Uma resposta ao Pr. Thomas Tronco
Dispensacionalismo Progressivo: Por que Sim?
Pastor Jonas J. Mendes
6/7/202643 min read


O Pr. Thomas Tronco é conhecido por seu apreço pelo estudo das Escrituras e por sua atuação em debates teológicos, especialmente na defesa do calvinismo. Trata-se de um homem piedoso, comprometido com a preservação da sã doutrina e com o cuidado pastoral da igreja, algo digno de reconhecimento. Como pastor, preocupa-se com aquilo que suas ovelhas estão consumindo teologicamente, o que é louvável. O nobre pastor, publicou no site da Igreja Batista Redenção, da qual é um dos pastores, um texto intitulado “Dispensacionalismo Progressivo: Por que Não?”. O artigo me foi enviado por um amigo e, ao lê-lo, fiquei surpreso ao perceber que ele reproduz algumas das mesmas caracterizações popularizadas por Charles Ryrie em suas críticas ao Dispensacionalismo Progressivo.[1] Em alguns pontos, entretanto, as caracterizações parecem ir ainda além.
Diante disso, decidi escrever uma resposta, não à pessoa do Pr. Thomas, mas às ideias apresentadas em seu artigo. Seu nome aparece no título apenas porque estou interagindo com seus argumentos específicos. Não devemos cair na falácia ad hominem. No ambiente acadêmico, divergências são normais e até necessárias. Contudo, é fundamental representar corretamente a posição do interlocutor. Caso contrário, corremos o risco de refutar uma caricatura construída por nós mesmos. Acabamos combatendo um espantalho, imaginando estar respondendo ao argumento real, e ainda saímos com a impressão de vitória.
Feitas essas observações preliminares, analisaremos brevemente algumas das caracterizações que o nobre pastor apresenta acerca do Dispensacionalismo Progressivo, doravante DP.
1 - Hermenêutica histórico-gramatical.
No que diz respeito à hermenêutica, o DP, segundo Thomas Tronco, adota a:
Hermenêutica histórico-gramatical e, em certos casos, uma hermenêutica complementar, que faz o NT dar novos sentidos ao AT, ainda que preserve seus sentidos originais. A interpretação dada às profecias do AT pelos escritores do NT deve ser a base apropriada de compreensão geral.[2]
A primeira parte do texto já apresenta certa confusão conceitual. Afirma-se:
“Hermenêutica histórico-gramatical e, em certos casos, uma hermenêutica complementar”.
Entretanto, não há concorrência entre a hermenêutica complementar (HC) e o método histórico-gramatical-literário-teológico (HGLT). A HC não foi concebida por Bock como um método hermenêutico alternativo ao histórico-gramatical, mas como uma abordagem utilizada para explicar a relação entre o Antigo e o Novo Testamento dentro do próprio método HGLT.[3] Em seguida, Thomas Tronco afirma que a HC “faz o NT dar novos sentidos ao AT, ainda que preserve seus sentidos originais”.
Aqui a dificuldade é ainda maior. Trata-se menos de uma descrição da posição de Bock e mais de uma caracterização feita por seus críticos.[4] O problema é que nenhuma citação é apresentada para sustentar essa afirmação. Bock não afirma que o Novo Testamento substitua ou altere o significado original dos textos do Antigo Testamento.[5] Ao contrário, ele insiste na preservação do significado original e critica explicitamente determinadas formas de prioridade do Novo Testamento que acabam anulando ou redefinindo o sentido do Antigo Testamento.[6] A afirmação de que “a interpretação dada às profecias do AT pelos escritores do NT deve ser a base apropriada de compreensão geral”, também não representa adequadamente a posição de Bock. Ele rejeita a ideia de que o Novo Testamento substitua ou controle o significado do Antigo Testamento.[7] Segundo suas próprias palavras, “cada passagem deve ser livre para falar em seus próprios termos”.[8] Sua proposta é uma leitura sistemático-canônica da Escritura na qual cada texto mantém sua integridade dentro da unidade progressiva da revelação.[9] Bock defende uma compreensão orgânica da revelação bíblica, segundo a qual não existe conflito entre os Testamentos. Como ele afirma: “Apesar do Novo Testamento desenvolver os ensinos do Antigo Testamento como avanço da história divina, não deveria ser perdido o ensino do Antigo Testamento no processo”.[10] Portanto, a questão não é a substituição do Antigo pelo Novo Testamento, mas o reconhecimento de que a revelação progride de forma coerente e complementar dentro do cânon. Para Bock, a revelação posterior pode ampliar, desenvolver e esclarecer aspectos do plano divino sem revogar o significado originalmente pretendido pelos autores veterotestamentários. Assim, o Novo Testamento não corrige o Antigo, mas o complementa dentro do desenvolvimento histórico da revelação.[11]
· Método Histórico-Gramatical e Hermenêutica Complementar
O Dr. Darrell Bock defende aquilo que denomina hermenêutica histórico-gramatical-literário-teológica (HGLT). Segundo ele, “o que emerge é aquilo que chamaremos de método histórico-gramatical-literário-teológico. Essa descrição quádrupla da hermenêutica é, na realidade, aquilo que muitos pretendem dizer quando falam simplesmente do método histórico-gramatical”.[12] Bock não entende sua proposta como uma ruptura com a hermenêutica histórico-gramatical tradicional, mas como um refinamento metodológico que leva em consideração não apenas os aspectos históricos e gramaticais do texto, mas também suas dimensões literárias, canônicas e teológicas dentro do desenvolvimento progressivo da revelação.[13] No que diz respeito à relação entre os Testamentos, Bock propõe aquilo que ficou conhecido como hermenêutica complementar.[14] É importante observar que essa expressão não designa um novo método hermenêutico paralelo ao histórico-gramatical, mas uma tentativa de explicar como a revelação posterior se relaciona com a revelação anterior. Segundo essa perspectiva, o Novo Testamento pode ampliar, desenvolver e revelar dimensões adicionais de promessas e textos do Antigo Testamento sem alterar ou revogar seu sentido original.[15] A revelação posterior não corrige a anterior nem a substitui; antes, complementa-a ao revelar implicações e desdobramentos do plano divino que ainda não haviam sido plenamente manifestos.[16]
Em sua participação na obra Three Views on the New Testament Use of the Old Testament, Bock argumenta em favor da ideia de “um único significado com múltiplos referentes e contextos”.[17] Essa formulação procura preservar a integridade semântica do texto original, ao mesmo tempo em que reconhece que o desenvolvimento da revelação pode expandir o alcance de suas aplicações e referentes históricos.[18] Nesse sentido, a hermenêutica complementar busca explicar fenômenos recorrentes da própria Escritura, especialmente a forma como os autores do Novo Testamento utilizam o Antigo Testamento.[19] Um exemplo frequentemente utilizado é o conceito da “descendência” ou “semente” de Abraão. No Antigo Testamento, a promessa possui múltiplas dimensões e aplicações. Em Gálatas 3, Paulo identifica Cristo como a descendência prometida a Abraão; posteriormente, afirma que os gentios crentes também participam dessa descendência mediante a união com Cristo pela fé. A questão hermenêutica que emerge é a seguinte: Paulo está apenas citando o Antigo Testamento ou está desenvolvendo implicações presentes no texto à luz do avanço da revelação? É precisamente nesse tipo de fenômeno que Bock localiza a necessidade de uma abordagem complementar (2024, p. 92-93, 110, 129, 136-137, 152).
O ponto central de sua argumentação é que a relação entre Antigo e Novo Testamento é mais complexa do que frequentemente se supõe. As Escrituras apresentam uma ampla variedade de relações intertextuais, incluindo citações explícitas, alusões, ecos literários, tipologia, correspondências analógicas e padrões de cumprimento progressivo. Pedro, por exemplo, relaciona o dilúvio ao batismo cristão (1Pe 3.20-21). Paulo afirma que Israel foi “batizado em Moisés” na nuvem e no mar (1Co 10.1-2), interpreta o maná e a água da rocha em termos tipológicos e chega a declarar que “a pedra era Cristo” (1Co 10.4). Tais exemplos demonstram que os autores do Novo Testamento frequentemente estabelecem conexões teológicas que ultrapassam uma mera repetição literal do significado imediato dos textos veterotestamentários.
