A expressão "para que se cumprisse" aparece várias vezes em Mateus, e é fácil concluir que todo texto do Antigo Testamento citado no Novo era uma predição esperando a sua hora. No EP. 34 do Cenáculo do Saber - Entrevista, com David Marrone, o Pr. Jonas J. Mendes desfaz essa impressão com uma síntese simples: os autores do Novo Testamento nem sempre citam o Antigo da mesma forma.
O que os estudiosos debatem sobre o Antigo Testamento no Novo?
O Pr. Jonas começa reconhecendo que a relação de interpretação entre os dois Testamentos é muito complexa e muito debatida. Walter Kaiser defende, num livro sobre o uso do Antigo no Novo, que o Novo Testamento sempre usa o Antigo com o mesmo sentido. Darrell Bock fala de um único sentido com múltiplos contextos e referentes, a visão que o pastor diz achar interessante. Michael Vlach também defende o único sentido, de modo próximo a Kaiser. E há a ideia de um sensus plenior, um sentido mais pleno do texto, com visões nessa linha em Douglas Moo e Raymond Brown.
São muitas visões, e o que ele propõe é uma síntese que impede o leitor de forçar todas as citações no mesmo molde.
Quais são os quatro modos de citação?
Predição e cumprimento. Às vezes o autor cita o Antigo Testamento para dizer que aquilo se cumpre da forma como foi proposto. Houve uma profecia preditiva, e ela está se cumprindo.
Aplicação. Outras vezes o autor aplica um conceito do Antigo Testamento, assim como fazemos numa pregação, sem dizer que aquilo é cumprimento de profecia.
Alusão ou eco. Há momentos em que o autor nem quer citar um texto em si. A mente dele está cheia do Antigo Testamento, e aquele mundo vem enquanto ele escreve.
Padrão tipológico. Por fim, há relações tipológicas: pessoas, eventos e instituições do Antigo Testamento que formam um padrão reconhecido depois. A diferença entre isso e a alegoria está em Tipologia ou alegoria?.
Na prática, o quadro funciona como uma pergunta a mais diante de cada citação: qual desses usos o autor está fazendo aqui? A resposta muda o que se pode concluir do texto.
Isaías 7.14 é uma profecia sobre Jesus?
O primeiro exemplo do pastor é Mateus 1.22-23, que cita Isaías 7.14. Em Isaías, explica ele, era um sinal para aquele tempo, dado ao rei Acaz quando a dinastia de Davi estava em jogo, e o Pr. Jonas entende que o menino provavelmente era o filho do próprio Isaías. Aquele menino era o sinal de que Deus estava com o povo. Quando Mateus vê Jesus nascer, reconhece que isso cumpre perfeitamente o que Isaías apresentou como tipo: lá era Deus conosco através daquele menino; agora o menino é literalmente o Emanuel, e a vinda dele mostra que Deus visitou o seu povo com misericórdia e salvação.
Como Jesus refaz o caminho de Israel?
O segundo exemplo é o mais revelador. Em Mateus 2.15, a volta de Jesus do Egito acontece "para que se cumprisse o que fora dito pelo Senhor, por intermédio do profeta: Do Egito chamei o meu Filho". Só que Oseias 11, observa o Pr. Jonas, não é profecia. É um texto narrativo, em que Deus lembra que tirou Israel do Egito quando ele era menino, e que Israel lhe virou as costas. Se não é predição, como Mateus fala em cumprimento?
Dentro de um padrão tipológico, responde o pastor. Israel é o filho primogênito de Êxodo 4, a nação chamada para testificar da grandeza de Deus aos povos, e falhou. Jesus é o verdadeiro Filho, que cumpre a vocação de Israel, e Mateus vai mostrando os paralelos:
- Israel saiu do Egito; Jesus também veio do Egito.
- Israel passou 40 anos no deserto; Jesus passou 40 dias sendo tentado no deserto.
- Israel atravessou o mar e o Jordão até a terra seca; Jesus sai das águas do Jordão.
- Israel recebeu a lei no monte; Jesus sobe o monte e ensina o povo.
- Israel comeu o maná; Jesus multiplica o pão e é o verdadeiro pão vivo.
Essa leitura não leva o Pr. Jonas à teologia da substituição. No mesmo episódio, ele insiste que a Igreja e Israel são categorias distintas e que o Israel étnico não perde o seu lugar, como mostra A Igreja substitui Israel?.
Às vezes é cumprimento de profecia preditiva, às vezes alusão ou eco, às vezes aplicação e às vezes padrão tipológico. Assim o Pr. Jonas resume como os autores do Novo Testamento usam o Antigo. Para quem lê, a consequência é modesta e útil: antes de construir uma doutrina sobre um "para que se cumprisse", vale perguntar de que tipo de cumprimento o autor está falando.





