Como saber se um ministério está dando fruto ou só produzindo números? No EP. 35 do Cenáculo do Saber - Entrevista, com David Marrone, o Pr. Valmir Nascimento respondeu com uma distinção tirada do direito, entre fruto e produto, e com uma imagem difícil de esquecer, a de quem "tem muita luz, mas é plástico".
Funciona ou é verdade?
O ponto de partida é o pragmatismo, que o Pr. Valmir aponta como um dos grandes problemas introduzidos nas igrejas e uma das causas da crise de identidade no ministério. Ele o define como uma concepção preocupada com resultados: "A pergunta para um pragmático não é se é verdade. A pergunta que ele faz é, funciona? Se funcionar, está tudo bem."
No ministério, isso aparece quando o número de seguidores passa a definir o grau do ministério, quando o tamanho da igreja vira medida de espiritualidade e a pessoa se avalia, e avalia o outro, pela quantidade do que entrega. Por esse critério, lembra ele, o maior apóstolo seria reprovado: "Paulo foi um obreiro fracassado do ponto de vista da sociedade, mas era um obreiro com o coração na obra de Deus."
Então resultado não importa?
David fez a objeção que muitos fariam: a obra de Deus prospera, então onde fica a linha entre buscar resultado e cair no pragmatismo? O Pr. Valmir começa concordando que a avaliação pelo fruto é importante, porque o próprio Senhor Jesus disse "pelos seus frutos os conhecereis" (Mateus 7.20). A pregação do evangelho gera vidas, o ensino gera doutrina adequada na igreja, a pregação sadia gera conversão de almas e o foco em missões desenvolve um grande trabalho ministerial.
Mas ele faz a separação. Fruto é diferente de resultado, e fruto é diferente de produto.
Qual a diferença entre fruto e produto?
No direito, explica o pastor, fruto é aquilo que decorre naturalmente daquilo que lhe dá causa. Uma árvore produz fruto, algo natural e biológico que sai da própria essência da árvore. Produto é o que alguém constrói artificialmente pela sua habilidade, como um tijolo ou uma telha.
O obreiro é avaliado pelo fruto, aquilo que decorre natural e espiritualmente do que ele faz. Para reconhecer esse fruto, o Pr. Valmir propõe quatro perguntas. Está de acordo com a palavra? Está glorificando o nome do Senhor? Conduz à santidade? É realizado com humildade? O fruto, diz ele, é proporcional à natureza espiritual de quem o produz.
O produto é outra coisa. A pessoa apresenta quantidade e números, é chamada muitas vezes para pregar, o nome dela está nos cartazes, mas a vida não condiz com o que prega. Tem muitas entregas e pouca vida, muita repercussão social e pouca espiritualidade, é conhecida nas redes sociais e não demonstra isso numa vida de intimidade com Deus, na igreja e na família. O que se vê hoje, afirma o pastor, é muita artificialidade no meio gospel e no meio ministerial. Quem olha de perto percebe que foi feito artificialmente.
A ressalva é importante. O Pr. Valmir não está dizendo que o trabalho na obra não gera nada. Gera filhos espirituais, uma comunidade que ama mais a Deus e uma vida de oração. Isso é fruto.
O que é a teologia coach?
Na sequência, David ligou o tema à teologia coach, e o Pr. Valmir a tomou como exemplo acabado do problema: "A teologia coach é exatamente a ilustração e o melhor exemplo para uma vida cristã e também para um ministério conduzido por resultados." É uma vida espiritual preocupada em performar e ser reconhecida.
Ele não condena o esforço. Desenvolver-se como pessoa, organizar o lar e o trabalho faz parte. O problema começa quando se atrela a promessa divina a teorias psicológicas de desenvolvimento humano: aí, nas palavras dele, "nós perdemos o foco do evangelho". A teologia coach se apoia no mérito e na capacidade humana de se autodesenvolver; a teologia bíblica aponta para a graça. Esse é um dos sintomas da crise de identidade que ele descreve em As 5 crises do ministério cristão.
De perto
Para o Pr. Valmir Nascimento, o obreiro deve ser avaliado pelo fruto, porque números, cartazes e repercussão podem ser fabricados, e de perto o produto se revela plástico. As quatro perguntas dele servem tanto para quem lidera quanto para quem escolhe a quem ouvir: a palavra, a glória de Deus, a santidade e a humildade dizem mais sobre um ministério do que o tamanho da plateia.