Por essa razão, Bock sustenta que “alguns temas e textos possuem uma relação complementar”.[20] Em síntese, seu método hermenêutico permanece sendo o histórico-gramatical-literário-teológico. A abordagem complementar não constitui um método independente nem um princípio universal aplicado a todos os textos, mas uma categoria descritiva utilizada para explicar determinados aspectos da relação entre os Testamentos à luz da progressividade da revelação. Essa compreensão foi confirmada pelo próprio Bock em correspondência pessoal. Segundo ele: “Esse termo adicional é simplesmente uma maneira de dizer que o uso que o Novo Testamento faz do Antigo complementa aquilo que o Antigo Testamento estava dizendo, completando o que a linguagem havia declarado ou predito. Trata-se de parte da leitura histórico-gramatical-literário-teológica, pois está enraizada na maneira como Deus desdobra progressivamente seu plano ao longo do cânon”. Em tradução livre, Bock afirma que a hermenêutica complementar é apenas uma forma de descrever o fato de que o Novo Testamento complementa aquilo que o Antigo já dizia, levando à plenitude aquilo que havia sido anunciado dentro do desenvolvimento progressivo da revelação.
· O DP Oficialmente Adota a Hermenêutica Complementar?
Por fim, é importante observar que a hermenêutica complementar não constitui um elemento consensual nem essencial ao DP. Teólogos associados ao movimento, como Michael Vlach e Robert Saucy, não adotam essa terminologia. Vlach observa que o conceito de hermenêutica complementar “tem sido objeto de debate dentro do próprio dispensacionalismo e não representa a minha posição pessoal”.[21] Entretanto, ele acrescenta que essa divergência não altera o fato de que o DP continua afirmando a hermenêutica histórico-gramatical como fundamento para a interpretação de toda a Escritura. Isso demonstra que a complementaridade deve ser entendida como uma proposta específica de alguns autores progressivos para explicar a relação entre os Testamentos, e não como um princípio definidor do sistema como um todo.
Thomas Tronco conclui: PROBLEMA: Significa encarar o AT não como uma “revelação incompleta”, mas como uma “revelação incompreendida”. Nessa infeliz conclusão, Thomas Tronco afirma que a HC transforma o Antigo Testamento de uma “revelação incompleta” em uma “revelação incompreendida”. Contudo, essa caracterização não representa adequadamente a posição defendida por Bock. O DP não sustenta que os autores ou leitores do Antigo Testamento tenham compreendido erroneamente a revelação recebida. Isaías, Jeremias e Ezequiel entenderam suas profecias de acordo com a quantidade de revelação disponível em sua época. O problema não está na compreensão deles, mas na própria natureza progressiva da revelação divina. Deus não revelou todo o seu plano redentivo de uma só vez, mas o desdobrou gradualmente ao longo da história.[22]
Por isso, o Novo Testamento não corrige o Antigo nem lhe atribui um significado diferente. Ele amplia o quadro, revela dimensões anteriormente não manifestas e mostra como determinadas promessas se conectam ao desenvolvimento histórico do plano de Deus. O significado original permanece intacto; o que cresce é a compreensão do alcance desse significado à luz da revelação posterior. A própria Escritura reconhece esse princípio.[23] Pedro afirma que os profetas investigavam realidades cuja plenitude não lhes havia sido revelada (1Pe 1.10-12), e Paulo fala de mistérios que permaneceram ocultos em outras gerações, mas foram posteriormente manifestados (Ef 3.4-6). Portanto, a alternativa não é entre uma revelação “incompleta” e uma revelação “incompreendida”. A posição progressiva sustenta que a revelação era verdadeira e compreendida dentro de seus limites históricos, mas que Deus ainda tinha mais a revelar. Isso é progressividade da revelação, não correção da revelação.
2 – Nova Aliança
Segundo Thomas Tronco, o DP defende que:
Apesar de não crer que Israel foi rejeitado definitivamente, crê que a Nova Aliança já foi inaugurada por meio dos judeus remanescentes pela eleição da graça (Rm 11). Estando ela já inaugurada, a aliança davídica também deve estar vigente.
A primeira afirmação está correta. O DP sustenta que haverá uma restauração futura do Israel nacional na segunda vinda de Cristo, conforme Paulo ensina em Romanos 11.25-29.[24] Essa expectativa também encontra respaldo em diversas passagens do Antigo e do Novo Testamento, como Mateus 19.28, Atos 1.6-7, Atos 3.19-21 e Zacarias 12–14.[25] Entretanto, o restante da caracterização feita por Thomas Tronco é problemático. Ele afirma que o DP “crê que a Nova Aliança já foi inaugurada por meio dos judeus remanescentes pela eleição da graça (Rm 11)”. Essa formulação não representa a posição dos principais autores do DP.[26]
O DP sustenta que a Nova Aliança foi inaugurada por Cristo em sua primeira vinda e que algumas de suas bênçãos já são desfrutadas na presente era pela Igreja, composta de judeus e gentios unidos ao Messias.[27] Não se trata de uma inauguração limitada ao remanescente judaico mencionado em Romanos 11, mas de uma realidade mediada por Cristo e compartilhada por todos aqueles que estão nele.[28] David Lowery destaca: “Paulo considera que a nova aliança, pela qual os profetas do Antigo Testamento aguardavam (por exemplo, Is 59.20,21; Jr 31.31-34; 32.37-40; Ez 16.60-63; 37.21-28), foi iniciada por Cristo e levada adiante pelo Espírito (Rm 8.3,4; 2 Co 3.4-18). Por isso, ele conclui que a antiga aliança e as estipulações associadas à lei mosaica foram substituídas pelo ministério de Cristo e do Espírito (Rm 10.4; Gl 3.25)”.[29] Craig Blaising afirma que “a nova aliança agora foi inaugurada, isto é, as bênçãos pertencentes à nova aliança estão sendo dispensadas a todos os que creem em Jesus, sejam judeus ou gentios”.[30] O fundamento dessa posição não é Romanos 11, mas a própria obra de Cristo. Na última ceia, Jesus declarou: “Este cálice é a nova aliança no meu sangue” (Lc 22.20; cf. Mt 26.28; Mc 14.24). O autor de Hebreus também identifica Cristo como o mediador da Nova Aliança (Hb 8.6; 9.15; 12.24), afirmando que ela já foi estabelecida por meio de sua morte sacrificial. Carl B. Hoch, Jr. explica isso muito bem:
Os gentios são trazidos para perto de Israel em Cristo, a fim de participarem com Israel de suas alianças, promessas, esperança e comunhão com Deus. Eles não se tornam Israel, mas são feitos coparticipantes das bênçãos que Deus prometeu ao seu povo. Como observa Eadie, “o propósito do apóstolo é demonstrar que, por meio da morte de Cristo, a exclusividade da teocracia foi removida; que judeus e gentios, pela abolição da Lei mosaica como barreira de separação, foram colocados em igualdade de condição; e que ambos são reconciliados com Deus pelo sangue de Cristo”. Segundo Westcott, esse sangue é o sangue da Nova Aliança.[31]
Além disso, Blaising argumenta que Jesus é o Servo do Senhor anunciado por Isaías, aquele que não apenas proclama a aliança, mas a incorpora e a media pessoalmente, conforme Isaías 42.6 e 49.8.[32] Nesse sentido, Cristo é o agente por meio do qual as promessas da Nova Aliança começam a ser concretizadas. Robert Chisholm desenvolve argumento semelhante ao interpretar os cânticos do Servo em Isaías.[33] É verdade que a Nova Aliança foi originalmente prometida à “casa de Israel e à casa de Judá” (Jr 31.31). O DP não nega esse fato nem espiritualiza ou redefine seus destinatários originais.[34] Contudo, como Bruce Ware mostra, o Novo Testamento ensina que os gentios foram enxertados nas bênçãos espirituais decorrentes da obra do Messias (Rm 11.17-24; Ef 2.11-22; 3.6). Assim, a Igreja participa das bênçãos da Nova Aliança sem substituir Israel nem esgotar todas as promessas feitas à nação.[35]
Portanto, a posição progressiva não é que a Nova Aliança tenha sido inaugurada apenas por meio do remanescente judeu, mas que ela foi inaugurada por Cristo e já está em operação na presente era por meio da ação do Espírito Santo.[36] Ao mesmo tempo, o cumprimento pleno de suas dimensões nacionais, territoriais e restauracionistas, prometidas a Israel em textos como Jeremias 31.31-40, Jeremias 32.37-41, Ezequiel 36.24-28 e Ezequiel 37.21-28, aguarda consumação futura na restauração de Israel.[37]
· Aliança davídica
Thomas Tronco afirma: “Estando ela já inaugurada (a Nova Aliança), a aliança davídica também deve estar vigente”. A afirmação necessita de qualificação. Tudo depende do que se entende por “aliança davídica” e por “vigência”. Frequentemente, a aliança davídica é reduzida ao reino milenar ou ao assentamento de Cristo no trono de Davi em Jerusalém. Contudo, como Michael J. Vlach mostra, a promessa davídica é mais ampla do que isso, ela é “multifacetada”.[38] Essa compreensão é reforçada por Darrell Bock, que destaca o caráter multidimensional da aliança davídica. Em vez de reduzi-la apenas à promessa de um reino político futuro, Bock demonstra que ela envolve múltiplas dimensões interligadas que se desenvolvem progressivamente ao longo da história da redenção. Nesse sentido, a aliança davídica possui uma riqueza teológica que transcende leituras unidimensionais.
