O Reino Multidimensional

Jonas J. Mendes

7/20/20268 min ler

REINO OFERTADO E NÃO ADIADO
  • Professor de Teologia do Novo Testamento e coordenador de pós-graduação nas Faculdades Integradas Cantares de Salomão (FEICS)

  • Mestre em Teologia, com especialização em Novo Testamento.

  • Mestre e doutorando em Filosofia pela Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT)

  • Pastor auxiliar no templo sede da Igreja Evangélica Assembleia de Deus de Cuiabá e região (IEAD-CUIABÁ)

  • Membro do Conselho de Educação e Cultura (CEC) da IEAD-CUIABÁ

  • Autor dos livros "A Arte da Leitura Bíblica", "A Morte de Deus e o Crepúsculo da Cultura Ocidental" e "Hermenêutica: Uma Introdução à Interpretação Bíblica"

  • Autor de diversos artigos na revista Obreiro Aprovado (CPAD)

Jonas J. Mendes

Essa compreensão altera significativamente a forma de interpretar a pregação inaugural de Jesus. Quando proclama: "Cumpriu-se o tempo, e o Reino de Deus está próximo" (Mc 1.15; cf. Mt 4.17), Jesus não anuncia um reino distinto daquele esperado pelos profetas, nem oferece imediatamente todas as dimensões desse Reino. O Reino anunciado continua sendo o Reino davídico e escatológico prometido nas alianças abraâmica, davídica e na Nova Aliança, porém sua manifestação histórica ocorre segundo a ordem previamente estabelecida pelo plano eterno de Deus. A proximidade do Reino decorre da presença do Rei. Como observa Robert Recker, "nos Evangelhos Jesus é apresentado como a autobasileia. Em sua pessoa, o Reino de Deus aproximou-se e verdadeiramente está no meio deles" (RECKER, Robert. "The Redemptive Focus of the Kingdom of God". Calvin Theological Journal, v. 14, 1979, p. 171).

Nessa perspectiva, a primeira vinda de Cristo jamais teve como objetivo manifestar simultaneamente todas as dimensões do Reino. Seu ministério histórico concentra-se deliberadamente nas bênçãos soteriológicas e pneumatológicas do Reino. O episódio programático da sinagoga de Nazaré (Lc 4.16–21) é paradigmático. Ao ler Isaías 61.1–2, Jesus interrompe a leitura antes da expressão "e o dia da vingança do nosso Deus" (Is 61.2b). Essa interrupção não altera a profecia nem elimina sua dimensão futura; apenas revela que o cumprimento da mesma profecia ocorrerá em etapas distintas. A primeira vinda realiza a proclamação da graça, da libertação, do perdão e da restauração espiritual; a segunda consumará os aspectos judiciais, nacionais e universais do Reino. A divisão em fases, portanto, não nasce da rejeição de Israel, mas faz parte do próprio programa messiânico desde o início.

Essa observação possui importantes implicações hermenêuticas. Frequentemente se afirma que a rejeição de Israel teria levado Jesus a modificar sua oferta do Reino, substituindo um reino davídico nacional por uma forma espiritual ou "misteriosa" do Reino. Contudo, tal leitura não encontra apoio explícito nos Evangelhos. Jesus jamais anuncia que, diante da incredulidade nacional, o conteúdo do Reino foi alterado. Ao contrário, seu ministério inteiro demonstra uma concentração consciente nos aspectos redentivos de sua missão. Ele percorre predominantemente a Galileia (Mt 4.12–17), rejeita a tentativa popular de fazê-lo rei por meios políticos (Jo 6.15), anuncia repetidamente sua morte (Mc 8.31; 9.31; 10.33–34) e afirma diante de Pilatos que seu Reino "não é deste mundo" (Jo 18.36), isto é, não procede da ordem política deste século nem se estabelece mediante seus mecanismos. Nada disso decorre da rejeição de Israel; tudo corresponde ao propósito previamente estabelecido do Pai (At 2.23; 4.27–28).

