A parábola do bom samaritano é uma das mais conhecidas da Bíblia e, talvez por isso, uma das mais lidas pela pergunta errada. Desde os primeiros séculos ela atraiu alegorias rebuscadas, e mesmo quem foge delas pode tropeçar no detalhe decisivo. No livro A Arte da Leitura Bíblica, o Pr. Jonas J. Mendes mostra que a chave de Lucas 10.25-37 está na pergunta, e que Jesus troca a pergunta do intérprete da Lei por outra.
Qual o problema da pergunta "Quem é o meu próximo?"
O intérprete da Lei, querendo justificar-se, pergunta a Jesus: "Quem é o meu próximo?" (Lucas 10.29). Para o Pr. Jonas, a pergunta carrega uma armadilha sutil. Ela serve para delimitar quem merece cuidado, estabelecer fronteiras e erguer muros invisíveis. É a pergunta de quem quer manter o controle moral sobre a lista: quem vale o meu tempo, quem cabe e quem fica de fora.
O Pr. Jonas observa que boa parte das leituras da parábola segue a ótica do intérprete da Lei e, com isso, repete o erro dele. O gênio literário de Lucas está em inverter essa lógica, porque a pergunta decisiva do texto não é a do intérprete. É a de Jesus. A diferença entre ler o detalhe do texto e inventar sentidos ocultos aparece também em tipologia ou alegoria, onde o bom samaritano é um dos exemplos.
Qual pergunta Jesus faz no fim da parábola?
No desfecho, Jesus devolve: "Qual destes três te parece ter sido o próximo do homem que caiu nas mãos dos salteadores?" (Lucas 10.36). O Pr. Jonas chama atenção para a resposta relutante do intérprete. Ele nem pronuncia a palavra samaritano. Diz apenas: "O que usou de misericórdia para com ele" (Lucas 10.37).
Jesus fecha com uma ordem: "Vai e procede tu de igual modo" (Lucas 10.37). Aqui está a tensão literária da cena, segundo o Pr. Jonas: quem fez a pergunta sai derrotado pela própria resposta. O intérprete queria proteger sua identidade religiosa, e a história que Jesus conta atravessa o muro que ele tinha erguido.
Por que o sacerdote e o levita passaram de largo?
A estrutura da parábola é feita de contrastes. O sacerdote e o levita representam a religião instituída e passam de largo (Lucas 10.31-32). O samaritano, o marginalizado, cumpre o mandamento que os guardiões da Lei deveriam representar. A ironia é deliberada: o indesejado é quem se torna santuário para o caído.
O Pr. Jonas resume a cena em três verbos. O sacerdote viu e passou. O levita viu e passou. O samaritano viu, compadeceu-se e agiu (Lucas 10.33-34): ver, mover-se por dentro e mover-se por fora. Até a geografia fala. Jerusalém é a cidade santa, o centro do culto; Jericó, uma cidade de fronteira conhecida pela violência. No caminho entre as duas, longe do templo, o verdadeiro culto aparece no ato de misericórdia.
Há ainda um silêncio no texto. Do homem caído não se sabe o nome, a história, nem a origem. Para o Pr. Jonas, esse vazio faz dele qualquer um, e coloca o leitor na estrada: ferido, indiferente ou disposto a pagar o preço.
O que significa ser o próximo de alguém?
Jesus não autoriza a pergunta "Quem é o meu próximo?". Ele desloca o foco para "De quem eu serei próximo?". É a ética do Reino, que dissolve fronteiras étnicas, religiosas e culturais. O Pr. Jonas resume: a identidade do próximo deixa de ser uma qualidade do outro e passa a ser uma postura minha.
Por isso, para ele, a parábola é mais que uma lição moral. É uma revelação do Reino, em que o altar é de estrada e o templo é o corpo caído. Quem chega à parábola perguntando quem merece sai dela com outra tarefa: escolher a quem amar.






