Se a ignorância era o único pecado que a modernidade ainda reconhecia, quem podia redimi-la: Cristo ou a educação? A pergunta parece provocação, mas resume uma aposta real do pensamento moderno. No livro A Morte de Deus e o Crepúsculo da Cultura Ocidental, o Pr. Jonas J. Mendes argumenta que a modernidade fez da educação uma espécie de divindade, capaz de salvar o homem.
Por que a modernidade apostou tudo na educação?
O ponto de partida está em Kant. Ele escreveu que o ser humano só se torna humano pela educação. Em Sobre a Pedagogia, afirma que a humanidade pode alcançar a perfeição por meio dela e supõe que cada geração dará um passo a mais rumo a um gênero humano mais feliz.
Rousseau deu o outro passo: rejeitou o pecado original e viu a natureza humana como boa, corrompida pela sociedade. Segundo o Pr. Jonas, a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, de 1789, parte dessa visão otimista.
Juntas, as duas ideias mudam a conta. Se o homem é bom por natureza e só carece de educação, o pecado perde a função, e a ignorância se torna a única falta que resta.
Como a educação tomou o lugar de Deus?
O Pr. Jonas descreve a educação moderna como uma divindade capaz de salvar o homem das trevas da ignorância, o único pecado que sobreviveu. Para redimir esse pecado, a modernidade dispensava Cristo e oferecia uma educação libertadora, que arrancaria os oprimidos das garras da estupidez e os levaria ao céu do conhecimento, ao paraíso da sabedoria.
Repare no vocabulário: trevas, pecado, céu, paraíso. A modernidade manteve a ideia de salvação e trocou o salvador.
Em outro capítulo, ao tratar da cultura pós-moderna, o Pr. Jonas escreve: "Sem Deus, não há pecado, mas, sem Deus, também não há redenção!" Quando a cultura perde a ideia de pecado, perde junto o caminho do perdão.
O que Timothy Keller diz sobre a aposta moderna?
A promessa não ficou na sala de aula. Outras disciplinas assumiram o papel de salvadoras, e as esferas da sociedade se tornaram independentes de Deus. Timothy Keller, citado pelo Pr. Jonas, descreve a aposta: a psicologia e a medicina resolveriam os problemas físicos e emocionais, e a sociologia criaria uma sociedade mais justa, dispensando o espiritual.
Com a tecnologia resolvendo a fome, o envelhecimento e a pobreza, a religião se tornaria desnecessária. Keller conclui que o único lugar que lhe restaria seria a esfera do privado.
O que essa promessa produziu?
Segundo o Pr. Jonas, essa educação tornou os indivíduos e a sociedade indiferentes às questões espirituais e a Deus, enquanto as disciplinas prometiam a salvação que só Deus pode dar.
John Feinberg, também citado no livro, resume a crença moderna: os problemas da cultura não seriam de ordem moral ou espiritual, e bastaria ensinar habilidades de trabalho para formar cidadãos produtivos. Se o problema é só técnico, a solução também é, e a pergunta sobre o coração humano sai da sala.
A mesma confiança no saber como redenção aparece, no livro, desde o começo da modernidade: é o tema de Eva e os modernos diante da árvore do conhecimento.
A escola no lugar do altar
A modernidade tirou Cristo da conta do pecado e entregou a redenção à escola. Mais de dois séculos depois de Kant, a promessa de um gênero humano mais feliz a cada geração ainda espera cumprimento, e a pergunta sobre o pecado continua sem resposta na grade curricular.






