Em 410 d.C., Roma foi invadida pelos bárbaros. A cena virou símbolo do fim de uma civilização. Mas e se os bárbaros de hoje não estiverem do lado de fora? A pergunta é do filósofo Mário Ferreira dos Santos, e no livro A Morte de Deus e o Crepúsculo da Cultura Ocidental o Pr. Jonas J. Mendes a usa para descrever a crise do Ocidente. Os romanos exclamavam: "bárbaros extramuros!". Mário Ferreira dos Santos responde: "bárbaros intramuros!".
Qual a diferença entre invasão horizontal e invasão vertical?
Mário Ferreira dos Santos distingue duas invasões. O Pr. Jonas explica que a horizontal, extramuros, pode ser vista na invasão de Roma pelos bárbaros em 410 d.C.: um processo lento de ocupação do território, geralmente por estrangeiros. Ela ocupa terras, cidades e fronteiras.
A invasão vertical, intramuros, acontece no âmbito da cultura. É a tomada de posse e a corrupção de um povo por dentro, que solapa os fundamentos e as raízes até a destruição completa. Não há exército no horizonte nem muralha derrubada. Por isso ela é mais difícil de perceber. Mário Ferreira dos Santos afirma que o Ocidente vive esse momento terrível.
O que a barbárie vertical ataca primeiro?
Segundo o Pr. Jonas, o barbarismo vertical supervaloriza o visual, o sensível, o temporal, o mundano e a superficialidade, em detrimento do metafísico, do eterno e do sagrado. O que dura perde para o que passa.
Ele chama outros autores para mostrar que o diagnóstico não é isolado. Gilles Lipovetsky, em O Império do Efêmero, descreve um Ocidente tomado por uma cultura do efêmero, do frívolo e do passageiro. Christopher Dawson fala de uma desintegração que parte de dentro da própria civilização.
Qual é a espinha dorsal da cultura ocidental cristã?
Para entender o que está sendo destruído, Mário Ferreira dos Santos descreve antes a espinha dorsal da cultura ocidental cristã, a cosmovisão que a sustentou. O Pr. Jonas traz essas categorias no capítulo sobre os pilares da cultura ocidental:
- o universo é criatura, inclusive o homem;
- os povos se irmanam pela mesma fé, e todos são iguais perante Deus;
- a divindade é providencial;
- o homem é inteligente e livre, pecou livremente e pode salvar-se graças a um mediador, Cristo;
- a paz reinará quando a boa vontade dominar entre os homens.
Criação, providência e salvação: é essa espinha dorsal que a invasão vertical corrói. O Pr. Jonas trata da relação entre fé e cultura também em cultura e culto: por que as duas palavras têm a mesma raiz.
O que os cristãos devem fazer diante da crise da cultura?
Na Palavra Final do livro, o Pr. Jonas ainda vê tempo de ouvir o alerta de que os bárbaros estão às portas. Os muros estão ruindo e as defesas, minadas. Mas o tom não é de derrota.
Ele escreve: "Enquanto cristãos, não podemos nos calar, devemos entrar na arena cultural e combater, lutar pelos valores que acreditamos, não podemos entregar a cultura aos 'bárbaros'." E indica o caminho para isso: conhecer as Escrituras e conhecer o próprio tempo, as correntes filosóficas e sociológicas que moldam a cultura. Só assim é possível dar respostas satisfatórias.
De fora e de dentro
Os bárbaros de Roma vieram de fora. Os do Ocidente de hoje entram pela cultura, pelo que se consome, se aplaude e se ensina. A leitura que o Pr. Jonas J. Mendes faz de Mário Ferreira dos Santos tira o cristão da posição de espectador. A Bíblia lembra os filhos de Issacar, conhecedores da época, que sabiam o que Israel devia fazer (1 Crônicas 12.32). Defender os muros começa por saber o que eles guardam.






