O Cumprimento Progressivo das Profecias
do Antigo ao Novo Testamento
Jonas J. Mendes
9/5/20265 min ler


Professor de Teologia do Novo Testamento e coordenador de pós-graduação nas Faculdades Integradas Cantares de Salomão (FEICS)
Mestre em Teologia, com especialização em Novo Testamento.
Mestre e doutorando em Filosofia pela Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT)
Pastor auxiliar no templo sede da Igreja Evangélica Assembleia de Deus de Cuiabá e região (IEAD-CUIABÁ)
Membro do Conselho de Educação e Cultura (CEC) da IEAD-CUIABÁ
Autor dos livros "A Arte da Leitura Bíblica", "A Morte de Deus e o Crepúsculo da Cultura Ocidental" e "Hermenêutica: Uma Introdução à Interpretação Bíblica"
Autor de diversos artigos na revista Obreiro Aprovado (CPAD)


Jonas J. Mendes
Robert B. Chisholm Jr. propõe o princípio do cumprimento progressivo como uma chave importante para compreender a maneira como as Escrituras apresentam a relação entre profecia e cumprimento. Para Chisholm, algumas profecias não encontram sua realização em um único acontecimento, mas se cumprem em etapas, ao longo da história da redenção. Esse padrão já pode ser identificado no próprio Antigo Testamento e ajuda a compreender, posteriormente, a maneira como as promessas proféticas são retomadas e desenvolvidas no Novo Testamento. O cumprimento de uma profecia, portanto, não precisa ser concebido como um evento único e exaustivo, mas pode envolver uma realização inicial que antecipa e garante uma realização posterior e mais plena.
Chisholm ilustra esse princípio com exemplos presentes nos livros de Reis. Em 1 Reis 13.1–3, um profeta anônimo de Judá anuncia a Jeroboão uma profecia acompanhada de um sinal. O sinal ocorre imediatamente (1Rs 13.5), enquanto a profecia propriamente dita somente encontra seu cumprimento cerca de trezentos anos depois, em 2 Reis 23.15–20. Nada na própria profecia determina o intervalo de tempo entre sua proclamação e seu cumprimento. De modo semelhante, 1 Reis 14.10–16 apresenta uma profecia cujo cumprimento ocorre em momentos distintos. A palavra de Aías acerca da destruição da casa de Jeroboão se cumpre em um futuro próximo (1Rs 15.29–30), enquanto a predição referente ao exílio de Israel somente se realiza quase dois séculos depois, com a queda do reino do Norte (2Rs 17.7–23).[1]
Esses exemplos demonstram que, na própria dinâmica profética do Antigo Testamento, a proclamação de uma promessa e seu cumprimento não estão necessariamente confinados a um único momento histórico. Há casos em que a palavra profética começa a se cumprir em determinado estágio e alcança sua realização em outro, sem que o primeiro cumprimento anule ou esgote aquilo que ainda permanece por se cumprir. Esse padrão oferece uma categoria importante para compreender a progressão da revelação bíblica: o cumprimento pode ser inaugurado historicamente e, ao mesmo tempo, permanecer aberto para uma realização posterior.
