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O Deus que chora: Jerusalém contra Atenas

O Deus pessoal do cristianismo diante do Deus impassível dos gregos

David Marrone24 de outubro de 2026 3 min de leitura
O Deus que chora: Jerusalém contra Atenas
Leitura

Inspirado no livro A Morte de Deus e o Crepúsculo da Cultura Ocidental, do Pr. Jonas J. Mendes.

Em Lucas 19.41, Jesus chora ao ver Jerusalém. Para um grego formado em Platão, em Aristóteles ou nos estoicos, a cena seria estranha: o divino não sente nada. No livro A Morte de Deus e o Crepúsculo da Cultura Ocidental, o Pr. Jonas J. Mendes usa esse contraste entre Atenas e Jerusalém para mostrar que o cristianismo não foi um mero produto da cultura grega.

Como os gregos pensavam Deus?

Para Platão, o Bem era uma ideia impessoal. Para Aristóteles, Deus era um motor imóvel que só pensa em si mesmo e só ama a si mesmo. Os gregos também tratavam a emoção como doença, e os estoicos defendiam a apatheia: a existência digna era aquela desprovida de emoção. Coerente com isso, Deus era impassível e não se comovia.

A diferença atinge a raiz. Um Deus que chora supõe um universo em que há alguém para se importar, e o universo grego não oferecia ninguém assim.

O que muda com um universo pessoal?

Timothy Keller, citado pelo Pr. Jonas, lembra que, antes do cristianismo, várias culturas viam o universo de modo essencialmente impessoal. Para os gregos, o logos era um princípio racional impessoal.

O cristianismo virou essa imagem do avesso. O universo nasce de um ato amoroso do Deus Trino, que criou as pessoas para se relacionarem com ele. E o Logos não é um princípio abstrato: é o próprio Deus (João 1.1).

O que João 1.14 e Lucas 19.41 revelam sobre Deus?

Se o Logos é o próprio Deus, resta ver o que acontece quando ele entra na história. O Verbo se fez carne e habitou entre os homens (João 1.14). Isso dá ao corpo um lugar na teologia cristã, enquanto órficos e pitagóricos o tratavam como cárcere da alma.

E esse Deus encarnado chora. Em Lucas 19.41, Jesus chora diante de Jerusalém ao ver a incredulidade dos homens. O Pr. Jonas descreve aí um Deus que se importa com o homem e que se ira contra o pecado, duas reações impensáveis para o motor imóvel de Aristóteles.

O mesmo contraste aparece quando o livro trata do mal. O Pr. Jonas escreve: "Para a grande maioria dos filósofos gregos, o mal era algo que pertencia à ordem das coisas, tratando-se de algo natural, já o cristianismo enxerga o mal como um invasor, um elemento estranho à ordem das coisas." Um Deus que chora e um mal que é intruso combinam: o mundo não está como deveria, e Deus não é indiferente a isso.

Por que isso importa para o Ocidente?

Keller afirma que a bondade do mundo material, o progresso da história, a dignidade do indivíduo, a importância das escolhas e o valor das emoções não faziam sentido num universo impessoal. São valores que o Ocidente estima e que, nessa leitura, supõem um universo em que há alguém.

Com esses contrastes, o Pr. Jonas conclui que o cristianismo não foi um mero produto da cultura grega, nem incorporou indiscriminadamente elementos do estoicismo ou de qualquer outra escola filosófica. A conclusão importa porque a fé cristã é com frequência apresentada como filosofia grega com roupa nova; o livro mostra pontos em que as duas visões não se encaixam.

Lágrimas que não cabem em Atenas

O Deus que chora por uma cidade desmente a ideia grega de um divino que não sente nada. Lidas com pressa, as lágrimas de Jesus passam como detalhe; na leitura do Pr. Jonas J. Mendes, elas marcam a fronteira entre duas visões de mundo. A dignidade humana que nasceu desse lado da fronteira é o assunto de de onde vem a dignidade humana.

A Morte de Deus e o Crepúsculo da Cultura Ocidental

Do livro do Pr. Jonas J. Mendes

A Morte de Deus e o Crepúsculo da Cultura Ocidental

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David Marrone

Sobre o autor

David Marrone

Apresentador do Cenáculo do Saber - Entrevista

  • Apresentador e entrevistador do Cenáculo do Saber - Entrevista
  • Escreve as reflexões do Cenáculo do Saber a partir das conversas do programa
  • Membro da Igreja Evangélica Assembleia de Deus
  • Acadêmico do sexto ano de Medicina pela Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT)
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