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Leitura Bíblica

O bom samaritano e a pergunta errada: quem é o meu próximo?

O Pr. Jonas J. Mendes mostra como Jesus inverte a pergunta do intérprete da Lei em Lucas 10

David Marrone31 de outubro de 2026 3 min de leitura
O bom samaritano e a pergunta errada: quem é o meu próximo?
Leitura

Inspirado no livro A Arte da Leitura Bíblica, do Pr. Jonas J. Mendes.

A parábola do bom samaritano é uma das mais conhecidas da Bíblia e, talvez por isso, uma das mais lidas pela pergunta errada. Desde os primeiros séculos ela atraiu alegorias rebuscadas, e mesmo quem foge delas pode tropeçar no detalhe decisivo. No livro A Arte da Leitura Bíblica, o Pr. Jonas J. Mendes mostra que a chave de Lucas 10.25-37 está na pergunta, e que Jesus troca a pergunta do intérprete da Lei por outra.

Qual o problema da pergunta "Quem é o meu próximo?"

O intérprete da Lei, querendo justificar-se, pergunta a Jesus: "Quem é o meu próximo?" (Lucas 10.29). Para o Pr. Jonas, a pergunta carrega uma armadilha sutil. Ela serve para delimitar quem merece cuidado, estabelecer fronteiras e erguer muros invisíveis. É a pergunta de quem quer manter o controle moral sobre a lista: quem vale o meu tempo, quem cabe e quem fica de fora.

O Pr. Jonas observa que boa parte das leituras da parábola segue a ótica do intérprete da Lei e, com isso, repete o erro dele. O gênio literário de Lucas está em inverter essa lógica, porque a pergunta decisiva do texto não é a do intérprete. É a de Jesus. A diferença entre ler o detalhe do texto e inventar sentidos ocultos aparece também em tipologia ou alegoria, onde o bom samaritano é um dos exemplos.

Qual pergunta Jesus faz no fim da parábola?

No desfecho, Jesus devolve: "Qual destes três te parece ter sido o próximo do homem que caiu nas mãos dos salteadores?" (Lucas 10.36). O Pr. Jonas chama atenção para a resposta relutante do intérprete. Ele nem pronuncia a palavra samaritano. Diz apenas: "O que usou de misericórdia para com ele" (Lucas 10.37).

Jesus fecha com uma ordem: "Vai e procede tu de igual modo" (Lucas 10.37). Aqui está a tensão literária da cena, segundo o Pr. Jonas: quem fez a pergunta sai derrotado pela própria resposta. O intérprete queria proteger sua identidade religiosa, e a história que Jesus conta atravessa o muro que ele tinha erguido.

Por que o sacerdote e o levita passaram de largo?

A estrutura da parábola é feita de contrastes. O sacerdote e o levita representam a religião instituída e passam de largo (Lucas 10.31-32). O samaritano, o marginalizado, cumpre o mandamento que os guardiões da Lei deveriam representar. A ironia é deliberada: o indesejado é quem se torna santuário para o caído.

O Pr. Jonas resume a cena em três verbos. O sacerdote viu e passou. O levita viu e passou. O samaritano viu, compadeceu-se e agiu (Lucas 10.33-34): ver, mover-se por dentro e mover-se por fora. Até a geografia fala. Jerusalém é a cidade santa, o centro do culto; Jericó, uma cidade de fronteira conhecida pela violência. No caminho entre as duas, longe do templo, o verdadeiro culto aparece no ato de misericórdia.

Há ainda um silêncio no texto. Do homem caído não se sabe o nome, a história, nem a origem. Para o Pr. Jonas, esse vazio faz dele qualquer um, e coloca o leitor na estrada: ferido, indiferente ou disposto a pagar o preço.

O que significa ser o próximo de alguém?

Jesus não autoriza a pergunta "Quem é o meu próximo?". Ele desloca o foco para "De quem eu serei próximo?". É a ética do Reino, que dissolve fronteiras étnicas, religiosas e culturais. O Pr. Jonas resume: a identidade do próximo deixa de ser uma qualidade do outro e passa a ser uma postura minha.

Por isso, para ele, a parábola é mais que uma lição moral. É uma revelação do Reino, em que o altar é de estrada e o templo é o corpo caído. Quem chega à parábola perguntando quem merece sai dela com outra tarefa: escolher a quem amar.

A Arte da Leitura Bíblica

Do livro do Pr. Jonas J. Mendes

A Arte da Leitura Bíblica

Deus não desperdiça palavras. Aprenda a ler a Bíblia como ela foi escrita, atento ao enredo, às repetições, aos silêncios e aos detalhes que a leitura apressada deixa passar.

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David Marrone

Sobre o autor

David Marrone

Apresentador do Cenáculo do Saber - Entrevista

  • Apresentador e entrevistador do Cenáculo do Saber - Entrevista
  • Escreve as reflexões do Cenáculo do Saber a partir das conversas do programa
  • Membro da Igreja Evangélica Assembleia de Deus
  • Acadêmico do sexto ano de Medicina pela Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT)
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