Como observa Bock:
A promessa davídica no Antigo Testamento não se limita a 2 Samuel 7, nem possui apenas um elemento definidor. Outros textos fundamentais que se referem a essa promessa incluem os Salmos 89 e 132, Isaías 9 e 11, Ezequiel 17, 34 e 36, e Amós 9.11–12. Os Salmos 89.24 e 132.17 falam do “chifre” davídico, assim como Lucas 1.69. O Salmo 132.11 afirma que a Descendência prometida de Davi se assentará em um trono, como também é declarado em Atos 2.30. O Salmo 132.17 menciona que Deus providenciará uma lâmpada para o seu Ungido, enquanto Isaías 9.2 descreve o Filho de Davi como uma grande luz que o povo veria (cf. Mt 4.14–17).
O Rei sustentará seu governo com justiça e retidão (Is 9.7; cf. Sl 45.6, citado em Hb 1.8: “cetro de justiça é o cetro do seu reino”). Isaías 11.2 afirma que o Espírito de Deus repousará sobre esse Rei (cf. Lc 3.21–22) e que ele trará sabedoria e entendimento (cf. Lc 11.29–32). Isaías 11.2 é provavelmente o elo que conecta Jesus ao papel de portador régio do Espírito (Lc 3.15–17; 24.49). Ezequiel 34.22–24 descreve um rebanho sob liderança régia, enquanto Ezequiel 36.25 apresenta essa era futura como um tempo marcado pela obra purificadora do Espírito. Esses temas reaparecem em João 10.1–18 e João 3.3–10, respectivamente. Amós 9.11–12 declara que o “tabernáculo” de Davi será restaurado, ponto retomado em Atos 15.15–18 como fundamento para a decisão do Concílio de Jerusalém. A Aliança Davídica contém muitos elementos e apresenta pontos de contato com outras promessas, como aquelas encontradas na Nova Aliança. Há mais na promessa do governo davídico do que simplesmente Cristo assentar-se sobre Israel nacional, embora isso também venha a se cumprir futuramente (Lc 22.28–30).[39]
Observa-se ainda que em 2 Samuel 7.12-16, Deus não prometeu apenas um trono e um reino, mas, antes de tudo, um descendente davídico específico. A estrutura da promessa começa com a pessoa do rei e somente depois trata de seu reino. O descendente prometido seria filho de Davi, edificaria a casa de Deus, desfrutaria de uma relação filial singular com o Senhor : “Eu lhe serei por pai, e ele me será por filho” (2Sm 7.14); e teria um reino e um trono estabelecidos para sempre (2Sm 7.13,16). Em outras palavras, o elemento central da aliança não é primeiramente o trono, mas o Rei que ocupará esse trono.[40]
Por essa razão, a chegada do Messias davídico não pode ser separada da própria realização da promessa davídica. Antes que haja o exercício pleno do reino prometido, é necessário que o Rei prometido venha ao mundo.[41] O Novo Testamento apresenta repetidamente Jesus como esse descendente davídico. O anjo anuncia a Maria que Deus lhe dará “o trono de Davi, seu pai” (Lc 1.32-33). Os magos procuram aquele que nasceu “Rei dos judeus” (Mt 2.2). A entrada triunfal em Jerusalém é descrita como o cumprimento de Zacarias 9.9: “Eis aí te vem o teu Rei” (Mt 21.5; Jo 12.15). Bartimeu o chama de “Filho de Davi” (Mc 10.47-48), e as multidões frequentemente o reconhecem com esse mesmo título messiânico (Mt 12.23; 15.22; 21.9).
A identificação de Jesus com o Filho prometido em 2 Samuel 7 também aparece explicitamente na teologia apostólica. Hebreus 1.5 aplica a Cristo as palavras de 2 Samuel 7.14: “Eu lhe serei Pai, e ele me será Filho”. O autor não trata a promessa apenas como uma realidade futura, mas como algo já cumprido na identidade messiânica de Jesus. Da mesma forma, Paulo inicia Romanos afirmando que o evangelho diz respeito ao Filho de Deus, “nascido da descendência de Davi segundo a carne” (Rm 1.3). Em 2 Timóteo 2.8, ele resume sua mensagem com as palavras: “Lembra-te de Jesus Cristo, ressuscitado dentre os mortos, descendente de Davi”. A identidade davídica de Jesus não é um detalhe periférico, mas um elemento central da cristologia apostólica.
Além disso, diversos temas associados à aliança davídica reaparecem na descrição neotestamentária de Cristo. O Filho amado do Pai (Mt 3.17; 17.5) ecoa a linguagem régia e filial dos Salmos messiânicos e de 2 Samuel 7. O Renovo da raiz de Jessé prometido pelos profetas (Is 11.1,10) é identificado com Jesus (Rm 15.12). Em Apocalipse 5.5, ele é o “Leão da tribo de Judá, a Raiz de Davi”, cuja vitória o qualifica para executar os propósitos de Deus na história. Em Apocalipse 22.16, o próprio Cristo declara: “Eu sou a Raiz e a Geração de Davi”.
Nesse sentido, afirmar que a aliança davídica já possui uma dimensão inaugurada não exige concluir que todas as suas promessas já tenham alcançado sua consumação.[42] Significa reconhecer que o Rei prometido já veio. O herdeiro davídico já foi revelado. O Filho prometido já foi identificado.[43] O Messias já foi ungido e vindicado por Deus. Aquele em torno de quem todas as promessas davídicas gravitam já entrou na história. A promessa não permanece aguardando o surgimento do Rei; ela aguarda a consumação plena daquilo que foi prometido ao Rei.[44]
· Aspecto Multidimensional das Alianças da Promessa
Essa realidade também explica a estreita conexão entre as alianças abraâmica, davídica e nova. O rei davídico é o instrumento por meio do qual as bênçãos prometidas a Abraão alcançam todas as famílias da terra.[45] Paulo identifica Cristo como a “descendência” prometida a Abraão (Gl 3.16) e ensina que, nele, a bênção abraâmica chega aos gentios (Gl 3.14). É igualmente por meio de Cristo, o Mediador da Nova Aliança, que as bênçãos prometidas por Deus são concedidas ao seu povo (Lc 22.20; Hb 8.6; 9.15; 12.24). As alianças bíblicas não operam de forma independente, mas integram um único propósito redentivo que converge na pessoa e na obra do Messias (Gl 3.16–18; Ef 1.9–10; 2.11–22).[46] Por isso, elas apresentam múltiplas dimensões: espiritual, nacional, régia, territorial, internacional e multiétnica, que se complementam dentro do plano divino. Essa unidade orgânica explica a profunda relação entre as alianças abraâmica, davídica e nova, visto que as promessas feitas a Abraão encontram seu cumprimento messiânico no Filho de Davi e sua aplicação redentiva na Nova Aliança (Lc 1.32–33, 68–75; At 2.30–36; Rm 15.8–12).[47]
Paulo afirma que “quantas são as promessas de Deus, tantas têm nele o sim” (2Co 1.20). Em outras palavras, todas as promessas redentivas de Deus encontram sua confirmação, garantia e realização em Cristo. Nenhuma aliança se cumpre à parte dele, porque ele é o centro unificador de toda a história da redenção. Por essa razão, o Novo Testamento frequentemente apresenta Cristo como o ponto de convergência das alianças. Ele é a descendência prometida a Abraão, por meio de quem as nações são abençoadas (Gn 12.3; 22.18; Gl 3.16). Ele é o Filho de Davi, herdeiro das promessas régias e messiânicas de 2 Samuel 7 (Lc 1.32-33; Rm 1.3; 2Tm 2.8). Ele é também o mediador da Nova Aliança, por meio de cujo sangue as promessas de Jeremias 31 começam a ser efetivamente aplicadas ao povo de Deus (Lc 22.20; Hb 8.6; 9.15; 12.24).[48]
Não surpreende, portanto, que Paulo e os demais autores do Novo Testamento transitem naturalmente entre temas abraâmicos, davídicos e da Nova Aliança. Eles não confundem as alianças nem apagam suas distinções, mas reconhecem que todas elas estão organicamente unidas em Cristo. O mesmo Messias que cumpre as promessas feitas a Abraão é o Filho de Davi prometido pelos profetas e o mediador da Nova Aliança anunciada por Jeremias. Por isso, a chegada de Cristo representa não apenas o início do cumprimento de uma aliança específica, mas a irrupção histórica daquele em quem todas as alianças encontram sua unidade, coerência e consumação final.[49] Portanto, quando se afirma que a Nova Aliança já foi inaugurada, não decorre necessariamente que todas as promessas escatológicas da aliança davídica já tenham sido consumadas.[50] Contudo, é difícil negar que a própria aliança davídica já entrou na história de maneira decisiva na pessoa de Jesus Cristo. Afinal, o centro da promessa davídica não é primeiramente um trono, um território ou um reino, mas o Filho de Davi a quem Deus prometeu dar todas essas coisas.
