Voltaire usou um relógio para defender a existência de Deus. Parece um aliado da fé, mas no livro A Morte de Deus e o Crepúsculo da Cultura Ocidental o Pr. Jonas J. Mendes argumenta que o deísmo, a corrente que o relojoeiro representa, acabou preparando o caminho para o ateísmo. O argumento que defendia Deus ajudou a torná-lo dispensável.
O que é a analogia do relojoeiro?
Voltaire escreveu que, ao ver um relógio cujo ponteiro marca as horas, conclui que um ser inteligente arranjou as molas daquela máquina. A complexidade da criação, para ele, pressupõe um criador.
O problema está no tipo de Deus que o argumento sustenta. O deísmo afirma a existência de um Deus, mas tende a negar a revelação especial. Lorde Herbert de Cherbury (1581-1648) é conhecido como o pai do movimento. O pano de fundo ajuda a entender o apelo: a Guerra dos Trinta Anos, de 1618 a 1648, opôs católicos e protestantes e levou os filósofos iluministas a tratar a religião como um mal.
Qual é o problema do Deus dos deístas?
O Pr. Jonas mostra que os deístas aceitavam um Arquiteto do universo, mas recusavam um Deus que interviesse na história, fizesse milagres e se relacionasse com o homem. O Deus do relojoeiro projeta o mundo e se afasta dele.
O resultado, segundo Stephen Hicks e Heidegger, citados pelo Pr. Jonas, é uma abstração fria, um arquiteto distante a quem o homem não pode rezar nem oferecer sacrifícios. Um Deus que não age nem se revela deixa de ser alguém a quem se ora.
Nesse percurso, a razão foi mudando de lugar. Ficou primeiro ao lado da revelação, depois contra ela e por fim acima dela, até que a própria revelação perdeu a importância.
O que Charles Taylor chama de eclipse da graça e do mistério?
Charles Taylor, também citado no livro, aponta no deísmo o eclipse da graça e o eclipse do mistério. No eclipse da graça, a razão e a disciplina passaram a bastar para viver com dignidade, e a ideia do homem como pecador, necessitado da graça, foi posta de lado.
O eclipse do mistério aparece em dois títulos da época. Thomas Paine, em A Era da Razão, afirmou: "Minha mente é a minha igreja". John Toland intitulou um livro Christianity not Mysterious, quando o mistério já parecia supérfluo.
Como o deísmo levou ao ateísmo?
O Pr. Jonas trata o deísmo como uma posição de espera no caminho para o ateísmo. Segundo ele, ao tornar Deus distante e indiferente aos homens, os deístas prepararam, inevitavelmente, o caminho para o ateísmo, a descrença total na existência de Deus.
Os radicais não pararam no caminho do meio. Diderot e o Barão d'Holbach, influenciados pelo Testamento do pároco Jean Meslier, foram adiante e declararam que Deus não existe. Se Deus não fala, não age e não precisa ser buscado, sobra pouco para defender quando alguém decide negar que ele exista.
Um Deus de quem ninguém precisa
O deísmo tentou salvar Deus do cientificismo e entregou à descrença um Deus de quem ninguém mais precisava. Fica um alerta que vale fora do século XVIII: um Deus reduzido a explicação para a origem do mundo, sem graça, sem revelação e sem oração, é um Deus fácil de aposentar. O passo seguinte dessa história está na praça do louco de Nietzsche, onde a descrença já é coisa aceita.






