Cenáculo do Saber
Todos os artigos

Leitura Bíblica

O cego de Betsaida: por que Jesus curou em dois toques?

O Pr. Jonas J. Mendes lê o milagre de Marcos 8 como retrato dos discípulos

David Marrone24 de outubro de 2026 3 min de leitura
O cego de Betsaida: por que Jesus curou em dois toques?
Leitura

Inspirado no livro A Arte da Leitura Bíblica, do Pr. Jonas J. Mendes.

Jesus curou um cego em dois toques. No primeiro, o homem enxerga gente como árvores andando; só no segundo ele vê tudo com nitidez. Por que o milagre de Marcos 8 acontece em etapas? No livro A Arte da Leitura Bíblica, o Pr. Jonas J. Mendes mostra que a resposta não está no poder de Jesus nem na fé do cego, e sim nos versículos ao redor, que apontam para outros olhos.

O que acontece em Marcos 8.22-26?

Só Marcos registra esse episódio. Em Betsaida, trazem um cego a Jesus. Ele o leva pela mão para fora da aldeia, cospe nos olhos dele, impõe as mãos e pergunta se ele vê alguma coisa. A resposta é curiosa: "Vejo os homens, porque como árvores os vejo, andando" (Marcos 8.24). Jesus impõe as mãos outra vez, e então o homem passa a ver tudo claramente (Marcos 8.25).

Duas explicações parecem naturais. Talvez o poder de Jesus tenha vacilado. Talvez a fé do homem fosse insuficiente. O Pr. Jonas mostra que o contexto imediato de Marcos desmente as duas.

O que Jesus diz aos discípulos antes do milagre?

Pouco antes, os discípulos discutem sobre pães enquanto o Mestre fala do Reino. Jesus pergunta: "Tendo olhos, não vedes? E, tendo ouvidos, não ouvis?" (Marcos 8.18). A pergunta funciona como diagnóstico. Eles veem os sinais, participaram das multiplicações, e ainda assim não enxergam o Reino (Marcos 8.17-21).

É aqui que o milagre ganha sentido. O cego de Betsaida se torna um sinal encenado dos próprios discípulos. A visão confusa do primeiro toque é a deles: caminham com Jesus, testemunham milagres e ainda não compreendem.

Pedro enxergou ou não enxergou?

Poucos versículos adiante, Marcos mostra a visão dos Doze falhando. Pedro confessa: "Tu és o Cristo" (Marcos 8.29). Acerta o título. Mas logo depois, quando Jesus fala da cruz, Pedro o chama à parte e tenta dissuadi-lo, e ouve a repreensão mais dura do Evangelho: é chamado de Satanás (Marcos 8.33).

Pedro vê, mas vê como quem enxerga homens como árvores. Reconhece o Messias e não aceita o caminho do Messias. O segundo toque, para os discípulos, só vem depois da ressurreição, quando Jesus abre o entendimento deles para as Escrituras (Lucas 24.45). Segundo o Pr. Jonas, esse segundo toque chega pela cruz e pelo Espírito.

O que a arte de Marcos ensina a quem lê?

O cego de Betsaida descreve cada discípulo, antes e depois da Páscoa. A visão que começa turva se clareia quando Cristo toca de novo. O Reino cresce assim, na neblina, como o grão de mostarda que germina devagar.

O Pr. Jonas chama atenção para a arte de Marcos, um Evangelho feito de cortes abruptos, ironias e repetições. Nesse estilo, um detalhe como o segundo toque não é descuido: é colocado ali para ensinar humildade a quem lê, porque ninguém enxerga tudo no primeiro toque. É o mesmo tipo de atenção ao detalhe que aparece em por que Jesus fechou o rolo de Isaías.

Primeiro se veem vultos, depois rostos. Primeiro se vê a cruz, depois se entende a glória. Saio dessa leitura com menos pressa de julgar quem ainda enxerga pela metade, inclusive eu mesmo, e com mais gratidão por um Senhor que não desiste no primeiro toque.

A Arte da Leitura Bíblica

Do livro do Pr. Jonas J. Mendes

A Arte da Leitura Bíblica

Deus não desperdiça palavras. Aprenda a ler a Bíblia como ela foi escrita, atento ao enredo, às repetições, aos silêncios e aos detalhes que a leitura apressada deixa passar.

  • #Marcos 8
  • #cego de Betsaida
  • #milagres de Jesus
  • #Pedro
  • #discipulado
  • #Evangelho de Marcos
David Marrone

Sobre o autor

David Marrone

Apresentador do Cenáculo do Saber - Entrevista

  • Apresentador e entrevistador do Cenáculo do Saber - Entrevista
  • Escreve as reflexões do Cenáculo do Saber a partir das conversas do programa
  • Membro da Igreja Evangélica Assembleia de Deus
  • Acadêmico do sexto ano de Medicina pela Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT)
Siga no Instagram