Quem defende que a Igreja tomou o lugar de Israel costuma abrir a Bíblia em 1 Pedro 2.9: "Vós, porém, sois raça eleita, sacerdócio real, nação santa". Se Pedro chama a Igreja de nação, com as palavras que Deus usou para Israel no Sinai, a Igreja não seria o novo Israel? No EP. 34 do Cenáculo do Saber - Entrevista, com David Marrone, o Pr. Jonas J. Mendes antecipou essa objeção ao definir os dois termos, e a resposta dele muda o foco da pergunta: o texto de Pedro fala de vocação.
Para que Deus chamou Israel?
O Pr. Jonas começa pela vocação. No Antigo Testamento, Israel é uma nação chamada para servir a Deus entre as nações daquele tempo. Em Êxodo 4, é o filho primogênito; em Êxodo 19.5-6, Deus diz que Israel lhe seria "reino de sacerdotes e nação santa", com um propósito régio e sacerdotal. Como nação sacerdotal, Israel deveria mediar a bênção de Deus às demais nações.
A ordem dos capítulos de Gênesis ajuda a ver isso. Os capítulos 10 e 11 tratam da origem das nações que se espalham a partir de Babel, cerca de setenta, lembra o pastor. Logo depois, em Gênesis 12.1-3, Deus chama Abraão para que nele fossem benditas todas as famílias da terra. Para o Pr. Jonas, isso mostra que Deus preza pelas nações: o plano dele envolve povos, culturas, tribos e línguas, e Israel é separado para ser luz para os gentios.
Quando precisa definir Israel com precisão, ele recorre a Craig Blaising: um povo étnico, nacional e territorial. Há uma herança biológica e genealógica, e há uma terra que Deus prometeu a Abraão. É com essa nação que Deus faz aliança.
A Igreja é uma nação como Israel?
Não nesse sentido, responde o Pr. Jonas. A Igreja não tem território nem herança genealógica. Ele a define como "a comunhão de judeus e gentios efetuada pelo Espírito Santo em Cristo Jesus e uns com os outros". É uma realidade do Novo Testamento, porque ninguém no Antigo foi habitado pelo Espírito Santo e unido a Cristo e aos irmãos numa só comunidade.
Dessa definição saem duas consequências. A primeira é a igualdade soteriológica: na Igreja, judeus e gentios desfrutam das mesmas bênçãos espirituais em Cristo, algo que o Antigo Testamento não tinha, quando Israel era o mediador da bênção para os gentios. Dos dois, um só corpo. A segunda é o caráter multinacional. Israel é uma nação entre as nações; a Igreja reúne gente de muitas nações, Israel inclusive, brasileiros, coreanos, chineses e japoneses. Nas palavras do pastor, "a igreja não é uma etnia, ela é multiétnica, ela é multinacional".
O que Pedro faz com Êxodo 19?
Com as duas definições lado a lado, a leitura de 1 Pedro 2 muda. Quando Pedro aplica Êxodo 19.5-6 à Igreja, explica o Pr. Jonas, a Igreja passa a participar, em Cristo, daquela vocação de povo sacerdotal e real, para ser luz para os povos neste tempo. E o pastor dá o motivo: Israel falhou e pecou no exercício da sua vocação. A conclusão é dele: a questão ali é vocacional. Não é substituição, e muito menos a afirmação de que a Igreja é uma nação como Israel é.
Participar de uma vocação, nessa leitura, não é tomar o lugar de quem a recebeu primeiro. É a mesma lógica que o pastor usa no fim do episódio, quando pergunta se alguém precisa deixar de ser brasileiro para pertencer à Igreja. O mapa completo do debate, com o supersessionismo e Gálatas 6.16, está em A Igreja substitui Israel?.
Por que a definição vem antes do debate?
A conversa começou pelas definições a pedido de David Marrone, que no encerramento resumiu o ponto: nesse debate, o problema é de conceituação. Quem entra no debate achando que "nação santa" em 1 Pedro significa uma nação no mesmo sentido de Israel já saiu com a resposta pronta. Quem separa as categorias consegue ler os dois textos sem que um anule o outro: Êxodo 19 continua dizendo o que disse a Israel, e 1 Pedro 2 mostra a Igreja participando daquela vocação.
Israel é uma nação chamada para servir a Deus entre as nações. A Igreja é a comunhão de judeus e gentios em Cristo, pelo Espírito Santo. Ler 1 Pedro 2.9 com essas duas definições na mão evita transformar uma vocação compartilhada em troca de povo. E lembra a quem está na Igreja que o título de sacerdócio real vem acompanhado de uma tarefa: ser luz para os povos.





