ele escatologiza Gênesis. A promessa da terra sempre apontou para algo maior do que a mera posse de uma faixa territorial no Oriente Médio. Canaã era o centro geográfico da promessa, mas a consumação final envolve a restauração de toda a criação sob o governo do Messias (Rm 8.19-23; Ef 1.10; Cl 1.20; Ap 21–22). O Reino Messiânico milenar representa uma etapa histórica e inicial desse cumprimento, enquanto a nova criação representa sua consumação plena e eterna.

· Estado Final dos Santos

Por essa razão, os progressivos não entendem o estado final dos santos como uma existência em um céu etéreo e desvinculado da criação. O propósito divino é a restauração de todas as coisas (At 3.21), a renovação da criação (Rm 8.19-23) e a união definitiva entre céu e terra na nova criação (Ap 21–22). Nesse contexto, o Reino Messiânico milenar e o estado eterno não devem ser vistos como realidades completamente desconectadas. O milênio representa uma fase histórica e inicial da consumação das promessas divinas, enquanto a nova criação constitui sua consumação final, universal e eterna. Há progresso e intensificação, mas não ruptura. O mesmo Reino que se manifesta sob o governo messiânico de Cristo no milênio alcança sua plenitude quando Deus habita para sempre com seu povo na nova criação (Ap 21.1-5; 22.1-5). Assim, o propósito de Deus permanece o mesmo do início ao fim da história bíblica: restaurar a criação, cumprir suas promessas pactuais, reunir judeus e gentios em Cristo e estabelecer seu governo sobre todas as coisas. A continuidade entre o milênio e o estado eterno reflete precisamente essa unidade do plano redentor divino, que culmina quando não haverá mais pecado, morte, dor ou sofrimento, e Deus será tudo em todos (1Co 15.24-28; Ap 21.4).[15]

· Modelo da Nova Criação

A compreensão esboçada acima está intimamente ligada ao que Craig Blaising chamou de New Creation Model (Modelo da Nova Criação). Segundo essa perspectiva, o propósito de Deus nunca foi abandonar a criação original para substituí-la por uma realidade completamente distinta, mas redimir, transformar e consumar a própria criação que foi afetada pela queda. O alvo da redenção não é a fuga do mundo criado, mas a restauração do cosmos sob o senhorio de Cristo. Michael Vlach resumo a ideia:

O Modelo da Nova Criação procura explicar todas as dimensões dos propósitos de Deus tanto para a criação quanto para a nova criação — incluindo aspectos materiais e imateriais. A "restauração de todas as coisas" que Deus está realizando em Cristo (cf. At 3.21; Cl 1.20) abrange toda a ordem criada em sua plenitude. Além disso, embora o ser humano ocupe o lugar mais elevado na criação divina, a criação possui valor em si mesma e não deve ser vista apenas como o cenário da história da salvação. Como afirma Snyder, "a criação possui valor intrínseco, e não apenas valor instrumental". Deus deseja que a criação floresça para a sua glória e confiou ao ser humano a responsabilidade de governá-la e administrá-la de maneira fiel.

Por essa razão, um dos elementos centrais do Modelo da Nova Criação é compreender a amplitude das realidades criacionais incluídas nos propósitos divinos. Essas realidades faziam parte do plano de Deus antes da entrada do pecado em Gênesis 3 e continuarão fazendo parte de seus propósitos após a completa remoção do pecado, da morte e de todos os seus efeitos, conforme descrito em Apocalipse 21–22. A redenção, portanto, não tem como objetivo abandonar a criação, mas restaurá-la, renová-la e conduzi-la à sua consumação final sob o senhorio de Cristo.[16]

Essa perspectiva encontra sólido fundamento em Efésios 1.9-10, onde Paulo afirma que Deus revelou "o mistério da sua vontade" para "fazer convergir em Cristo todas as coisas, tanto as do céu como as da terra". O verbo grego anakephalaiōsasthai ("reunir", "recapitular", "sumarizar sob uma cabeça") indica que o propósito divino é restaurar a unidade da criação fragmentada pelo pecado sob o governo universal de Cristo. A obra redentora não diz respeito apenas à salvação individual de seres humanos, mas à reconciliação e renovação de toda a ordem criada (Cl 1.16-20).

