Para a Reforma, o cortador de cana glorifica a Deus tanto quanto o sacerdote. A frase soa evidente para um evangélico de hoje, mas derrubou uma forma de ver o mundo que durou séculos. No livro A Morte de Deus e o Crepúsculo da Cultura Ocidental, o Pr. Jonas J. Mendes argumenta que a recuperação da vocação pelos reformadores veio acompanhada de um efeito que eles não pretendiam: a Reforma também acelerou a secularização do Ocidente.
O que era o mundo de dois andares?
A Idade Média dividia a vida em dois andares. Na síntese de Tomás de Aquino, fé e graça ficavam em cima, razão e ciência embaixo. A igreja cuidava das coisas do andar de cima, enquanto a sociedade e a vida diária pertenciam ao de baixo.
O Pr. Jonas é justo com Aquino. Segundo ele, Aquino mostrava que a crise do paradigma neoplatônico não era a crise do Evangelho e acreditava que a criação era boa, bela e ordenada. Valorizava o andar inferior, mas manteve a estrutura dual. E, ponto importante, não tornou os dois andares independentes.
Quem separou os dois andares?
Os teólogos que vieram depois fizeram isso, e a razão encontrou o caminho da autonomia. João Duns Scotus e Guilherme de Ockham foram além de Aquino e declararam o andar de baixo independente do de cima. Para o Pr. Jonas, essa divisão fez as sementes do secularismo atuarem dentro do próprio Ocidente cristão.
O que a Reforma fez com a vocação?
Com a Reforma, o processo se intensificou, e aqui o livro mostra os dois lados. Os reformadores romperam os dois pavimentos e afirmaram que o homem vive aqui pela fé e experimenta a graça de Deus no presente. Enfatizaram que todas as vocações são sagradas diante de Deus: o cortador de cana que trabalha com excelência glorifica a Deus tanto quanto o sacerdote no ministério.
O Pr. Jonas reconhece o ganho. A Reforma recuperou grande parte da cosmovisão cristã e beneficiou a educação, a ciência, a arte e a política ao trazer de volta dimensões do Evangelho que estavam obscurecidas.
Ao mesmo tempo, diz ele, ela acelerou a secularização, porque os reformadores não foram suficientemente críticos do humanismo da época.
O que é a Reforma acidental?
Brad Gregory, citado no livro, chama de Reforma acidental a secularização que os protestantes não pretendiam. O humanismo estava tão enraizado na cultura que acabou absorvendo a Reforma, contra a vontade dela. A Reforma sacralizou toda vocação e, sem querer, ajudou a secularizar o mundo.
Quem ocupou o centro da cultura moderna?
O Pr. Jonas afirma que o credo oculto da cultura ocidental moderna é o humanismo, um sistema de crenças em que os seres humanos substituem Deus como Criador, Regente e Salvador. O andar de baixo, emancipado, passou a dispensar o de cima.
O livro não abre mão da doutrina da vocação, que trata como recuperação do Evangelho. Apenas registra que, junto com os benefícios da Reforma, veio também o efeito secularizador.
Um chamado, e quem chama
O cortador de cana ganhou um chamado diante de Deus, e o humanismo ganhou o centro da cultura. O que tiro da leitura do Pr. Jonas J. Mendes é que o trabalho comum continua sagrado enquanto se lembra de quem chama. Outra esfera que se declarou independente de Deus é a escola, tema de a educação como salvadora.