Diante do que foi exposto, a crítica de Thomas Tronco: “Dizer que a Nova Aliança está vigente com o remanescente israelita não resolve o problema do relacionamento da igreja com ela, nem cumpre a promessa da abrangência total de Israel”, não parece atingir adequadamente a posição do Dispensacionalismo Progressivo. Isso porque o DP não sustenta que a Nova Aliança esteja atualmente restrita ao remanescente israelita. Ao contrário, afirma que suas bênçãos já são compartilhadas pela igreja em Cristo, sem negar seu cumprimento futuro e pleno para Israel. Assim, a objeção parece dirigir-se a uma posição diferente daquela efetivamente defendida pelos dispensacionalistas progressivos.
3 – Igreja e Israel
Thomas Tronco diz que o DP
Vê a Igreja como uma progressão do plano do Senhor para a redenção da humanidade, com a salvação sendo oferecida pela graça a todo aquele que crê e obedece ao evangelho. PROBLEMA: Faz confusão entre o plano de Deus para a história e o plano de Deus para Israel.
A primeira observação acerca da crítica do pastor encontra-se no campo da lógica argumentativa. Em qualquer raciocínio válido, a conclusão deve decorrer necessariamente das premissas apresentadas. Em outras palavras, a conclusão precisa ser sustentada pelas evidências e afirmações que a precedem. Contudo, isso não parece ocorrer nesse caso. O autor afirma que o DP “vê a Igreja como uma progressão do plano do Senhor para a redenção da humanidade, com a salvação sendo oferecida pela graça a todo aquele que crê e obedece ao evangelho”. Em seguida, apresenta como objeção: “PROBLEMA: Faz confusão entre o plano de Deus para a história e o plano de Deus para Israel”. Entretanto, não demonstra de que modo a primeira afirmação conduz necessariamente à segunda. A relação lógica entre ambas permanece não explicitada.
Mesmo que se aceite integralmente a descrição feita acerca do DP, não segue daí que haja qualquer confusão entre o plano redentor de Deus para a humanidade e seus propósitos específicos para Israel. A conclusão introduz um elemento que não está contido nas premissas nem foi devidamente demonstrado ao longo da argumentação. Em termos lógicos, trata-se de um caso clássico de non sequitur (“não se segue”), isto é, uma conclusão que não decorre das proposições anteriormente estabelecidas.[51] Sendo assim, vou apenas apresentar um pouco do que o DP acredita a respeito do que foi elencado.
· O Propósito Eterno de Deus
O Dispensacionalismo Progressivo não ensina dois planos divinos, mas um único propósito eterno de Deus centrado em Cristo (Ef 1.9-10), desenvolvido progressivamente na história da redenção. Israel não existe paralelamente a esse plano, mas dentro dele, ocupando um papel fundamental na realização das promessas divinas (Rm 9–11).[52] Da mesma forma, a Igreja não constitui um programa distinto ou concorrente, mas participa do mesmo propósito redentor por meio da união com Cristo (Ef 2.11-22; 3.6; Cl 1.16-20).[53] A unidade do plano de Deus, porém, não implica a eliminação das distinções históricas e pactuais estabelecidas por Ele. Assim, afirmar um único plano da redenção não significa confundir Israel e Igreja, mas reconhecer que ambos encontram seu lugar próprio dentro do mesmo propósito divino que culmina na recapitulação de todas as coisas em Cristo (Ef 1.10).[54] Trata-se de um plano redentivo de alcance cósmico, que não visa apenas a salvação individual, mas a renovação integral da criação sob o governo messiânico do Filho (Rm 8.19-23; At 3.21).[55]
Entretanto, a unidade desse propósito não implica a dissolução das distinções estabelecidas pelo próprio Deus na economia da redenção.[56] A Escritura apresenta uma única salvação para judeus e gentios, fundamentada na mesma graça, recebida mediante a mesma fé e mediada pelo mesmo Cristo (Rm 3.29-30; 10.12; Gl 3.28-29). Todavia, essa unidade soteriológica não elimina a diversidade das estruturas históricas, étnicas e pactuais presentes no plano divino.[57] As alianças, promessas e vocações vinculadas a Israel permanecem parte integrante da revelação bíblica e do propósito escatológico de Deus (Gn 12.1-3; 15.18-21; 2Sm 7.12-16; Rm 11.28-29).
Craig Blaising mostra que a distinção entre Israel e a igreja não deve ser compreendida como a existência de dois povos redimidos com destinos paralelos nem como duas humanidades separadas diante de Deus. Antes, trata-se da distinção entre diferentes agrupamentos dispensacionais dentro do único povo redimido de Deus. Na dispensação anterior, as bênçãos pactuais estavam concentradas em Israel, enquanto os gentios permaneciam alienados das alianças da promessa (Ef 2.11-12). Na presente dispensação, porém, as bênçãos escatológicas do Espírito são derramadas igualmente sobre judeus e gentios em Cristo, formando uma comunidade reconciliada e participante das promessas messiânicas (Ef 2.13-22; 3.4-6).[58]
Por essa razão, a igreja não constitui uma nova entidade étnica nem uma terceira raça destinada a substituir Israel. A categoria “igreja” refere-se à união escatológica dos redimidos com Cristo pelo Espírito Santo, união pela qual a vida do Cristo ressurreto se manifesta na nova humanidade criada por Deus (Ef 2.15; 1Co 12.13).[59] Israel e as nações, por sua vez, pertencem a outra esfera conceitual: a da pluralidade histórica, étnica, cultural e política da humanidade redimida. Paulo ensina que judeus e gentios foram reconciliados em um só corpo, mas jamais afirma que os gentios se tornaram Israel ou que Israel perdeu sua identidade histórica no propósito divino (Rm 11.1-2, 25-29).[60]
Consequentemente, segundo Blaising e Bock, a unidade produzida pelo Espírito não anula as distinções que caracterizam a diversidade da criação redimida. A humanidade restaurada não é concebida nas Escrituras como uma massa homogênea de indivíduos sem identidade histórica, mas como uma comunidade reconciliada cuja diversidade é integrada sob o senhorio universal de Cristo. É precisamente essa realidade que permite compreender o cumprimento futuro das promessas feitas a Israel e, ao mesmo tempo, a participação das nações na plenitude do Reino messiânico (Is 2.2-4; Zc 14.16-19; Ap 21.24-26). Assim, a unidade da redenção e a continuidade das promessas a Israel não constituem conceitos antagônicos, mas aspectos complementares do mesmo plano divino, cuja consumação será a convergência de todas as coisas em Cristo (Ef 1.10).[61]
4 – Escatologia realizada e Igreja como Israel o do Criador
O Pr. Thomas tronco diz que o DP:
Vê a Igreja como um cumprimento pleno das profecias do AT (sem negar as futuras concretizações literais referentes ao Reino Milenar de Jesus sobre as nações, assentando-se sobre o Trono de Israel em Jerusalém). Vê os santos de todas as épocas como pertencentes a um mesmo Corpo: O Israel do Criador. PROBLEMA: Aproximação perigosa do aliancismo, o qual não se moveu um milímetro no sentido do dispensacionalismo progressivo.