Essa compreensão também ilumina a função das parábolas de Mateus 13. Tradicionalmente, muitos dispensacionalistas entenderam que os "mistérios do Reino" representam um reino distinto daquele anunciado pelos profetas. Entretanto, o próprio texto aponta em outra direção. Os mistérios não revelam um novo Reino, mas um aspecto anteriormente oculto da forma histórica pela qual o mesmo Reino seria realizado. Como observa Darrell L. Bock, os mistérios acrescentam novos elementos ao ensino veterotestamentário sem romper sua continuidade (Current Messianic Activity and OT Davidic Promise: Dispensationalism, Hermeneutics, and NT Fulfillment, TrinJ 15 NS [1994]: 59–88). A novidade não está no objeto da promessa, mas no modo de sua realização. Mateus 13 responde não à pergunta "qual Reino?", mas "como o Reino prometido será historicamente implementado?".

Consequentemente, a rejeição de Israel não modifica o Reino, mas altera os destinatários imediatos de suas bênçãos inaugurais. Romanos 11 fornece o paradigma dessa mudança. Paulo não afirma que o Reino foi adiado nem que surgiu uma nova economia desvinculada das promessas veterotestamentárias. Sua argumentação concentra-se na transferência provisória das bênçãos da salvação aos gentios em razão do endurecimento parcial de Israel (Rm 11.11–15, 25–32). O Reino permanece o mesmo; o Rei permanece o mesmo; as promessas permanecem as mesmas. O que muda é quem participa inicialmente das bênçãos inauguradas pelo Messias. A rejeição afeta a experiência histórica das promessas, não sua identidade nem sua realização final.

Essa leitura encontra forte respaldo na literatura apocalíptica veterotestamentária. Em Daniel 2.44–45 e 7.13–14, 27, o Reino aparece como ato soberano e irresistível de Deus. Em nenhum momento sua instauração depende da aceitação humana. O Reino é estabelecido por iniciativa divina, e sua manifestação definitiva não está condicionada à resposta de Israel ou das nações. A incredulidade humana pode determinar quem participa de suas bênçãos em determinado momento da história da redenção, mas jamais pode alterar o decreto divino acerca da vinda e da consumação do Reino. Assim, a rejeição de Israel não modifica o plano do Reino; apenas se torna, na providência divina, o meio pelo qual as bênçãos messiânicas alcançam também os gentios (Rm 11.30–32).

Sob essa perspectiva, a estrutura do Reino não é dicotômica, mas progressiva. Há um único Reino, cuja manifestação ocorre em fases correspondentes às duas vindas do Messias. Na primeira vinda, o Rei manifesta principalmente as dimensões soteriológica e pneumatológica do Reino mediante o perdão dos pecados, a derrota de Satanás, o dom do Espírito Santo e a formação do povo messiânico (Lc 4.18–21; At 2.16–39; Cl 1.13–14). Na segunda vinda, o mesmo Reino será revelado em sua dimensão pública, davídica, nacional e cósmica, quando Israel será restaurado, as nações serão julgadas e a criação experimentará sua renovação definitiva (Is 11.1–10; At 3.19–21; Ap 20–22). Não existem dois reinos nem duas promessas distintas, mas uma única realidade messiânica cuja plenitude se desdobra progressivamente conforme o propósito eterno de Deus.

Essa concepção preserva simultaneamente a unidade do Reino, a integridade das promessas veterotestamentárias, a centralidade da pessoa de Cristo e a progressividade da revelação. Ela permite afirmar que Jesus nunca modificou sua mensagem nem sua oferta. Desde o início, sua missão consistia em inaugurar as dimensões do Reino correspondentes à primeira vinda, reservando para sua parousia a manifestação das dimensões escatológicas prometidas pelos profetas. Os mistérios do Reino, portanto, não representam uma redefinição da esperança veterotestamentária, mas a revelação do modo como Deus, desde toda a eternidade, havia determinado conduzir seu Reino até sua consumação final.

A partir do final da década de 1980, o debate sobre o Reino de Deus entrou em uma nova fase com o surgimento do dispensacionalismo progressivo. Seus principais representantes, Craig A. Blaising, Darrell L. Bock e Robert L. Saucy, procuraram preservar os compromissos históricos do dispensacionalismo, especialmente a continuidade das promessas feitas a Israel e o cumprimento futuro das alianças abraâmica, davídica e da nova aliança, ao mesmo tempo em que incorporaram de maneira mais consistente a escatologia inaugurada do Novo Testamento.