Essa mesma expectativa aparece em Romanos 8.19-23. Paulo afirma que a criação aguarda ansiosamente a revelação dos filhos de Deus, pois ela mesma foi sujeita à corrupção em consequência da queda. Entretanto, a esperança da criação não é sua destruição, mas sua libertação: "a própria criação será redimida do cativeiro da corrupção para a liberdade da glória dos filhos de Deus" (Rm 8.21). O apóstolo não descreve uma substituição da criação, mas sua renovação. O mesmo mundo que foi afetado pelo pecado será libertado de seus efeitos. A redenção, portanto, possui alcance cósmico.

· O Éden Glorificado

Essa perspectiva ajuda a compreender a profunda conexão entre Gênesis 1–2 e Apocalipse 21–22.[17] Os capítulos finais das Escrituras não apresentam uma realidade totalmente desconectada do projeto criacional inicial. Pelo contrário, eles representam a consumação daquilo que Deus havia planejado desde o princípio. A nova criação retoma e supera os elementos fundamentais do Éden. A árvore da vida reaparece (Gn 2.9; Ap 22.2); o rio da vida reaparece (Gn 2.10; Ap 22.1); a presença imediata de Deus com a humanidade é restaurada (Gn 3.8; Ap 21.3); a maldição é removida (Gn 3.17-19; Ap 22.3); e a comunhão perfeita entre Deus e seu povo alcança sua plenitude (Ap 21.3-4).

Ao mesmo tempo, Apocalipse não descreve um simples retorno ao Éden. A nova criação ultrapassa significativamente a primeira criação. O jardim torna-se uma cidade-jardim universal. A presença divina, que antes estava localizada em espaços sagrados específicos, passa a preencher toda a realidade criada. Não existe mais templo, porque a comunhão entre Deus e seu povo alcança seu propósito definitivo (Ap 21.22). O que em Gênesis aparece em forma seminal atinge em Apocalipse sua forma escatológica plena.[18] Outro aspecto frequentemente negligenciado é que as nações continuam existindo na nova criação. Apocalipse 21.24-26 afirma que "as nações andarão mediante a sua luz" e que "a glória e a honra das nações" serão trazidas para a Nova Jerusalém. Da mesma forma, Apocalipse 22.2 fala das folhas da árvore da vida destinadas à cura das nações. Evidentemente, não se trata de nações rebeldes, mas de povos redimidos e reconciliados com Deus. Isso demonstra que a redenção não elimina a diversidade humana criada por Deus. As distinções étnicas e nacionais não são apagadas, mas purificadas e harmonizadas sob o governo universal de Cristo.

Essa observação possui enorme relevância para o Dispensacionalismo Progressivo. Se as nações continuam presentes na consumação final, então a redenção não destrói a estrutura criacional da humanidade. Da mesma forma, a identidade histórica de Israel não é anulada pela redenção, mas integrada ao propósito universal de Deus em Cristo. A unidade escatológica não exige uniformidade. Pelo contrário, a glória da nova criação consiste precisamente na reunião de uma humanidade reconciliada em toda a sua diversidade. Nesse contexto, o milênio e o estado eterno devem ser entendidos como fases distintas, porém organicamente conectadas, do mesmo plano redentor. O Reino Messiânico representa a manifestação histórica inicial da vitória de Cristo sobre as estruturas caídas do mundo. Nele, as promessas feitas a Abraão, a Davi e a Israel encontram cumprimento concreto na história. Entretanto, esse cumprimento não constitui o ponto final da redenção. O próprio Reino Messiânico aponta para algo ainda maior: a renovação definitiva dos céus e da terra.