Bom, o que se deve dizer dessa afirmação? Em termos estritamente teológicos, ela não corresponde ao que é sustentado por representantes centrais do DP como Craig Blaising, Darrell Bock, Robert L. Saucy ou Michael Vlach. Além disso, há no texto uma confusão categorial entre o modelo de escatologia inaugurada (inaugurated eschatology), e a noção de escatologia realizada (realized eschatology), o que compromete a precisão da crítica.
A escatologia realizada, associada a C. H. Dodd, tende a identificar o “já” do Reino com sua consumação plena, reduzindo a tensão escatológica do Novo Testamento. O problema dessa leitura é que ela não preserva a estrutura dialética fundamental da esperança cristã, na qual a ressurreição, a renovação cósmica e a consumação do Reino permanecem futuros (Rm 8.18–23; 1Co 15.20–28; Ap 21–22). Darrell Bock mostra que a escatologia realizada erra ao defender a que a promessa do futuro veio completamente agora e ao ler o Novo Testamento voltado para o Antigo Testamento.[62] O DP não se confunde com essa posição. Ele opera explicitamente dentro da lógica do “já e ainda não”, em que algumas bençãos soteriológicas já foram inauguradas em Cristo, mas não consumadas historicamente (Lc 17.21; Mt 12.28; At 1.6–8).[63]
Nesse sentido, é incorreto afirmar que o DP “vê a Igreja como cumprimento pleno das profecias do Antigo Testamento”, se por “pleno” se entende consumação exaustiva ou substitutiva. O que o Novo Testamento de fato demonstra é uma realização progressiva e mediada cristologicamente das promessas abraâmicas: os gentios são enxertados na promessa (Gl 3.14), participam da mesma herança em Cristo (Ef 3.6), e tornam-se coerdeiros (Rm 8.17), sem que isso implique a eliminação da identidade histórica de Israel enquanto povo da aliança (Rm 11.1–2; 11.25–29). A estrutura paulina é decisiva aqui: há inclusão dos gentios na bênção abraâmica sem revogação da eleição histórica de Israel. A oliveira de Romanos 11 não é reconstituída como nova entidade homogênea, mas preserva a continuidade do tronco e a distinção entre ramos naturais e enxertados (Rm 11.17–24). O ponto de Paulo não é fusão identitária, mas participação diferenciada na mesma raiz pactual.
Quanto à alegação de que o DP concebe “os santos de todas as épocas como pertencentes a um mesmo corpo: o Israel do Criador”, não há, na literatura técnica de Blaising, Bock ou Saucy, formulação equivalente. Trata-se de uma reconstrução conceitual sem base textual explícita. O vocabulário do DP distingue rigorosamente entre categorias soteriológicas (igreja como corpo de Cristo, 1Co 12.13) e categorias histórico-redentivas (Israel e nações), evitando justamente a fusão ontológica que essa crítica sugere. Por fim, a acusação de “aproximação perigosa ao aliancismo” carece de sustentação sistemática. O DP mantém diferenças estruturais em relação ao aliancismo clássico: preserva a distinção Israel–igreja (Rm 11.28–29), afirma a historicidade das promessas territoriais e nacionais (Gn 15.18–21; Ez 36–37), e sustenta uma escatologia futurista com consumação histórica do Reino (Ap 20.1–6). Isso o distancia tanto do supersessionismo quanto de leituras puramente espiritualizantes.
O Pr. Thomas Tronco diz ainda: “Aproximação perigosa do aliancismo, o qual não se moveu um milímetro no sentido do dispensacionalismo progressivo”. Nessa perspectiva o DP está buscando se aproximar do aliancismo, porém os aliancistas continuam resolutas e não dão nenhum passo em direção ao DP. Primeiro que o DP deseja se aproximar de uma leitura e interpretação correta das escrituras, e não do aliancismo. Segundo, parece que o pr ignora as revisões que aconteceram dentro do próprio aliancismo com a Teologia da Nova Aliança (New Covenant Theology)[64], com Douglas Moo, D. A. Carson, etc...[65] Sem contar que temos também o “Aliancismo Progressivo” de Peter J. Gentry e Stephen J. Wellum, formulado no livro: Kingdom through Covenant: A Biblical-Theological Understanding of the Covenants. No Brasil, foi publicado uma versão resumida do livro pela Editora Vida Nova.[66] Isso mostra que revisões internas, são normais e até necessárias. Toda interpretação precisa ser submetida às escrituras constantemente.
Em termos metodológicos, portanto, a questão não pode ser resolvida por imputações genéricas de aproximação entre sistemas (aliancismo disfarçado, etc...), mas pela análise exegética das estruturas bíblicas: a tensão entre unidade cristológica da redenção e a permanência de distinções histórico-redentivas (Rm 9–11; Ef 2.11–22; Gl 3.26–29). É nesse nível que o debate deve ser conduzido, não por sobreposições conceituais não demonstradas, mas pela fidelidade ao desenvolvimento interno do texto bíblico. Quando sairmos do campo das caricaturas e entramos na seara da exegese, sem reducionismo ou estigmatização, aí sim teremos um debate produtivo no cenário da Teologia brasileira.
5 – Trono de Davi
Tronco diz que para o DP:
O reino davídico já foi inaugurado, tendo Jesus assentado agora no trono de Davi nos céus (segundo Darrell Bock, “o trono celestial e o trono de Davi são um e o mesmo”). Mesmo assim, os aspectos terrenos desse reino aguardam a vinda de Jesus. PROBLEMA: Identificação irregular e implicações teológicas equivocadas ligadas ao conceito do reino davídico.
Dizer que o DP adota determinada crença simplesmente porque um de seus proponentes a sustenta não parece metodologicamente adequado. Afinal, seria correto afirmar que todo dispensacionalista subscreve integralmente o pensamento de Darby, Scofield, Chafer, Ryrie ou Walvoord? Evidentemente que não. Nenhuma tradição teológica é definida pela totalidade das opiniões particulares de um de seus representantes. Sistemas teológicos são identificados por seus pressupostos fundamentais e por seus consensos centrais, não por todas as posições individuais defendidas por cada autor. Portanto, atribuir ao DP uma determinada doutrina apenas porque um de seus expoentes a defende é confundir uma opinião particular com aquilo que efetivamente caracteriza o sistema como um todo.
De fato, Darrell Bock defende que Jesus já está reinando, em sentido inaugurado, no trono davídico, atualmente exercido nos céus à direita do Pai. Contudo, ao contrário do que algumas críticas ao DP sugerem, essa formulação não constitui um ponto uniforme nem essencial dentro do DP. Autores como Robert Saucy[67], Michael Vlach e Craig Blaising não a adotam da mesma maneira, privilegiando uma distinção mais marcada entre o reinado presente de Cristo à direita do Pai e o futuro cumprimento davídico em sentido pleno, no trono de Davi (Lc 1.32-33). O próprio Blaising afirma: “Pessoalmente, eu não falo de Cristo como atualmente reinando no trono de Davi, porque essa linguagem se aplica melhor ao futuro reinado sobre a terra”.[68] Nesse sentido, preserva-se a expectativa de um cumprimento escatológico literal das promessas davídicas (2Sm 7.12–16; Lc 1.32–33; At 3.20–21). Assim, é mais adequado distinguir entre o trono celestial atual de Cristo, associado à sua exaltação à direita do Pai (Sl 110.1; At 2.33–36; Hb 1.3), e o trono davídico propriamente dito, que se refere ao reinado messiânico de Cristo sobre a terra (Ap 5.10; 20.4–6). É nesse sentido que se entende a promessa de participação dos santos no governo futuro com Cristo (Mt 19.28; 2Tm 2.12), quando o Reino será plenamente manifesto.
