Durante muito tempo, boa parte dos leitores dispensacionalistas aprendeu que a Igreja é um parêntese: uma pausa no relógio profético de Israel, que se fecharia com o arrebatamento. No EP. 34 do Cenáculo do Saber - Entrevista, David Marrone perguntou ao Pr. Jonas J. Mendes por que a Igreja não é um parêntese. Antes de responder, ele explicou de onde veio a ideia, e a explicação passa pelas setenta semanas de Daniel 9.
De onde vem a ideia da Igreja como parêntese?
Todas as versões do dispensacionalismo, lembra o Pr. Jonas, concordam num ponto: não havia Igreja no Antigo Testamento. O dispensacionalismo tradicional foi além. Entendia que, ao rejeitar o Messias e a oferta do reino, Israel fez com que o reino fosse adiado. Israel ficou debaixo de um endurecimento e do juízo de Deus, e o relógio escatológico parou para Israel.
O que as setenta semanas de Daniel 9 têm a ver com isso?
A leitura se apoia em Daniel 9.24-27: "Setenta semanas estão determinadas sobre o teu povo e sobre a tua santa cidade". O próprio texto divide o período em sete semanas, sessenta e duas semanas e uma semana, e são semanas de anos. O Pr. Jonas faz a conta. A partir do decreto para reconstruir a cidade, que geralmente se situa no tempo de Neemias, por volta de 445 ou 444 antes de Cristo, os 483 anos das 69 semanas chegam ao Messias, aclamado na entrada em Jerusalém. Depois o texto diz que o ungido será tirado e descreve o povo de outro príncipe destruindo a cidade, o que já aponta para o ano 70.
Falta, então, uma semana: sete anos. Para o tradicional, a Igreja é o povo que surge no intervalo entre a 69ª e a 70ª semana. Quando ela for arrebatada, o parêntese se fecha e Deus volta a tratar com Israel. O pastor cita John Walvoord como exemplo. Walvoord, nas palavras do Pr. Jonas, dizia "que a igreja nesse parêntese, ela não cumpre e nem prossegue nada do Antigo Testamento, as profecias, o plano de Deus".
Por que o dispensacionalismo progressivo rejeita o parêntese?
"O dispensacionalismo progressivo discorda disso, veementemente", diz o Pr. Jonas. Ele não nega o intervalo: existe, sim, um tempo entre a 69ª e a 70ª semana. O que ele nega é que, nesse tempo, Deus tenha parado de lidar com Israel. Em nenhum lugar a Bíblia chama a Igreja de parêntese, e o pastor aponta três sinais em sentido contrário.
O primeiro: israelitas continuam sendo salvos. A igreja primitiva era formada basicamente por israelitas, até que a missão aos gentios começou. O segundo: houve um endurecimento, mas em parte, sobre alguns, e ele não é absoluto nem permanente. O terceiro: o Novo Testamento trata o que acontece com a Igreja como cumprimento. Paulo constantemente diz que aquilo é o que foi falado no Antigo Testamento, e em Atos 13 prega que o que anuncia é o que os profetas falaram. Há continuidade, e o Novo Testamento não enxerga esse parêntese.
Mais adiante no episódio, ao ler o "até que" de Lucas 21.24, o pastor volta ao ponto: o que acontece agora, com Deus salvando judeus e gentios, está cumprindo o que Deus falou no Antigo Testamento. Israel está debaixo de um juízo parcial e temporário, mas Deus continua lidando com Israel.
A Igreja é um povo que compete com Israel?
O Pr. Jonas aponta um segundo erro do clássico, e também de alguns revisados: a definição de Igreja. Eles a entendiam como um povo, uma categoria antropológica, quase uma etnia, em competição com Israel. Se a Igreja é um povo e Israel é outro, o judeu que se converte deixa de ter qualquer ligação com Israel.
Foi aí que David Marrone lembrou que nem Paulo renunciou à nacionalidade. O pastor concorda: Paulo em nenhum momento entendeu que pertencer à nova realidade soteriológica o fazia deixar de ser parte do povo de Israel, e Pedro também não. Para ele, a Igreja "é um conceito que se sobrepõe às etnias, às nacionalidades", redimindo-as e integrando-as ao reino de Deus. A definição completa está em A Igreja é uma nação?, e a história das três fases do sistema, em Dispensacionalismo clássico, revisado e progressivo.
Para o Pr. Jonas, a Igreja está em continuidade com o que os profetas anunciaram, e Deus segue lidando com Israel. Na Igreja, ninguém deixou de ser gentio e ninguém deixou de ser judeu. Quem aprendeu o esquema do parêntese pode reler as setenta semanas ao lado de Atos 13 e perguntar se os apóstolos se viam fora do que os profetas anunciaram.