Por isso, Apocalipse 20 não deve ser lido isoladamente de Apocalipse 21–22. O milênio prepara o caminho para a nova criação. Existe progresso, intensificação e consumação, mas não ruptura. O mesmo Cristo que reina sobre as nações no Reino Messiânico é aquele que finalmente entrega o Reino ao Pai, para que "Deus seja tudo em todos" (1Co 15.24-28). O objetivo final não é simplesmente o governo messiânico sobre Israel ou sobre as nações, mas a plena restauração da criação inteira sob a soberania trinitária. Assim, a história bíblica forma um único movimento redentivo que vai da criação à nova criação. O propósito de Deus permanece inalterado do Gênesis ao Apocalipse: habitar com seu povo, restaurar sua criação, cumprir suas alianças e reunir todas as coisas em Cristo. O Reino Messiânico e a nova criação não representam projetos distintos, mas etapas sucessivas de uma única realidade escatológica. A consumação final ocorre quando céu e terra se unem definitivamente, a presença divina enche toda a criação, o pecado e a morte são removidos para sempre, e Deus passa a habitar eternamente com seu povo em um universo plenamente renovado (Ap 21.1-5; 22.1-5).

Conclusão

O Dispensacionalismo Progressivo representa um esforço de ler a história da redenção como um desenvolvimento orgânico e progressivo do plano de Deus, no qual as promessas bíblicas são preservadas, ampliadas e progressivamente cumpridas à medida que a revelação avança em direção à sua consumação em Cristo. Longe de abandonar a distinção entre Israel e Igreja ou de espiritualizar as promessas do Antigo Testamento, o DP procura integrá-las dentro de uma visão mais ampla do Reino de Deus, da Nova Aliança e da Nova Criação. Nesse sentido, Israel, a Igreja, o Reino Messiânico, o milênio e o estado eterno não são temas isolados ou concorrentes, mas partes interligadas de um único propósito redentor. O mesmo Deus que prometeu restaurar Israel é o Deus que está formando um povo multiétnico em Cristo; o mesmo Reino que foi inaugurado na primeira vinda do Messias será consumado em sua segunda vinda; e a mesma criação que foi afetada pela queda será finalmente renovada e libertada de toda corrupção.

Talvez a principal contribuição do Dispensacionalismo Progressivo seja recordar que a história bíblica caminha em direção à restauração de todas as coisas (At 3.21), à recapitulação de todas as coisas em Cristo (Ef 1.10) e à reconciliação de todas as coisas por meio dele (Cl 1.20). Seu horizonte último não é apenas o milênio, mas a Nova Criação; não apenas Israel ou a Igreja considerados isoladamente, mas a humanidade redimida; não apenas o cumprimento de promessas individuais, mas a consumação do propósito eterno de Deus. Por isso, compreender o Dispensacionalismo Progressivo exige enxergá-lo menos como um sistema centrado em distinções dispensacionais e mais como uma teologia do Reino, da Nova Criação e da consumação progressiva do plano redentor divino. É nessa perspectiva que seus principais proponentes entendem a unidade das Escrituras, a centralidade de Cristo e a esperança escatológica que une Gênesis 1–2 a Apocalipse 21–22: Deus habitando para sempre com seu povo em uma criação plenamente restaurada, onde sua glória enche todas as coisas e ele é tudo em todos (1Co 15.28; Ap 21.1–5; 22.1–5).

 
Jonas J. Mendes

[1] BOCK, Darrell L. Progressive Dispensationalism: Continuing the Conversation. IN: Journal of Biblical and Theological Studies 9, p. 161–169. 2025, p. 161.

[2] BOCK, Darrell L. “Progressive Dispensationalism,” in Covenantal and Dispensational Theologies: Four Views on the Continuity of Scripture, ed. Brent E. Parker and Richard J. Lucas. Downers Grove, IL: InterVarsity Press, 2021, p. 114.

[3] BOCK. 2021, p. 115.

[4] BOCK, Darrell L. “The Son of David and the Saints’ Task: The Hermeneutics of Initial Fulfillment”. Bibliotheca Sacra, Dallas, v. 150, n. 600, p. 440-457, out. 1993. Texto corresponde a nota 20 do artigo.

[5] BLAISING, Craig. 2024, p. 1.

[6] BLAISING, Craig A. BOCK, Darrell L. (eds.), Dispensationalism, Israel and the Church: The Search for Definition (Grand Rapids, MI: Zondervan, 1992), p. 382-384.

[7] BLAISING, Craig. Progressive Dispensationalism as Kingdom Theology. Shepherd's 360 National Church Leaders Conference, Cary, North Carolina, 21 out. 2024.