Conclusão
Embora o Dispensacionalismo Progressivo tenha surgido há mais de três décadas e conte com uma produção acadêmica significativa, ele ainda permanece relativamente desconhecido no contexto brasileiro. Grande parte de suas obras fundamentais, artigos especializados e debates acadêmicos continua disponível apenas em inglês, o que dificulta o acesso direto às suas propostas e frequentemente faz com que muitos o conheçam apenas por meio de seus críticos. Como resultado, não são raras as caricaturas e simplificações que acabam sendo reproduzidas como se representassem fielmente o sistema. Entretanto, uma análise das fontes primárias demonstra que o Dispensacionalismo Progressivo possui uma estrutura teológica consistente, uma hermenêutica cuidadosamente desenvolvida e sólida fundamentação exegética. Longe de representar uma ruptura com o dispensacionalismo histórico ou uma aproximação ao aliancismo, ele procura responder de forma mais abrangente aos dados da revelação bíblica, enfatizando o progresso da revelação, a unidade do plano redentivo de Deus e a continuidade entre promessa e cumprimento.
Concorde-se ou não com suas conclusões, o Dispensacionalismo Progressivo merece ser avaliado a partir de seus próprios autores e argumentos. Somente assim o debate poderá ocorrer de maneira justa, acadêmica e teologicamente responsável.
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[1] Para ver as caricaturas, Cf. RYRIE, Charles C. Dispensacionalismo. Organização de Mark A. Swedberg. Tradução de Simone Granconato. São Paulo: Batista Regular do Brasil, 2020. p. 259-292.
[2] TRONCO, Thomas. Dispensacionalismo Progressivo: Por que não? Igreja Batista Redenção, [s.d.]. Disponível em: https://www.igrejaredencao.org.br/ibr/index.php?option=com_content&view=article&id=3137:dispensacionalismo-progressivo-por-que-nao&catid=62:dispensacionalismo&Itemid=176. Acesso em: 4 jun. 2026.
[3] BOCK, Darrell L. Covenants in Progressive Dispensationalism. In: BATEMAN IV, Herbert W. Three Central Issues in Contemporary Dispensationalism: a comparison of traditional and progressive views. Grand Rapids: Kregel Publications, 1999, p. 89-91.
[4] O professor de Novo Testamento Thomas Robert foi um dos que cometeu esse erro em seu artigo: THOMAS, Robert L. “The Hermeneutics of Progressive Dispensationalism”. The Master's Seminary Journal, Sun Valley, CA, v. 6, n. 2, p. 79–95, Spring 1995. No artigo: Progressive Movement: A Contemporary Subtradition (1980–Present). In: MARSH, Cory M.; FAZIO, James I. (org.). Discovering Dispensationalism: Tracing the Development of Dispensational Thought from the First to the Twenty-First Century. El Cajon, CA: SCS Press, 2023. Darrell Bock responde mostrando como Thomas Robert não compreendeu a hermenêutica complementar, e acrescenta: “há uma certa ironia nessa crítica à leitura complementar. Os dispensacionalistas que classificam textos do Antigo Testamento como milenares precisam fazê-lo por meio de alguma forma de leitura complementar, visto que a categoria “milênio” não existia para o autor veterotestamentário, mas deriva do livro de Apocalipse. Assim, mesmo os dispensacionalistas revisionistas, tradicionais ou “normativos” realizam leituras complementares do Antigo Testamento do mesmo tipo que descrevemos ao explicar, por meio desse conceito, a relação hermenêutica entre as promessas do Antigo Testamento e sua realização no Novo Testamento. Embora a revelação possa progredir à medida que a promessa se desdobra, não perdemos, nesse processo, aquilo que Deus se comprometeu a realizar, nem perdemos de vista os destinatários originais dessas promessas” (2023, p. 335).
[5] Cf. BOCK, Darrell. Progressive Movement: A Contemporary Subtradition (1980–Present). In: MARSH, Cory M.; FAZIO, James I. (org.). Discovering Dispensationalism: Tracing the Development of Dispensational Thought from the First to the Twenty-First Century. El Cajon, CA: SCS Press, 2023, p. 340-341.
[6] BLAISING, Craig A.; BOCK, Darrell L. Dispensacionalismo progressivo. 2. ed. Tradução de Matheus Fernandes e Carlos Augusto Pires Dias. Niterói, RJ: Concílio, 2022, p. 129.
[7] Bock afirma que “ambas as abordagens” (prioridade do NT ou AT), “quando elevadas à condição de cânones invioláveis, impedem uma leitura sensível do progresso da revelação e correm o risco de impedir que cada passagem fale por si mesma. Cada texto deve ser examinado em seus próprios termos e dentro de seu próprio contexto” (1993, p. 447).
[8] BOCK, Darrell. 2022, p. 138.
[9] BOCK, Darrell. 2022, p. 133-134.
[10] BLAISING, Craig A.; BOCK, Darrell L. Dispensacionalismo progressivo. 2. ed. Tradução de Matheus Fernandes e Carlos Augusto Pires Dias. Niterói, RJ: Concílio, 2022, p. 110.
[11] MERKLE, Benjamin L. Discontinuity to Continuity: A Survey of Dispensational and Covenantal Theologies. Bellingham, WA: Lexham Press, 2020, p. 84-85.
[12] BLAISING, Craig A.; BOCK, Darrell L. Dispensacionalismo progressivo. 2. ed. Tradução de Matheus Fernandes e Carlos Augusto Pires Dias. Niterói, RJ: Concílio, 2022, p. 104.
[13] BLAISING, Craig A.; BOCK, Darrell L. Dispensacionalismo progressivo. 2. ed. Tradução de Matheus Fernandes e Carlos Augusto Pires Dias. Niterói, RJ: Concílio, 2022, p. 104-138.
[14] Bock define a hermenêutica complementar como “uma abordagem que funciona naturalmente como resultado do progresso da revelação dentro de uma leitura histórico-gramatical-literária do texto. Tal hermenêutica produz camadas adicionais de sentido e especificidade para um texto à medida que o intérprete se move do contexto mais próximo para contextos mais amplos. A base para essa leitura complementar da esperança divina encontra-se em Mateus 13.52. Jesus comparou o escriba do Reino a um pai de família que tira do seu tesouro coisas novas e velhas. Paulo argumentou de maneira semelhante quando conectou o conteúdo do mistério do evangelho às Escrituras do Antigo Testamento (Rm 11.25–27). Isso significa que o ensino sobre o plano de Deus e a missão de Jesus possui continuidade com a esperança e as promessas do Antigo Testamento, mas também pode conter verdades novas. O antigo e o novo são colocados lado a lado e se complementam mutuamente. Não se trata de uma escolha entre uma opção ou outra, mas de uma abordagem que afirma ambas” (1993, p. 447).
[15] BOCK, Darrell L. “The Son of David and the Saints’ Task: The Hermeneutics of Initial Fulfillment”. Bibliotheca Sacra, Dallas, v. 150, n. 600, p. 440-457, out. 1993, p. 446-7.
[16] BOCK, Darrell L. “The Son of David and the Saints’ Task: The Hermeneutics of Initial Fulfillment”. Bibliotheca Sacra, Dallas, v. 150, n. 600, p. 440-457, out. 1993, p. 446.
[17] BOCK, Darrell L. Single meaning, multiple contexts and referents: the New Testament's legitimate, accurate, and multifaceted use of the Old. In: BERDING, Kenneth; LUNDE, Jonathan (org.). Three Views on the New Testament Use of the Old Testament. Grand Rapids, MI: Zondervan, 2008.