A consolidação do dispensacionalismo progressivo ocorreu no início da década de 1990. Seu primeiro marco editorial foi Dispensationalism, Israel and the Church: The Search for Definition (1992), organizado por Craig A. Blaising e Darrell L. Bock, obra que introduziu o termo progressive dispensationalism ao debate teológico. No ano seguinte, Blaising e Bock sistematizaram a proposta em Progressive Dispensationalism (1993), enquanto Robert L. Saucy apresentou uma defesa paralela em The Case for Progressive Dispensationalism (1993). O próprio Blaising identifica essas três obras como os textos fundacionais do movimento. Embora existam diferenças de ênfase entre esses autores, todos abandonam a ideia de dois reinos distintos — um presente, espiritual, e outro futuro, político — em favor de uma compreensão mais unificada da doutrina do Reino. O Reino de Deus é concebido como uma única realidade escatológica, cujo desenvolvimento ocorre progressivamente ao longo da história da redenção. Sua presença atual não anula sua manifestação futura, assim como sua consumação futura não elimina sua atuação presente. Em outras palavras, trata-se de um único Reino que se manifesta em diferentes estágios da economia redentiva.

Essa compreensão permite integrar diversos aspectos da revelação bíblica frequentemente tratados de forma isolada. O Reino é, ao mesmo tempo, espiritual e histórico; invisível em sua operação presente e visível em sua manifestação futura; universal em sua soberania e mediatorial em sua administração messiânica; presente na Igreja por meio da exaltação de Cristo e da atuação do Espírito Santo, mas ainda aguardando sua expressão política, nacional e territorial na restauração de Israel e no governo davídico do Messias sobre as nações. Dessa forma, a tensão entre o "já" e o "ainda não" não representa dois reinos distintos, mas duas fases do mesmo Reino messiânico inaugurado na primeira vinda de Cristo e consumado em sua segunda vinda. Essa releitura também redefiniu a compreensão das alianças bíblicas. As promessas abraâmicas, davídicas e da nova aliança passam a ser vistas como já inauguradas em Cristo, sem que isso implique seu esgotamento na presente era. A Igreja participa antecipadamente das bênçãos dessas alianças por sua união com o Messias, enquanto Israel permanece como destinatário das promessas nacionais e territoriais ainda aguardando seu cumprimento histórico. Assim, o cumprimento presente não substitui nem espiritualiza o cumprimento futuro; antes, o antecipa e o garante.

Nesse sentido, o dispensacionalismo progressivo procura superar tanto a rigidez de algumas formulações do dispensacionalismo clássico quanto a tendência de determinadas leituras aliancistas de absorver Israel na Igreja. O Reino não é adiado nem inteiramente realizado; ele foi inaugurado na primeira vinda de Cristo, encontra-se em expansão durante a presente era e alcançará sua plena manifestação na restauração de Israel, no Reino milenar e, finalmente, na nova criação. A unidade do Reino, portanto, não elimina sua progressividade, mas constitui precisamente o princípio organizador da história da redenção.

O REINO MULTIDIMENSIONAL
CRISTO COMO AUTOBASILEIA

A compreensão do Reino de Deus como uma realidade multidimensional permite superar uma das principais dificuldades presentes tanto no dispensacionalismo clássico quanto em algumas formulações do dispensacionalismo progressivo: a ideia de que a rejeição de Israel teria alterado substancialmente o conteúdo da oferta do Reino feita por Jesus. A Escritura, porém, aponta para outra direção. O Reino anunciado por Jesus é exatamente o mesmo Reino prometido pelos profetas do Antigo Testamento (Is 2.1–4; 9.6–7; 11.1–10; Dn 2.44; 7.13–14, 27; Mq 4.1–8; Zc 14.9–21). Não há um reino diferente, uma redefinição de seu conteúdo ou uma substituição de seu propósito. O que ocorre ao longo da revelação bíblica é o desdobramento progressivo das múltiplas dimensões desse único Reino, cuja unidade repousa na pessoa do próprio Messias.

Essa perspectiva encontra um importante ponto de apoio na clássica expressão de Orígenes, que descreveu Cristo como a autobasileia, isto é, "o Reino em pessoa" (Comm. Matt. 14.7). Se Cristo é a própria manifestação do Reino, então o Reino não pode ser compreendido primariamente como um território, uma ordem política ou uma estrutura administrativa, mas como a manifestação histórica da autoridade messiânica do Filho de Deus. Todas as dimensões do Reino, soteriológica, pneumatológica, davídica, nacional, cósmica e escatológica, encontram sua unidade na pessoa e na obra do Rei. Em outras palavras, o Reino não é uma realidade independente do Messias; ele se manifesta onde e como o Messias decide exercer sua autoridade conforme o propósito do Pai.

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