Jesus fechou o rolo de Isaías no meio de uma frase. Na sinagoga de Nazaré, ele leu Isaías 61.1-2a e parou antes das palavras que vinham em seguida. A frase omitida fala do dia da vingança do nosso Deus. Foi esquecimento? No livro A Arte da Leitura Bíblica, o Pr. Jonas J. Mendes mostra que o corte é intencional e que ele explica o tempo em que a Igreja vive.
O que Jesus leu em Lucas 4.18-19?
Jesus volta do deserto no poder do Espírito e entra na sinagoga da cidade onde cresceu. Recebe o livro do profeta e lê: "O Espírito do Senhor está sobre mim, pelo que me ungiu para evangelizar os pobres; enviou-me para proclamar libertação aos cativos e restauração da vista aos cegos, para pôr em liberdade os oprimidos, e apregoar o ano aceitável do Senhor" (Lucas 4.18-19).
Depois fecha o livro, devolve ao assistente, senta-se e declara: "Hoje, se cumpriu a Escritura que acabais de ouvir" (Lucas 4.21). A linha seguinte de Isaías, que anunciava "o dia da vingança do nosso Deus" (Isaías 61.2), ficou no rolo.
Qual a diferença entre o ano aceitável e o dia da vingança?
O detalhe parece pequeno, mas Isaías junta as duas coisas num só fôlego. Para o profeta, e para o Antigo Testamento em geral, o ano aceitável, ligado ao Jubileu de Levítico 25, e o dia da vingança são duas faces do mesmo Dia do Senhor (Joel 2.1-2). Redenção e juízo chegariam juntos.
Segundo o Pr. Jonas, Jesus reconfigura esse calendário. Ele inaugura o hoje da graça e adia a vingança para o ainda não. O juízo final não foi cancelado: continua de pé, mas suspenso (Atos 17.31; 2 Tessalonicenses 1.7-10). O corte na leitura separa os dois momentos que o profeta via como um só.
Por que o povo de Nazaré quis matar Jesus?
O sermão termina em escândalo. Logo depois da leitura, Jesus lembra aos conterrâneos duas histórias incômodas: Elias foi enviado a uma viúva estrangeira em Sarepta (1 Reis 17.9), e Eliseu purificou Naamã, o sírio (2 Reis 5.1-14). Dois de fora receberam a graça enquanto Israel se fechava (Lucas 4.25-27).
A reação é violenta. Os ouvintes o levam até o alto do monte para lançá-lo do precipício, mas Jesus passa pelo meio deles e se retira (Lucas 4.28-30). O Pr. Jonas lê nesse gesto uma antecipação da cruz: a rejeição que começa em Nazaré vai terminar no Calvário, e mesmo ali o precipício não vence Jesus.
Em que tempo a Igreja vive?
Aqui o corte de Lucas 4 ganha peso para nós. O intervalo entre o hoje da graça e o dia da vingança pertence à Igreja. O mesmo Espírito que desce sobre o Ungido em Nazaré desce sobre pescadores e mulheres em Pentecostes, e o ano aceitável se prolonga como anúncio (Atos 2.39-40). É o mesmo fio que aparece em quem dera todo o povo fosse profeta.
Nesse intervalo, explica o Pr. Jonas, quem ouve e crê já vive no ano aceitável, e quem resiste se lança do penhasco da incredulidade rumo ao juízo que vem. O tempo da graça é real, e é também tempo de decisão. Quem quiser ver essa tensão do já e do ainda não em outra chave pode ler o que é o Reino de Deus.
O corte em Isaías, conclui o Pr. Jonas, mostra um Reino que já chegou e ainda reserva tempo antes do dia final. Ler Lucas 4 com atenção ao que Jesus não leu muda a maneira de olhar o presente: a demora do juízo não é esquecimento de Deus, é o ano aceitável ainda aberto.