[8] HOCH JR., Carl B. All Things New: The Significance of Newness for Biblical Theology. Grand Rapids, MI: Baker Books, 1995, p. 11-12.

[9] HOCH JR., Carl B. All Things New: The Significance of Newness for Biblical Theology. Grand Rapids, MI: Baker Books, 1995, p. 11-12.

[10] Carl B. Hoch Jr., “The New Man of Ephesians 2”, in Craig A. Blaising e Darrell L. Bock (eds.), Dispensationalism, Israel and the Church: The Search for Definition (Grand Rapids, MI: Zondervan, 1992), p. 113.

[11] SAUCY, Robert L. The case for progressive dispensationalism: the interface between dispensational and non-dispensational theology. Grand Rapids, MI: Zondervan Publishing House, 1993, p. 28-29.

[12] Essa visão espiritualizada é defendida por EMADI, Matthew H. The fulfillment of the land promise in the Epistle to the Hebrews: a critique of dispensationalism. Journal of Biblical and Theological Studies, [S. l.], 2024.

[13] VANGOOZER, Kevin J. Hermenêutica pura e simples: transfigurando o que significa ler a Bíblia teologicamente. Trad. Rodolfo Amorim. Rio de Janeiro: Thomas Nelson Brasil, 2025, p. 163

[14] Blaising, “Biblical Hermeneutics: How Are We to Interpret the Relation Between the Tanak and the New Testament on This Question?” in The New Christian Zionism, 85–87.

[15] BLAISING, Craig A. BOCK, Darrell L. (eds.), Dispensationalism, Israel and the Church: The Search for Definition (Grand Rapids, MI: Zondervan, 1992), p. 382-384.

[16] VLACH, Michael Vlach. The New Creation Model: A Paradigm for Discovering God’s Restoration Purposes from Creation to New Creation (Theological Studies Press, 2023)

[17] A expressão "Éden glorificado" não é utilizada formalmente pelos principais autores do Dispensacionalismo Progressivo. Entretanto, dificilmente eles se oporiam ao conceito que ela procura transmitir. O objetivo da expressão é destacar a profunda continuidade entre a criação original de Gênesis 1–2 e a nova criação descrita em Apocalipse 21–22. Não se trata de um simples retorno ao Éden primitivo, mas de sua consumação escatológica em uma ordem qualitativamente superior. Os elementos fundamentais da criação original: a presença de Deus, a árvore da vida, o rio da vida, a vocação humana para governar a criação e a comunhão entre Deus e seu povo, reaparecem na nova criação, porém livres de toda possibilidade de pecado, morte, corrupção ou maldição. Assim, Apocalipse 21–22 não retrata a substituição do projeto criacional de Deus, mas sua consumação plena e gloriosa em Cristo. Essa ideia é bem discuta em: ALEXANDER, T. Desmond. From Eden to the New Jerusalem: An Introduction to Biblical Theology. Nottingham: Inter-Varsity Press, 2008. Published in the USA by Grand Rapids: Kregel Publications, 2009.

[18] ALEXANDER, T. Desmond. From Eden to the New Jerusalem: An Introduction to Biblical Theology. Nottingham: Inter-Varsity Press, 2008. Published in the USA by Grand Rapids: Kregel Publications, 2009,

  • Professor de Teologia do Novo Testamento e coordenador de pós-graduação nas Faculdades Integradas Cantares de Salomão (FEICS)

  • Mestre em Teologia, com especialização em Novo Testamento.

  • Mestre e doutorando em Filosofia pela Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT)

  • Pastor auxiliar no templo sede da Igreja Evangélica Assembleia de Deus de Cuiabá e região (IEAD-CUIABÁ)

  • Membro do Conselho de Educação e Cultura (CEC) da IEAD-CUIABÁ

  • Autor dos livros "A Arte da Leitura Bíblica", "A Morte de Deus e o Crepúsculo da Cultura Ocidental" e "Hermenêutica: Uma Introdução à Interpretação Bíblica"

  • Autor de diversos artigos na revista Obreiro Aprovado (CPAD)

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