A frase "Deus está morto" ficou famosa, mas pouca gente lembra quem a diz e para quem. Na parábola de A Gaia Ciência, Nietzsche não põe o anúncio na boca de um filósofo diante de crentes: quem fala é um louco, e quem escuta é uma praça cheia de gente que já não acreditava em Deus. No livro A Morte de Deus e o Crepúsculo da Cultura Ocidental, o Pr. Jonas J. Mendes parte dessa cena, logo no primeiro capítulo, para mostrar que o recado de Nietzsche tinha endereço certo, e não era a igreja.
O que acontece na parábola do louco?
A história é curta. Em plena luz do dia, um homem acende uma lanterna e corre pela praça gritando "Procuro Deus! Procuro Deus!". Os presentes não acreditam em Deus e riem dele. Zombam: Deus teria se perdido como uma criança? Teria emigrado? O louco então os atravessa com o olhar e declara que todos mataram Deus, ele mesmo incluído.
A lanterna acesa ao meio-dia já diz muito. A praça vê o sol e acha que enxerga tudo, enquanto o louco percebe que alguma coisa se apagou.
Por que o anúncio é feito a ateus?
Aqui está o ponto que o Pr. Jonas destaca. O louco não veio converter ninguém nem discutir a existência de Deus. Segundo ele, o louco veio provocar ateus que rejeitaram Deus e fugiram das consequências. A praça tinha abraçado a descrença, mas ainda não tinha medido o tamanho do prejuízo.
Para o louco, por trás do desaparecimento de Deus, que ninguém mais buscava, está o maior de todos os crimes. E é um crime coletivo: não há inocentes na praça, nem o próprio acusador. O que ele traz, na leitura do Pr. Jonas, é o diagnóstico de um ateísmo que a praça já havia adotado.
O que significam o mar esvaziado e o horizonte apagado?
Restava saber o preço do crime. O louco responde com perguntas: como foi possível esvaziar o mar? Quem deu a esponja para apagar o horizonte inteiro? Ainda existe um "em cima" e um "embaixo"?
O Pr. Jonas lê essas imagens como o retrato de uma humanidade que perdeu o sol e vaga solta num espaço vazio, escuro e frio, sem saber para onde vai nem onde está. A conclusão dele é direta: quem rejeita Deus fica solto no mundo, longe de qualquer referencial absoluto. Dizer que Deus está morto equivale a dizer que só resta confiar em si mesmo.
É por isso que a parábola incomoda mais o ateu do que o crente. O louco não pergunta se Deus existe; pergunta se a praça sabe o que perdeu. A risada da multidão mostra que ninguém ali tinha feito a conta. O mesmo raciocínio volta quando o livro trata do que Nietzsche chamou de sombra de Deus, os valores que continuaram de pé depois do anúncio.
O louco também provoca os crentes?
Provoca. O Pr. Jonas registra que o louco alcança também os crentes convencionais, que não sabiam que as igrejas deles eram, para Nietzsche, "túmulos e monumentos fúnebres de Deus". Uma religião que conserva os prédios e as formas, mas já não vive diante de um Deus vivo, cabe no mesmo diagnóstico.
A advertência, portanto, sai dupla. A praça de ateus é acusada de não pensar nas consequências da descrença, e a congregação acomodada é acusada de guardar um túmulo.
O que fica da cena
A praça riu do louco, e a gargalhada não apagou nenhuma das perguntas que ele deixou. Na leitura do Pr. Jonas J. Mendes, ela retrata quem dispensou Deus e ficou sem referencial absoluto, sem saber onde fica o em cima e o embaixo. Vale reler a cena perguntando de que lado da praça cada um de nós está.






