Pedro negou Jesus. Os religiosos do tempo de Jesus foram chamados de sepulcros caiados. As duas falhas são do mesmo tipo? No EP. 35 do Cenáculo do Saber - Entrevista, David Marrone pediu ao Pr. Valmir Nascimento uma síntese da diferença entre a pessoa hipócrita e o homem moralmente fraco. A resposta passa por uma palavra pouco conhecida, acrasia, e chega a uma definição prática de integridade.
O que é a crise ética no ministério?
Para o Pr. Valmir, a crise ética, ou crise moral, é uma das mais prejudiciais para a vida cristã e ministerial. O homem de Deus deve conduzir a vida pela santidade e, em termos mais práticos, por uma vida de integridade. Ele lembra que, na Bíblia, o profeta foi reconhecido como um santo homem de Deus (2 Reis 4.9). E acha bonito quando um obreiro é reconhecido não só pela posição, mas pela integridade, pela palavra, pelo acordo e pela responsabilidade com os outros.
Muitos fracassam nessa crise, observa, porque não honram os seus compromissos e se submetem a situações vexatórias, que contrapõem completamente o evangelho. A ressalva vem logo em seguida: ninguém é perfeito, e dependemos do Senhor em tudo o que fazemos. Mas os obreiros têm uma responsabilidade moral muito maior, pela posição que exercem e pelo que inspiram em outras pessoas.
O que é acrasia?
Não somos seres perfeitos, diz o Pr. Valmir, mas há uma diferença entre fragilidades e fracassos. Daí a distinção entre hipocrisia e acrasia.
A palavra acrasia vem do grego: a, que significa não, e crasia, de kratos, poder. É falta de poder, falta de capacidade para fazer alguma coisa. Acontece quando queremos fazer o certo, mas, por uma fraqueza, por uma debilidade espiritual e moral, acabamos fracassando. O apóstolo Paulo descreveu essa fragilidade: "Porque não faço o bem que prefiro, mas o mal que não quero, esse faço" (Romanos 7.19).
O exemplo do Pr. Valmir é Pedro, que negou o Senhor Jesus por medo, por fragilidade humana, medo de ser perseguido e medo de ser morto. Está errado? Está errado, responde ele. Mas, como é fraqueza humana, a possibilidade de recuperar e de ser perdoado é muito maior.
Qual a diferença entre hipocrisia e acrasia?
A hipocrisia é outra coisa. Nela, a pessoa tinha condições de fazer, poderia ter feito a coisa certa, e não fez. O Pr. Valmir a define como uma dissonância entre o que se fala e o que se faz: a pessoa diz algo e age de forma completamente diferente. Foi essa conduta que Jesus censurou nos religiosos daquela época, quando os chamou de sepulcros caiados, que coam o mosquito e engolem o camelo (Mateus 23.24, 27).
Na leitura do pastor, o que separa os dois é o poder de fazer: o fraco quer e não consegue; o hipócrita podia e não fez, e ainda fala de um jeito e age de outro. Por isso o pastor pede todo cuidado e toda cautela para não cair na hipocrisia, porque a vida cristã é uma vida de santidade, e santidade é ser íntegro.
O que é ser íntegro?
Ser íntegro é ser inteiro, mas o Pr. Valmir acha que a definição diz pouco e propõe outra. Nas palavras dele: "Nós nos manifestamos através de três elementos, aquilo que nós pensamos, aquilo que nós falamos e aquilo que nós fazemos." E completa: "A integridade ética, moral, é manter esses três elementos em ordem."
A ordem tem dois elos. "Aquilo que eu falo corresponde com aquilo que eu penso, porque senão estou mentindo. E aquilo que eu faço corresponde com aquilo que eu falo. Isso é integridade." A hipocrisia é justamente inverter essa lógica, quando uma coisa não combina com a outra.
O homem de Deus, então, é um super-homem, isento de falhas? Não, responde o pastor. Ele sempre vai depender do Senhor, e a Bíblia fala de um crescimento que vai até a medida da estatura da plenitude de Cristo (Efésios 4.13). A crise ética é uma das cinco que ele percorre no livro Homens de Deus (CPAD), apresentadas em As 5 crises do ministério cristão.
Fraqueza não é licença
Para o Pr. Valmir Nascimento, Pedro negou o Senhor por fraqueza, e na fraqueza há caminho de perdão e de restauração; o hipócrita poderia fazer o certo e não faz. A distinção consola quem caiu querendo acertar, mas não serve de desculpa: o obreiro não é super-homem, e ainda assim responde por manter em ordem o que pensa, o que fala e o que faz.





