Uma lei romana mandava matar a criança deformada. A informação choca porque hoje a dignidade humana parece óbvia, quase natural. No livro A Morte de Deus e o Crepúsculo da Cultura Ocidental, o Pr. Jonas J. Mendes argumenta que ela não nasceu sozinha: foi o cristianismo que trouxe ao mundo greco-romano a dignidade humana, a igualdade e a tolerância, num ambiente em que a vida valia pouco.
Quanto valia a vida na Grécia e em Roma?
Segundo o Pr. Jonas, na Grécia e em Roma o infanticídio era comum. Abandonar crianças com alguma deformidade para morrer era prática rotineira, e as Doze Tábuas do direito romano mandavam matar imediatamente a criança particularmente deformada. Sêneca e Cícero nada viam de errado nisso.
Os escravos podiam ser açoitados, humilhados em público, explorados sexualmente, vendidos ou trocados. Aristóteles considerava o escravo um instrumento, uma ferramenta viva. Dinesh D'Souza, citado no livro, acrescenta que pessoas eram espancadas e mortas indiscriminadamente.
A democracia grega incluía todos?
Não. A democracia grega se limitava aos homens nascidos em Atenas, livres e com posses. Mulheres, escravos, estrangeiros, crianças e alguns trabalhadores braçais não eram cidadãos e não podiam participar da assembleia. A palavra que o Ocidente herdou de Atenas tinha um alcance bem mais estreito do que o sentido que damos a ela hoje.
O que o cristianismo trouxe de novo?
Foi nesse mundo que o cristianismo despontou, trazendo valores que a cultura greco-romana não conhecia. Abraham Kuyper, citado pelo Pr. Jonas, vê a raiz deles em Deus: diante dele, toda vida humana, forte ou fraca, é criatura, e ninguém tem domínio sobre o outro.
A ideia de que todos valem diante de Deus gerou prática. Os cristãos montaram uma rede de apoio a doentes, viúvas e órfãos e rejeitaram o infanticídio desde a Igreja primitiva. Dois documentos cristãos desse período, a Didaquê e a Epístola de Barnabé, rejeitam matar crianças, e a redação da Didaquê não deixa dúvida: "Não matarás uma criança no seio de sua mãe, nem depois que ela tenha nascido".
O contraste fala por si. A lei romana mandava eliminar a criança deformada; a Didaquê proibia matar a criança antes ou depois do nascimento.
Como a igualdade cristã mudou o Ocidente?
Para Dinesh D'Souza, citado pelo Pr. Jonas, a ideia cristã da igualdade dos seres humanos foi a força propulsora do fim da escravidão, do movimento pela democracia e do autogoverno popular.
O Pr. Jonas conclui que a democracia, a liberdade, o sistema legal e a educação ocidentais se fundam sobre o cristianismo, tanto quanto a exaltação do trabalho que dignifica o homem. O trabalho, aliás, tem uma história própria nessa herança, que aparece em o cortador de cana e o sacerdote.
A pergunta que fica, e que atravessa o livro inteiro, é o que sustenta esses valores quando a convicção que os gerou sai de cena. É o mesmo problema que Nietzsche apontou ao falar da sombra de Deus.
Uma herança que parece óbvia
A dignidade que hoje parece evidente teve de nascer num mundo em que a lei mandava eliminar a criança deformada. Quem defende hoje o valor de toda vida, forte ou fraca, está defendendo uma herança que o Pr. Jonas J. Mendes mostra ser cristã, saiba disso ou não.






