Moisés perdeu Canaã por ferir a rocha duas vezes. A sentença parece desproporcional: depois de quarenta anos guiando um povo murmurador, um golpe a mais lhe custa a terra prometida. No livro A Arte da Leitura Bíblica, o Pr. Jonas J. Mendes mostra que o motivo tem a ver com a cruz. A mesma rocha recebe duas ordens diferentes, ferir em Êxodo 17 e falar em Números 20, e a diferença entre elas guarda uma figura de Cristo.
O que aconteceu em Refidim e em Meribá?
Em Refidim, com o povo sedento, Deus manda Moisés ferir a rocha (Êxodo 17.6). Moisés obedece, e da rocha ferida jorra água para uma multidão prestes a perecer no deserto. O episódio inaugura a provisão de Deus na caminhada.
Anos depois, em Meribá, o povo volta a murmurar contra Moisés e Arão. Dessa vez a ordem muda: Deus manda falar à rocha diante do povo, para que ela dê a sua água (Números 20.8). Tomado pela ira, Moisés repreende o povo e golpeia a rocha duas vezes. A água sai, mas a sentença vem em seguida: nem ele nem Arão levariam a congregação à terra (Números 20.10-12).
Por que ferir a rocha duas vezes foi tão grave?
A resposta está numa frase de Paulo. Ao lembrar o deserto, ele escreve que os israelitas bebiam de uma rocha espiritual que os seguia, e que essa rocha era Cristo (1 Coríntios 10.4). Com essa chave, o Pr. Jonas lê o primeiro golpe, em Refidim, como figura de Cristo ferido no Calvário, traspassado pelas nossas transgressões (Isaías 53.5).
Uma rocha que representa Cristo só pode ser ferida uma vez, porque o Calvário aconteceu uma vez por todas (Hebreus 9.26). Ferir de novo em Meribá desfazia a figura. Por isso a segunda ordem foi falar: a rocha já tinha sido ferida, e agora bastava a palavra. Para entender a diferença entre esse tipo de figura e uma alegoria, vale ler tipologia ou alegoria.
De onde vem a água que a rocha ferida entrega?
Falta ver o que a água representa. Em João 7, Jesus se levanta na festa e clama: "Quem crer em mim, como diz a Escritura, do seu interior fluirão rios de água viva" (João 7.38). E João explica que ele falava do Espírito, que ainda não fora dado porque Jesus ainda não tinha sido glorificado (João 7.39).
A ordem é a mesma do deserto. Primeiro a rocha precisava ser ferida; só depois a água do Espírito podia jorrar. Agora basta pedir, porque o Pai dá o Espírito Santo àqueles que lho pedem (Lucas 11.13). O que em Meribá era falar à rocha, para nós é oração.
O que a rocha ferida ensina à Igreja?
Sempre que a Igreja bebe dessa fonte, ela recorda que a Rocha ferida é Cristo e que a água que corre é o Espírito, dado por um sacrifício único e perfeito (Hebreus 10.10). Segundo o Pr. Jonas, o fluxo da água viva nasce da fé que ora e confia na promessa. Nenhuma repetição do sacrifício o aumenta, porque na cruz Jesus declarou: "Está consumado!" (João 19.30).
A promessa da água ligada ao Espírito volta em outro texto do livro, o de quem dera todo o povo fosse profeta, em que o desejo de Moisés se cumpre em Pentecostes.
A graça que a Rocha distribui hoje vem do único golpe que valeu, o do Calvário. Lendo Números 20 dessa forma, entendo melhor por que a tentação de bater de novo na rocha é tão perigosa: é agir como se a cruz não bastasse, quando o que Deus pede é que se fale, se peça e se confie.






