Em Lucas 19.41, Jesus chora ao ver Jerusalém. Para um grego formado em Platão, em Aristóteles ou nos estoicos, a cena seria estranha: o divino não sente nada. No livro A Morte de Deus e o Crepúsculo da Cultura Ocidental, o Pr. Jonas J. Mendes usa esse contraste entre Atenas e Jerusalém para mostrar que o cristianismo não foi um mero produto da cultura grega.
Como os gregos pensavam Deus?
Para Platão, o Bem era uma ideia impessoal. Para Aristóteles, Deus era um motor imóvel que só pensa em si mesmo e só ama a si mesmo. Os gregos também tratavam a emoção como doença, e os estoicos defendiam a apatheia: a existência digna era aquela desprovida de emoção. Coerente com isso, Deus era impassível e não se comovia.
A diferença atinge a raiz. Um Deus que chora supõe um universo em que há alguém para se importar, e o universo grego não oferecia ninguém assim.
O que muda com um universo pessoal?
Timothy Keller, citado pelo Pr. Jonas, lembra que, antes do cristianismo, várias culturas viam o universo de modo essencialmente impessoal. Para os gregos, o logos era um princípio racional impessoal.
O cristianismo virou essa imagem do avesso. O universo nasce de um ato amoroso do Deus Trino, que criou as pessoas para se relacionarem com ele. E o Logos não é um princípio abstrato: é o próprio Deus (João 1.1).
O que João 1.14 e Lucas 19.41 revelam sobre Deus?
Se o Logos é o próprio Deus, resta ver o que acontece quando ele entra na história. O Verbo se fez carne e habitou entre os homens (João 1.14). Isso dá ao corpo um lugar na teologia cristã, enquanto órficos e pitagóricos o tratavam como cárcere da alma.
E esse Deus encarnado chora. Em Lucas 19.41, Jesus chora diante de Jerusalém ao ver a incredulidade dos homens. O Pr. Jonas descreve aí um Deus que se importa com o homem e que se ira contra o pecado, duas reações impensáveis para o motor imóvel de Aristóteles.
O mesmo contraste aparece quando o livro trata do mal. O Pr. Jonas escreve: "Para a grande maioria dos filósofos gregos, o mal era algo que pertencia à ordem das coisas, tratando-se de algo natural, já o cristianismo enxerga o mal como um invasor, um elemento estranho à ordem das coisas." Um Deus que chora e um mal que é intruso combinam: o mundo não está como deveria, e Deus não é indiferente a isso.
Por que isso importa para o Ocidente?
Keller afirma que a bondade do mundo material, o progresso da história, a dignidade do indivíduo, a importância das escolhas e o valor das emoções não faziam sentido num universo impessoal. São valores que o Ocidente estima e que, nessa leitura, supõem um universo em que há alguém.
Com esses contrastes, o Pr. Jonas conclui que o cristianismo não foi um mero produto da cultura grega, nem incorporou indiscriminadamente elementos do estoicismo ou de qualquer outra escola filosófica. A conclusão importa porque a fé cristã é com frequência apresentada como filosofia grega com roupa nova; o livro mostra pontos em que as duas visões não se encaixam.
Lágrimas que não cabem em Atenas
O Deus que chora por uma cidade desmente a ideia grega de um divino que não sente nada. Lidas com pressa, as lágrimas de Jesus passam como detalhe; na leitura do Pr. Jonas J. Mendes, elas marcam a fronteira entre duas visões de mundo. A dignidade humana que nasceu desse lado da fronteira é o assunto de de onde vem a dignidade humana.






