Por que comparar os pensadores modernos a Eva? A aproximação parece forçada até se olhar o que a serpente ofereceu no Éden: um conhecimento que dispensaria o Criador (Gênesis 3.5). No livro A Morte de Deus e o Crepúsculo da Cultura Ocidental, o Pr. Jonas J. Mendes argumenta que a modernidade aceitou a mesma isca ao fazer do conhecimento uma forma de redenção.
Como o conhecimento virou redenção na modernidade?
Com as certezas antigas pulverizadas, o homem moderno se agarrou à razão como último refúgio. A matemática se tornou o modelo, e os filósofos foram atrás de um método. A vontade de conhecer, ligada ao desejo de se libertar dos velhos dogmas, levou os modernos a fundar o saber numa base racional. A promessa era ambiciosa: salvação e felicidade pelo conhecimento.
O Pr. Jonas lembra que essa promessa tem um modelo antigo. Para ser como Deus, bastava a Eva rejeitar a autoridade divina e agir em prol de si mesma. Ela tomou o fruto proibido porque ele representava o poder do conhecimento, capaz de livrar o ser humano da dependência de Deus. Os modernos, diz ele, acreditaram no mesmo poder redentor.
O Pr. Jonas é contra o conhecimento?
Não, e o livro deixa isso claro. A crítica não depõe contra o conhecimento. O problema aparece quando o homem quer criar um império epistemológico à parte de Deus e se levanta contra a soberania divina. O alvo é a autonomia do sujeito diante do saber.
A ressalva combina com o que o mesmo livro diz sobre a revolução científica. Ali o Pr. Jonas escreve: "Não foi a Bíblia que a ciência refutou, mas as interpretações que a igreja havia dado até então."
Que diferença Francis Bacon fazia entre dois conhecimentos?
O efeito do conhecimento, redimir ou escravizar, depende de qual conhecimento está em jogo. Francis Bacon, no começo da modernidade, já separava os dois tipos. Em Da Proficiência e o Avanço do Conhecimento Humano, ele lembra que Adão deu nome às criaturas do Éden (Gênesis 2.19-20) e que esse conhecimento puro não causou a queda. O que estava em jogo no fruto proibido era outro saber: o conhecimento arrogante do bem e do mal.
A distinção de Bacon ajuda a ler a modernidade. Nomear, classificar e investigar a criação nunca foi o problema; o problema começa quando o saber reivindica o lugar do Criador.
O que a autonomia custou aos modernos?
O Pr. Jonas observa que a modernidade não cumpriu as promessas. A ânsia por liberdade deixou os modernos mais presos, e o desejo desenfreado por conhecimento produziu mais ignorância. Segundo ele, os modernos foram enganados por uma falsa concepção da realidade e ficaram encarcerados pelos valores que eles mesmos criaram. Eva foi enganada, e eles também.
O desejo de autonomia absoluta, descreve o Pr. Jonas, é o mesmo de Adão e Eva no jardim: tornar-se um deus e escolher o próprio destino. No mesmo capítulo, o livro trata do deísmo, outro passo da modernidade no afastamento de Deus (veja o relojoeiro de Voltaire).
A isca de sempre
A isca que a serpente ofereceu a Eva, um saber independente do Criador, voltou a ser aceita pela modernidade. A leitura do Pr. Jonas J. Mendes não condena o estudo; condena a pretensão de conhecer à parte de Deus. Para quem estuda, a pergunta que fica não é quanto se sabe, mas diante de quem se aprende.