[18] A posição de Bock em: Darrell L. Bock, "Evangelicals and the Use of the Old Testament in the New: Part 2," Bibliotheca Sacra 142: 568 (1985): 306-316. Parece se aproximar da abordagem do Referentiae Plenior. Sobre a abordagem do referentiae plenior e a defesa de um significado único do texto bíblico com desenvolvimento progressivo na revelação, ver: Elliot E. Johnson, “Dual Authorship and the Single Meaning of Scripture”, em Roy B. Zuck (ed.), Rightly Divided: Readings in Biblical Hermeneutics (Grand Rapids: Kregel, 1996), p. 218-227; ELLIOTT E. JOHNSON, Expository Hermeneutics: An Introduction (Grand Rapids: Zondervan, 1990); J. I. Packer, “Biblical Authority, Hermeneutics and Inerrancy”, em E. R. Geehan (ed.), Jerusalem and Athens: Critical Discussions on the Theology and Apologetics of Cornelius Van Til (Phillipsburg: Presbyterian and Reformed, 1971), p. 147-148; J. I. Packer, “Hermeneutics and Biblical Authority”; ROY B. ZUCK, A Interpretação Bíblica (São Paulo: Vida Nova, 1994); NORMAN L. GEISLER, “The Relation of Purpose and Meaning in Interpreting Scripture”, em Roy B. Zuck (ed.), Rightly Divided: Readings in Biblical Hermeneutics (Grand Rapids: Kregel, 1996). Para aproximações semelhantes, ver também Darrell L. Bock, “Evangelicals and the Use of the Old Testament in the New: Part 2”, p. 306-319; e Carlos Osvaldo Pinto, The Contribution of the Isaiah Quotations to Paul’s Argument in Romans 9–11. Cf. ABDALLA, Tiago. “Uma proposta de abordagem hermenêutica para a compreensão do uso do Antigo Testamento no Novo Testamento – parte 2”. Teologia Brasileira, n. 107, 2025.
[19] Para um resumo claro e bem fundamentado das perspectivas de Walter C. Kaiser Jr., Darrell L. Bock e Peter Enns sobre o uso do Antigo Testamento no Novo Testamento, discutidas na obra Three Views on the New Testament Use of the Old Testament, recomenda-se o excelente artigo de Matheus Vasconcelos Marques: MARQUES, Matheus Vasconcelos. Entendendo o centro gravitacional da discussão sobre o uso do AT no NT. Teologia Brasileira, n. 107, 31 jan. 2024. Disponível em: https://teologiabrasileira.com.br/entendendo-o-centro-gravitacional-da-discussao-sobre-o-uso-do-at-no-nt/.
[20] BLAISING, Craig A.; BOCK, Darrell L. Dispensacionalismo progressivo. 2. ed. Tradução de Matheus Fernandes e Carlos Augusto Pires Dias. Niterói, RJ: Concílio, 2022, p. 137.
[21] VLACH, Michael J. Progressive Dispensationalism. Journal of Biblical and Theological Studies, v. 9, 2024.
[22] BOCK, Darrell L. Covenants in Progressive Dispensationalism. In: BATEMAN IV, Herbert W. Three Central Issues in Contemporary Dispensationalism: a comparison of traditional and progressive views. Grand Rapids: Kregel Publications, 1999, p. 94-97.
[23] Bock diz que o DP “afirma um significado estável nos textos, a dupla autoria, o progresso da revelação e o caráter dinâmico da história e da promessa. A hermenêutica progressiva sustenta que os textos bíblicos possuem um significado estável, ao mesmo tempo em que reconhece as implicações da dupla autoria das Escrituras — divina e humana — no desdobramento gradual das promessas de Deus. O argumento literário-teológico é que Deus revela progressivamente a concretização de suas promessas à medida que a Escritura desenvolve seu significado e introduz novas promessas e conexões” (1999, p. 94-95).
[24] Sobre restauração de Israel, Cf. BLAISING, Craig A. “The Future of Israel as a Theological Question”. Journal of the Evangelical Theological Society, v. 44, n. 3, p. 435–450, set. 2001.
[25] Cf. BOCK, Darrell L. Progressive Dispensationalism. In: PARKER, Brent E.; LUCAS, Richard J. (ed.). Covenantal and dispensational theologies: four views on the continuity of Scripture. Downers Grove, IL: InterVarsity Press, 2021. p. 138-146.
[26] Cf. BLAISING, Craig A. O plano de Deus para a história: a consumação. In: BINGHAM, Jeffrey; KREIDER, Glenn. Dispensacionalismo e a história da redenção. Tradução de Renato Cunha e Ítalo Medeiros. Revisão técnica de Ivan Santos. 1. ed. São Paulo: Editora Carisma, 2024. p. 243-243.
[27] BLAISING, Craig A. Uma teologia de Israel e da Igreja. In: BOCK, Darrell L.; GLASER, Mitch. Israel, a Igreja e o Oriente Médio: uma resposta bíblica para o conflito na atualidade. Tradução de Cláudia Chieco Calabrez Kriger. Eusébio, CE: Peregrino, 2020. p. 116-119.
[28] Robert L. Saucy, The Case for Progressive Dispensationalism: The Interface Between Dispensational and Non-Dispensational Theology (Grand Rapids, MI: Zondervan Publishing House, 1993, p. 126-127. p. 123-123.
[29] LOWERY, David K. Teologia das epístolas missionárias de Paulo. In: ZUCK, Roy B. (ed.). Teologia do Novo Testamento. Editor consultor: Darrell L. Bock. Rio de Janeiro: CPAD, 2008. p. 284-285.
[30] BLAISING, Craig A.; BOCK, Darrell L. Dispensacionalismo progressivo. 2. ed. Tradução de Matheus Fernandes e Carlos Augusto Pires Dias. Niterói, RJ: Concílio, 2022, p. 266.
[31] Carl B. Hoch Jr., “The New Man of Ephesians 2”, in Craig A. Blaising e Darrell L. Bock (eds.), Dispensationalism, Israel and the Church: The Search for Definition (Grand Rapids, MI: Zondervan, 1992), p. 113.
[32] BLAISING, Craig A.; BOCK, Darrell L. Dispensacionalismo progressivo. 2. ed. Tradução de Matheus Fernandes e Carlos Augusto Pires Dias. Niterói, RJ: Concílio, 2022, p. 221. BLAISING, Craig A. Uma teologia de Israel e da Igreja. In: BOCK, Darrell L.; GLASER, Mitch. Israel, a Igreja e o Oriente Médio: uma resposta bíblica para o conflito na atualidade. Tradução de Cláudia Chieco Calabrez Kriger. Eusébio, CE: Peregrino, 2020. p. 116.
[33] CHISHOLM JR., Robert B. Isaías 42.1–9: a incumbência do Servo do Senhor. In: RYDELNIK, Michael; BLUM, Edwin (org.). Manual de profecia messiânica: estudos e exposições sobre o Messias no Antigo Testamento. Tradução de Marcio Loureiro Redondo. São Paulo: Vida Nova, 2024. p. 1014-1015. Cf. BOCK, Darrell L. 1999, p. 194. Cf. BLAISING; BOCK, 2022. p. 221.
[34] VLACH, Michael J. Ele reinará para sempre: uma teologia bíblica do reino de Deus. Tradução de Valberth Veras. Eusébio, CE: Peregrino, 2021. p. 629.
[35] WARE, Bruce A. The New Covenant and the People(s) of God. In: BLAISING, Craig A.; BOCK, Darrell L. (ed.). Dispensationalism, Israel and the Church: The Search for Definition. Grand Rapids, MI: Zondervan, 1992. p. 84-97.
[36] Robert L. Saucy, The Case for Progressive Dispensationalism: The Interface Between Dispensational and Non-Dispensational Theology (Grand Rapids, MI: Zondervan Publishing House, 1993, p. 126-127.; WARE, Bruce A. 1992, p. 86-87.
[37] Robert L. Saucy, em “The Case for Progressive Dispensationalism: The Interface Between Dispensational and Non-Dispensational Theology”, diz: “A presente era da igreja, na qual realidades físicas como lugares específicos ou descendência étnica possuem pouca ou nenhuma relevância para a participação no povo de Deus, não deve ser usada como argumento para excluir a existência dessas realidades materiais no futuro. Todos concordam que a presente era representa apenas a inauguração e o cumprimento parcial das profecias” (1993, p. 31).
[38] VLACH, Michael J. Ele reinará para sempre: uma teologia bíblica do reino de Deus. Tradução de Valberth Veras. Eusébio, CE: Peregrino, 2021. p. 632-633, 637.
[39] BOCK, 1993, p. 454-5.
[40] BLAISING, Craig A. Uma teologia de Israel e da Igreja. In: BOCK, Darrell L.; GLASER, Mitch. Israel, a Igreja e o Oriente Médio: uma resposta bíblica para o conflito na atualidade. Tradução de Cláudia Chieco Calabrez Kriger. Eusébio, CE: Peregrino, 2020. p. 114-116.
[41] VLACH, Michael J. Ele reinará para sempre: uma teologia bíblica do reino de Deus. Tradução de Valberth Veras. Eusébio, CE: Peregrino, 2021. p. 633.
