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O desencantamento do mundo: de Israel à volta dos deuses

Max Weber, a fé bíblica e o reencantamento pós-moderno

David Marrone30 de outubro de 2026 3 min de leitura
O desencantamento do mundo: de Israel à volta dos deuses
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Inspirado no livro A Morte de Deus e o Crepúsculo da Cultura Ocidental, do Pr. Jonas J. Mendes.

O desencantamento do mundo é uma das expressões mais conhecidas de Max Weber, e costuma ser lida como sinônimo de modernidade sem Deus. A história, porém, começa muito antes e num lugar inesperado. No livro A Morte de Deus e o Crepúsculo da Cultura Ocidental, o Pr. Jonas J. Mendes acompanha esse processo em três tempos: a fé bíblica tira os deuses da natureza, a modernidade volta o desencanto contra o próprio Deus bíblico, e a pós-modernidade reencanta o mundo, mas com outros deuses.

O que significa desencantamento do mundo?

A palavra alemã de Weber é Entzauberung. Ela nasce de Zauber, que significa magia, encanto, fascínio e atração. Ao pé da letra, desencantamento quer dizer desmagificação.

Antônio Flávio Pierucci, citado pelo Pr. Jonas, explica que desencantar o mundo é deixar de lado o encanto, perder o fascínio e quebrar o encantamento, um processo ligado à racionalização do Ocidente. Weber usou a expressão para o banimento do sagrado da vida pública. Alain Touraine, também citado no livro, descreve o mesmo movimento dizendo que a modernidade rompeu a aliança entre o céu e a terra.

O desencantamento começou com a Bíblia?

Segundo Weber, sim. A primeira ruptura com a magia aconteceu dentro da fé de Israel. Os judeus, nessa leitura, foram os primeiros a afirmar que a natureza não era divina nem habitada por espíritos. Ela era criação de um Deus ordeiro e único, que exigia uma vida ética.

O rio, a montanha e o astro deixam de ser deuses e passam a ser obras de Deus. O Pr. Jonas mostra que essa desmagificação da natureza, aprofundada depois pelo cristianismo e pelo puritanismo, foi a gênese do desencantamento que a modernidade levou adiante.

Como o desencantamento se voltou contra Deus?

O processo começou expulsando os deuses da natureza, mas não parou nas religiões animistas. Alcançou o próprio Deus bíblico.

Renarde Freire Nobre, citado pelo Pr. Jonas, explica que o racionalismo desencantado desconstruiu as imagens dogmáticas que tinham dado combustível inicial aos próprios processos de racionalização. A fé que acendeu o motor virou o alvo dele. Deus perdeu o lugar na esfera pública e deixou de ser necessário à ética. Wolfgang Schluchter lembra que Weber previu esse desfecho, em que o cristianismo se torna só mais uma força cultural entre outras.

É o mesmo movimento que aparece em outro ponto do livro, quando a razão que nasceu no Ocidente cristão se volta contra a fé: o cristianismo como coveiro do próprio Deus, na leitura de Nietzsche.

O que é o reencantamento do mundo?

Se a modernidade foi o ápice do desencantamento, a pós-modernidade, segundo Michel Maffesoli, favorece o reencanto do mundo e um retorno ao tempo do mito, atrelado à volta dos deuses.

À primeira vista, parece uma boa notícia para a fé. O Pr. Jonas mostra que não é bem assim. O desencantamento bíblico havia derrubado os altares dos deuses pagãos. O reencantamento pós-moderno diviniza a própria natureza e reconstrói esses altares. O mundo volta a ser habitado por forças sagradas, mas não pelo Deus que o criou.

No último capítulo, o Pr. Jonas resume o paradoxo: "a pós-modernidade está aberta ao místico, ao desconhecido, ao espiritual. Nesse sentido, a religião se torna uma aliada do homem e não mais uma inimiga, e Deus, que antes estava em exílio, agora pode voltar, mas a sua sombra não."

Um círculo que se fecha

A fé bíblica tirou os deuses da natureza. O Ocidente que a abandonou está devolvendo os deuses ao mundo. A leitura do Pr. Jonas J. Mendes ajuda a não confundir abertura ao espiritual com volta a Deus. Uma cultura pode estar cheia de espiritualidade e continuar longe do Criador, porque prefere uma natureza sagrada que não pede nada a um Deus que fala e exige uma vida ética.

A Morte de Deus e o Crepúsculo da Cultura Ocidental

Do livro do Pr. Jonas J. Mendes

A Morte de Deus e o Crepúsculo da Cultura Ocidental

De Nietzsche à era pós-cristã: o que acontece com uma cultura quando ela esquece Deus e as próprias raízes. Somente em Kindle.

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David Marrone

Sobre o autor

David Marrone

Apresentador do Cenáculo do Saber - Entrevista

  • Apresentador e entrevistador do Cenáculo do Saber - Entrevista
  • Escreve as reflexões do Cenáculo do Saber a partir das conversas do programa
  • Membro da Igreja Evangélica Assembleia de Deus
  • Acadêmico do sexto ano de Medicina pela Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT)
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