Nietzsche não se contentou em anunciar a morte de Deus. Declarou guerra também à sombra de Deus. Que sombra era essa, e por que ela incomodava tanto? No livro A Morte de Deus e o Crepúsculo da Cultura Ocidental, o Pr. Jonas J. Mendes argumenta que ela é feita justamente dos valores que mantinham o Ocidente de pé, e que a modernidade quis conservá-los depois de descartar o fundamento deles.
O que é a sombra de Deus para Nietzsche?
Nietzsche parte de uma imagem: a sombra de Buda foi vista por séculos numa caverna. Com Deus seria igual. A sombra de Deus é uma metáfora para os valores criados a partir da crença nele, como a razão crítica, a ciência, a democracia, o direito e a dignidade humana.
Para Nietzsche, todo anseio por verdade e toda crença no valor do ser humano, na racionalidade, na bondade como virtude ou na própria ciência eram resquícios de Deus na cultura. Não bastava descartar Deus: enquanto a sombra seguisse de pé, o trabalho estava pela metade. Por isso ele declarou guerra às sombras.
Por que os modernos viviam uma contradição?
O Pr. Jonas aponta que os modernos não percebiam as implicações de rejeitar Deus. Diziam não crer, mas a moral e a ética em que viviam pressupunham Deus como fundamento. Afirmavam que Deus estava morto e seguiam crendo na razão, na ciência e no progresso, todos fundados sobre uma visão de mundo cristã e sobre a crença em um Deus.
Nietzsche enxergou a contradição e cobrou coerência de quem abandonava a fé e conservava a moral que dela nasceu. Em Crepúsculo dos Ídolos, a frase é direta: "Se se renuncia a fé cristã, elimina-se com o mesmo ato o direito à moral cristã".
O Pr. Jonas resume as três saídas que Nietzsche deixa: rejeitar Deus e tudo o que dele nasceu, viver pela fé, ou ficar no meio, com um ateísmo que usa valores cristãos. Ele chama de hipocrisia terrível manter uma moral absoluta, ou um sentido para a vida, depois da morte de Deus. Nietzsche ficou com a primeira saída e preferiu desconstruir tudo o que remetesse a Deus.
A modernidade só existe por causa do cristianismo?
Para o Pr. Jonas, sim, e é aí que a sombra ganha peso. No primeiro capítulo ele escreve: "A própria modernidade só se tornou possível por causa do cristianismo, mas o problema é que ela acabou se revoltando contra ele, e colocando o próprio Deus de lado." Os valores que Nietzsche chamou de sombra são, nessa leitura, a herança cristã que o Ocidente moderno recebeu e contra a qual depois se voltou.
Quem terminou o trabalho de Nietzsche?
Segundo o Pr. Jonas, a pós-modernidade assumiu a tarefa de eliminar as sombras de Deus e levar a morte dele às últimas consequências na arte, na literatura e na filosofia. A imagem que ele usa para o resultado é forte: "Ao rejeitar Deus, o Ocidente rejeitou as suas próprias raízes, e sem raízes uma árvore cai no primeiro temporal, ou simplesmente vai secando até perder toda a vitalidade e morrer."
Há ainda uma ironia no último capítulo. A pós-modernidade se abre de novo ao espiritual, e o Pr. Jonas observa que "Deus, que antes estava em exílio, agora pode voltar, mas a sua sombra não." A religiosidade volta a ser bem-vinda; os valores e as instituições que nasceram da crença em Deus, não.
O que a sombra sustentava
Os valores que Nietzsche chamou de sombra eram justamente o que mantinha de pé a cultura ocidental. O Pr. Jonas J. Mendes mostra que eles dependem do fundamento que a modernidade decidiu descartar. Quem defende a dignidade humana, a razão e o direito faz bem em perguntar sobre o que eles se apoiam, e em reler a pergunta que o louco da praça fez aos ateus que riam dele.