É precisamente essa lógica que Chisholm aplica à relação entre as promessas proféticas acerca da Nova Aliança, sua inauguração no Novo Testamento e sua futura participação por parte de Israel. Para ele, o fato de a Nova Aliança já ter sido inaugurada com a Igreja e de os crentes já terem recebido o Espírito não significa que a visão dos profetas tenha encontrado seu cumprimento exaustivo na Igreja. A realização presente constitui uma etapa verdadeira do cumprimento, mas não elimina a dimensão futura da promessa em relação aos seus destinatários originais. Chisholm afirma:
“Quando o povo judeu um dia se arrepender em massa, esse aspecto da visão profética será cumprido, à medida que experimentar o perdão e a implementação da nova aliança, que capacitará o povo a obedecer, ao receber o dom do Espírito de Deus. É claro que os defensores do modelo de ressignificação argumentarão que a nova aliança já foi inaugurada com a Igreja e que o dom do Espírito já foi concedido aos crentes do Novo Testamento. Contudo, isso não significa que o cumprimento da visão profética se esgote na Igreja. De acordo com o princípio de que a profecia, às vezes, é cumprida progressivamente, podemos e devemos, com base em Romanos 11, reconhecer uma dimensão de ‘já’ e ‘ainda não’ no cumprimento dessa profecia”.[2]
A imagem utilizada posteriormente por Chisholm torna essa lógica ainda mais clara. Segundo ele, os profetas eram como homens que olhavam através de um túnel: na luz ao final desse túnel, eles contemplavam Deus reconciliando Israel consigo mesmo. Com a revelação posterior do Novo Testamento, porém, Paulo e o autor de Hebreus permitem enxergar uma dimensão que não estava plenamente visível na perspectiva profética: a Nova Aliança também envolve outros participantes, isto é, os gentios incorporados ao povo de Deus. Isso não significa, contudo, que Israel desapareça da perspectiva profética. Chisholm conclui:
“Os profetas eram como homens que olhavam através de um túnel. Na luz que estava no final do túnel, eles viram Deus reconciliando Israel consigo mesmo. Mas, à medida que caminhamos até o final do túnel e olhamos para fora com Paulo e o autor de Hebreus, temos a vantagem da visão periférica e descobrimos que a nova aliança de Deus envolve outros que os profetas não puderam enxergar com sua ‘visão de túnel’. Ao mesmo tempo, a existência de participantes periféricos no mundo iluminado não deve nos distrair do fato de que Israel continua diante de nós, exatamente onde os profetas o viram, aguardando o momento em que também seu povo se tornará participante dessa nova aliança”.[3]
A contribuição de Chisholm, portanto, ultrapassa a discussão específica sobre Israel e a Igreja. Seu argumento oferece uma forma de compreender a própria estrutura da realização das promessas bíblicas. O Antigo Testamento já apresenta situações em que uma palavra profética encontra cumprimento em diferentes etapas; o Novo Testamento, por sua vez, não abandona esse padrão, mas o desenvolve à luz da obra de Cristo. Assim, uma promessa pode ser inaugurada em Cristo, ampliada pela inclusão da Igreja e ainda aguardar sua consumação futura, sem que essas diferentes etapas sejam consideradas cumprimentos concorrentes ou mutuamente excludentes.
Essa perspectiva é particularmente significativa para a compreensão do Reino de Deus. A vinda de Cristo inaugura historicamente aquilo que os profetas anunciaram, mas a inauguração não equivale à consumação. O Reino já irrompeu na história na pessoa e na obra do Messias, mas sua manifestação plena permanece futura. Da mesma maneira, a participação da Igreja nas realidades prometidas não exige que se considere esgotado o conteúdo das promessas proféticas. O padrão bíblico é melhor compreendido, portanto, em termos de inauguração, progressão e consumação: aquilo que Deus prometeu é iniciado em determinado momento da história, desenvolvido progressivamente ao longo do cumprimento e finalmente levado à sua plenitude na consumação escatológica.
CHISHOLM JR., Robert B. Israel according to the Prophets. In: BOCK, Darrell L.; GLASER, Mitch (eds.). The People, the Land, and the Future of Israel: Israel and the Jewish People in the Plan of God. Grand Rapids, MI: Kregel Publications, 2014. p. 55–78.
[1] CHISHOLM JR., Robert B. Israel according to the Prophets. In: BOCK, Darrell L.; GLASER, Mitch (eds.). The People, the Land, and the Future of Israel: Israel and the Jewish People in the Plan of God. Grand Rapids, MI: Kregel Publications, 2014. p. 62-63.
[2] CHISHOLM JR., Robert B. Israel according to the Prophets. In: BOCK, Darrell L.; GLASER, Mitch (eds.). The People, the Land, and the Future of Israel: Israel and the Jewish People in the Plan of God. Grand Rapids, MI: Kregel Publications, 2014. p. 65.
[3] CHISHOLM JR., Robert B. Israel according to the Prophets. In: BOCK, Darrell L.; GLASER, Mitch (eds.). The People, the Land, and the Future of Israel: Israel and the Jewish People in the Plan of God. Grand Rapids, MI: Kregel Publications, 2014. p. 65.