[42] SAUCY, Robert L. The case for progressive dispensationalism: the interface between dispensational and non-dispensational theology. Grand Rapids, MI: Zondervan Publishing House, 1993, p. 31.
[43] VLACH, Michael J. Ele reinará para sempre: uma teologia bíblica do reino de Deus. Tradução de Valberth Veras. Eusébio, CE: Peregrino, 2021. p. 633.
[44] Cf. BOCK, Darrell L. “The Son of David and the Saints’ Task: The Hermeneutics of Initial Fulfillment”. Bibliotheca Sacra, Dallas, v. 150, n. 600, p. 440-457, out. 1993.
[45] Darrell L. Covenants in Progressive Dispensationalism. In: BATEMAN IV, Herbert W. Three Central Issues in Contemporary Dispensationalism: a comparison of traditional and progressive views. Grand Rapids: Kregel Publications, 1999, p. 190-192.
[45] BOCK, 1999, p. 170-189.
[46] Robert L. Saucy, The Case for Progressive Dispensationalism: The Interface Between Dispensational and Non-Dispensational Theology (Grand Rapids, MI: Zondervan Publishing House, 1993, p. 122. BOCK, Darrell L. Covenants in Progressive Dispensationalism. In: BATEMAN IV, Herbert W. Three Central Issues in Contemporary Dispensationalism: a comparison of traditional and progressive views. Grand Rapids: Kregel Publications, 1999, p. 190-192.
[47] BOCK, 1999, p. 202.
[48] Cf. SAUCY, Robert L. The Church in God's Program. Chicago: Moody Press, 1972, p. 76-81.
[49] BOCK, Darrell L. Progressive Dispensationalism. In: PARKER, Brent E.; LUCAS, Richard J. (ed.). Covenantal and dispensational theologies: four views on the continuity of Scripture. Downers Grove, IL: InterVarsity Press, 2021. p. 132.
[50] Sobre escatologia inaugurada confira BOCK, Darrell L. Progressive Dispensationalism. In: PARKER, Brent E.; LUCAS, Richard J. (ed.). Covenantal and dispensational theologies: four views on the continuity of Scripture. Downers Grove, IL: InterVarsity Press, 2021. p. 135-6.
[51] COPI, Irving M.; COHEN, Carl. Introduction to Logic. 8. ed. New York: Macmillan Publishing Company, 1990, p. 5-10; 91-123.
[52] VLACH, Michael J. Israel in the Bible’s storyline: The role of Israel in God’s Plan from Genesis to Revelation. Theological Studies Press. 2026.
[53] Robert Saucy observa que “o plano histórico de Deus, portanto, é um plano único e orgânico. (...) A era presente não constitui um parêntese histórico desconectado tanto da história que a antecede quanto daquela que a segue” (1993, p. 28). Blasing e Bock concordam que “o dispensacionalismo progressivo não entende a igreja como um parêntese na história” (1992, p. 382).
[54] Cf. BLAISING, Craig A. Progressive Dispensationalism as kingdom theology. Apresentado em: Shepherd’s 360 National Church Leaders Conference. Cary, North Carolina, 21 out. 2024.
[55] BLAISING, Craig A. BOCK, Darrell L. (eds.), Dispensationalism, Israel and the Church: The Search for Definition (Grand Rapids, MI: Zondervan, 1992), p. 382-384.
[56] SAUCY, Robert L. The case for progressive dispensationalism: the interface between dispensational and non-dispensational theology. Grand Rapids, MI: Zondervan Publishing House, 1993, p. 28-29.
[57] BLASING, Craig A. 2024, p. 242.
[58] BLAISING, Craig A. BOCK, Darrell L. 2022, p. 65-68.; 1992, p. 383.
[59] BLAISING, Craig A. BOCK, Darrell L. 1992, p. 384.
[60] Carl B. Hoch Jr., “The New Man of Ephesians 2”, in Craig A. Blaising e Darrell L. Bock (eds.), Dispensationalism, Israel and the Church: The Search for Definition (Grand Rapids, MI: Zondervan, 1992), p. 113.
[61] BLAISING, Craig A. BOCK, Darrell L. 1992, p. 384.
[62] BLAISING, Craig A.; BOCK, Darrell L. Dispensacionalismo progressivo. 2. ed. Tradução de Matheus Fernandes e Carlos Augusto Pires Dias. Niterói, RJ: Concílio, 2022, p. 129.
[63] Segue um resumo das distinções estabelecidas por Robert Letham. A escatologia realizada (realized eschatology), associada principalmente a Charles H. Dodd, entende que as promessas escatológicas do Novo Testamento foram essencialmente cumpridas na primeira vinda de Cristo, especialmente em sua morte, ressurreição e nos eventos ligados à destruição de Jerusalém em 70 d.C. Nessa perspectiva, o foco recai sobre a realização presente do Reino. A escatologia inaugurada (inaugurated eschatology), por sua vez, sustenta que o Reino de Deus foi realmente inaugurado na primeira vinda de Cristo, mas sua consumação plena ainda aguarda a segunda vinda. Assim, muitas promessas já começaram a se cumprir, enquanto outras permanecem futuras, criando a conhecida tensão entre o “já” e o “ainda não”. LETHAM, Robert. 10 Things You Should Know about Inaugurated Eschatology. Crossway, 2019.
[64] A. Blake White resume a teologia da Nova Aliança em sete princípios fundamentais: (1) há um único plano redentivo de Deus centrado em Cristo; (2) o Antigo Testamento deve ser interpretado à luz da revelação do Novo Testamento; (3) a aliança mosaica era temporária e foi substituída pela Nova Aliança; (4) a Lei de Moisés constitui uma unidade indivisível; (5) os cristãos estão sob a Lei de Cristo, e não sob a Lei mosaica; (6) todos os membros da Nova Aliança são regenerados; e (7) a Igreja é o Israel escatológico em união com Cristo. Essas proposições constituem os pilares hermenêuticos e teológicos da Teologia da Nova Aliança. WHITE, A. Blake. What Is New Covenant Theology? An Introduction. Frederick, MD: New Covenant Media, 2017.
[65] Cf. D. A. Carson, “New Covenant Theology and Biblical Theology,” in God’s Glory Revealed in Christ: Essays on Biblical Theology in Honor of Thomas R. Schreiner, eds. Denny Burk, James M. Hamilton, Jr, and Brian Vickers (Nashville: B&H Academic, 2019), 17-31. Tom Wells and Fred Zaspel, New Covenant Theology: Description, Definition, Defense (Frederick, MD: New Covenant Media, 2002). Gary D. Long, New Covenant Theology (n.p.: CreateSpace, 2013).
[66] Para um resumo do sistema, Cf. WELLUM, Stephen J. Progressive Covenantalism and New Covenant Theology. The Gospel Coalition, [s.l.], [s.d.]. Disponível em: The Gospel Coalition. Acesso em: 14 jul. 2026
[67] O próprio Darrell Bock admite que Robert Saucy, apesar de ser um dos principais representantes do Dispensacionalismo Progressivo, não sustentava a tese de que Cristo esteja atualmente reinando no trono davídico nos céus. BOCK, Darrell. Progressive Movement: A Contemporary Subtradition (1980–Present). In: MARSH, Cory M.; FAZIO, James I. (org.). Discovering Dispensationalism: Tracing the Development of Dispensational Thought from the First to the Twenty-First Century. El Cajon, CA: SCS Press, 2023, p. 336.
[68] BLAISING, Craig. Progressive Dispensationalism as Kingdom Theology. Shepherd’s 360 National Church Leaders Conference, Cary, North Carolina, 21 out. 2024. Disponível em: PDF da conferência. Acesso em: 8 maio 2026.


Professor de Teologia do Novo Testamento e coordenador de pós-graduação nas Faculdades Integradas Cantares de Salomão (FEICS)
Mestre em Teologia, com especialização em Novo Testamento.
Mestre e doutorando em Filosofia pela Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT)
Pastor auxiliar no templo sede da Igreja Evangélica Assembleia de Deus de Cuiabá e região (IEAD-CUIABÁ)
Membro do Conselho de Educação e Cultura (CEC) da IEAD-CUIABÁ
Autor dos livros "A Arte da Leitura Bíblica", "A Morte de Deus e o Crepúsculo da Cultura Ocidental" e "Hermenêutica: Uma Introdução à Interpretação Bíblica"
Autor de diversos artigos na revista Obreiro Aprovado (CPAD)

