O desencantamento do mundo é uma das expressões mais conhecidas de Max Weber, e costuma ser lida como sinônimo de modernidade sem Deus. A história, porém, começa muito antes e num lugar inesperado. No livro A Morte de Deus e o Crepúsculo da Cultura Ocidental, o Pr. Jonas J. Mendes acompanha esse processo em três tempos: a fé bíblica tira os deuses da natureza, a modernidade volta o desencanto contra o próprio Deus bíblico, e a pós-modernidade reencanta o mundo, mas com outros deuses.
O que significa desencantamento do mundo?
A palavra alemã de Weber é Entzauberung. Ela nasce de Zauber, que significa magia, encanto, fascínio e atração. Ao pé da letra, desencantamento quer dizer desmagificação.
Antônio Flávio Pierucci, citado pelo Pr. Jonas, explica que desencantar o mundo é deixar de lado o encanto, perder o fascínio e quebrar o encantamento, um processo ligado à racionalização do Ocidente. Weber usou a expressão para o banimento do sagrado da vida pública. Alain Touraine, também citado no livro, descreve o mesmo movimento dizendo que a modernidade rompeu a aliança entre o céu e a terra.
O desencantamento começou com a Bíblia?
Segundo Weber, sim. A primeira ruptura com a magia aconteceu dentro da fé de Israel. Os judeus, nessa leitura, foram os primeiros a afirmar que a natureza não era divina nem habitada por espíritos. Ela era criação de um Deus ordeiro e único, que exigia uma vida ética.
O rio, a montanha e o astro deixam de ser deuses e passam a ser obras de Deus. O Pr. Jonas mostra que essa desmagificação da natureza, aprofundada depois pelo cristianismo e pelo puritanismo, foi a gênese do desencantamento que a modernidade levou adiante.
Como o desencantamento se voltou contra Deus?
O processo começou expulsando os deuses da natureza, mas não parou nas religiões animistas. Alcançou o próprio Deus bíblico.
Renarde Freire Nobre, citado pelo Pr. Jonas, explica que o racionalismo desencantado desconstruiu as imagens dogmáticas que tinham dado combustível inicial aos próprios processos de racionalização. A fé que acendeu o motor virou o alvo dele. Deus perdeu o lugar na esfera pública e deixou de ser necessário à ética. Wolfgang Schluchter lembra que Weber previu esse desfecho, em que o cristianismo se torna só mais uma força cultural entre outras.
É o mesmo movimento que aparece em outro ponto do livro, quando a razão que nasceu no Ocidente cristão se volta contra a fé: o cristianismo como coveiro do próprio Deus, na leitura de Nietzsche.
O que é o reencantamento do mundo?
Se a modernidade foi o ápice do desencantamento, a pós-modernidade, segundo Michel Maffesoli, favorece o reencanto do mundo e um retorno ao tempo do mito, atrelado à volta dos deuses.
À primeira vista, parece uma boa notícia para a fé. O Pr. Jonas mostra que não é bem assim. O desencantamento bíblico havia derrubado os altares dos deuses pagãos. O reencantamento pós-moderno diviniza a própria natureza e reconstrói esses altares. O mundo volta a ser habitado por forças sagradas, mas não pelo Deus que o criou.
No último capítulo, o Pr. Jonas resume o paradoxo: "a pós-modernidade está aberta ao místico, ao desconhecido, ao espiritual. Nesse sentido, a religião se torna uma aliada do homem e não mais uma inimiga, e Deus, que antes estava em exílio, agora pode voltar, mas a sua sombra não."
Um círculo que se fecha
A fé bíblica tirou os deuses da natureza. O Ocidente que a abandonou está devolvendo os deuses ao mundo. A leitura do Pr. Jonas J. Mendes ajuda a não confundir abertura ao espiritual com volta a Deus. Uma cultura pode estar cheia de espiritualidade e continuar longe do Criador, porque prefere uma natureza sagrada que não pede nada a um Deus que fala e exige uma vida ética.






