O Éden era um templo? A pergunta circula há anos em livros de teologia bíblica, e o Dr. John H. Walton foi um dos autores que mais aproximaram a criação, o jardim e o templo. No EP. 33 do Cenáculo do Saber - Entrevista, o Pr. Jonas J. Mendes, que conduziu a conversa e traduziu as respostas, perguntou por que, no livro New Explorations in the Lost World of Genesis, ele se afastou de uma identificação direta entre o Éden e o templo. A resposta tem duas partes: uma sobre o cosmos, outra sobre o jardim.
De onde veio a ideia do cosmos como templo?
Pouco depois do lançamento de The Lost World of Genesis One, conta o Dr. Walton, ele recebeu uma observação de colegas. Um templo divide o espaço sagrado do espaço profano. Se todo o cosmos é um templo, onde fica o espaço profano que ele separa? Um templo precisa separar alguma coisa.
Ele achou a objeção justa. Fez uma ressalva em sua defesa: não estava dizendo exatamente que a criação funcionava como um templo cósmico. O argumento era outro. Na tradução do Pr. Jonas: "o cosmos se tornou um espaço sagrado, justamente como o templo é um espaço sagrado". Ainda assim, reconheceu o ponto e ajustou a terminologia.
O Éden era um templo?
No Éden, explica o Dr. Walton, a questão é diferente. O jardim tem traços que reaparecem no desenho do templo, e isso continua verdadeiro. Mas lhe fizeram uma pergunta que ele nunca tinha considerado: o Éden mostra Deus vindo ao espaço humano para andar com o homem, ou mostra pessoas colocadas no reino, no domínio de Deus?
Ele sempre tinha assumido a primeira opção. Diante da segunda, achou as evidências bastante convincentes e mudou de ideia nesse ponto. Hoje considera uma leitura melhor a de que, no jardim, o ser humano foi posto no domínio divino. E isso, segundo ele, torna o Éden menos parecido com um templo.
Ainda há ligação entre o Éden e o templo?
Há, e o Dr. Walton não a descarta. O Santo dos Santos, no templo, era entendido como um lugar situado no domínio divino. Por isso ainda existem conexões que podem ser feitas entre o jardim e o santuário. O que ele quis foi uma leitura com mais nuance, sem transformar o Éden, simplesmente, em um templo.
A ressalva é importante para não exagerar a mudança. Ele não diz que o jardim nada tem a ver com o santuário de Israel. Diz que a categoria principal para entendê-lo é outra: não o lugar onde Deus visita o homem, mas o domínio de Deus, onde o homem foi colocado.
O que muda na leitura de Gênesis 2 e 3?
A mudança tem consequências que aparecem em outras respostas da mesma entrevista. Se o Éden é o ser humano no domínio divino, a pergunta deixa de ser como Deus se acomoda ao nosso espaço e passa a ser como nós nos comportamos no espaço dele. É por esse caminho que o Dr. Walton chega à sua leitura da expulsão do jardim e à divergência com G. K. Beale sobre Adão como sacerdote, dois temas que ele desenvolve logo depois e que estão na página do episódio.
Quem quiser outra leitura do jardim, atenta ao movimento do livro inteiro, pode comparar com Gênesis: do jardim ao caixão, em que o Pr. Jonas J. Mendes mostra como o narrador desenha a saída do Éden e o afastamento crescente até o fim de Gênesis.
O que fica
O Dr. Walton não abandonou a ideia de espaço sagrado: o cosmos continua, para ele, um espaço que se tornou sagrado, e o jardim continua ligado ao templo por alguns traços. O que mudou foi a pergunta central sobre o Éden. Antes, Deus no espaço humano; agora, o ser humano no domínio de Deus. É uma diferença pequena na frase e grande na leitura, e vale a pena tê-la em mente na próxima vez que se abrir Gênesis 2.





