Jonas pregou, Nínive se arrependeu, e o profeta pediu para morrer. Em qualquer outro livro profético, uma cidade inteira voltando para Deus seria o final feliz. No livro de Jonas, é o começo da crise. No livro A Arte da Leitura Bíblica, o Pr. Jonas J. Mendes lê essa história como uma sátira profética e chama o personagem de "profeta do avesso". A chave da ironia, segundo ele, está numa palavra hebraica que atravessa o livro do primeiro ao último capítulo.
Por que o livro de Jonas é uma sátira?
Porque tudo nele acontece ao contrário do esperado. O profeta que deveria anunciar a Palavra foge (Jonas 1.3), dorme durante a tempestade (Jonas 1.5), é salvo por um grande peixe (Jonas 1.17) e prega com desgosto. Enquanto isso, os pagãos oram (Jonas 1.14), obedecem (Jonas 3.5) e temem a Deus mais do que o próprio Jonas. A cidade se arrepende diante da pregação (Jonas 3.5-10).
O Pr. Jonas observa que a narrativa é construída com inversões constantes. Os marinheiros e os ninivitas, pagãos, fazem o que se esperava do profeta, e o homem chamado para falar em nome de Deus é o que mais resiste a ele.
O que significa a palavra ra'a no livro de Jonas?
A raiz hebraica ra'a significa mal, desgraça. O Pr. Jonas a trata como um Leitwort, uma palavra-guia que o narrador repete para costurar a história. Ela aparece quando Deus manda Jonas clamar contra a maldade de Nínive (Jonas 1.2). Volta na fuga, quando o profeta atrai a calamidade sobre os marinheiros (Jonas 1.7). E reaparece no fim, quando Deus poupa a cidade e Jonas fica irado com esse "mal" (Jonas 4.1-2).
Segundo o Pr. Jonas, a raiz é ambígua: pode ser mal moral, mal físico ou mal interpretado. É aí que mora a ironia trágica do livro. Deus transforma o mal com misericórdia, e Jonas prefere a justiça vingativa. O que Deus chama de compaixão, o profeta sente como uma desgraça.
Por que Jonas fugiu para Társis?
O narrador responde abrindo a mente do profeta ao leitor. Em Jonas 4, o próprio Jonas confessa o motivo da fuga: "pois sabia que és Deus clemente, e misericordioso, e tardio em irar-se, e grande em benignidade, e que te arrependes do mal" (Jonas 4.2). Nas palavras dele, a fuga para Társis veio de saber que Deus poderia perdoar.
Para o Pr. Jonas, esse diálogo interno expõe uma teologia torcida. O profeta prefere a destruição de Nínive a ver Deus misericordioso. O clímax é uma oração invertida: em vez de pedir que Deus mude, Jonas pede para morrer, "porque melhor me é morrer do que viver" (Jonas 4.3). A mente do profeta vira o palco do conflito.
Não é o único personagem bíblico que o Pr. Jonas lê pelo contraste entre o que aparenta e o que carrega por dentro. O mesmo recurso aparece em Saul, o rei escondido entre a bagagem.
Como termina o livro de Jonas?
Com uma pergunta de Deus, e não com uma resposta do profeta. Deus fala por último, comparando a planta pela qual Jonas se afligiu com a cidade inteira: "e não hei de eu ter compaixão da grande cidade de Nínive" (Jonas 4.11). O livro não registra o que Jonas respondeu. A pergunta fica aberta para o leitor.
O Pr. Jonas vê ali uma crítica profunda: os ninivitas idólatras superam em compaixão o próprio profeta do Senhor. E observa que quem está no centro do livro não é Jonas, mas Deus, cuja graça desconcerta até os justos. O resumo dele é seco: o profeta mau não aceita um Deus bom.
O livro de Jonas não pergunta se Deus é capaz de perdoar uma cidade inimiga. Isso ele responde no capítulo 3. A pergunta que sobra é outra: se quem anuncia a graça está disposto a vê-la alcançar quem ele preferia ver punido.






