Cenáculo do Saber
Todos os artigos

Cultura e Fé

O Evangelho como metanarrativa: a fé diante da pós-modernidade

Lyotard, as quatro saídas de David Harvey e a grande história que a fé cristã não pode largar

David Marrone03 de novembro de 2026 3 min de leitura
O Evangelho como metanarrativa: a fé diante da pós-modernidade
Leitura

Inspirado no livro A Morte de Deus e o Crepúsculo da Cultura Ocidental, do Pr. Jonas J. Mendes.

A pós-modernidade desconfia de toda grande história, e o Evangelho é a maior delas. Ele começa na Criação, passa pela Queda e pela redenção e termina na consumação de todas as coisas. No livro A Morte de Deus e o Crepúsculo da Cultura Ocidental, o Pr. Jonas J. Mendes mostra o que acontece com essa história quando a cultura decide que nenhuma metanarrativa merece crédito, e por que o cristianismo não tem como abrir mão dela.

O que é metanarrativa para Lyotard?

Em 1979, o filósofo francês Jean-François Lyotard publicou A Condição Pós-Moderna. Ali ele definiu o pós-moderno como a incredulidade diante das metanarrativas, as grandes histórias que pretendem explicar o todo. Para Lyotard, citado pelo Pr. Jonas, a condição pós-moderna se caracteriza pela incredulidade perante o metadiscurso filosófico e metafísico, com pretensões atemporais e universalizantes.

Brian Walsh, também citado no livro, observa que o etos pós-moderno lê as grandes histórias da modernidade, como o marxismo e o paraíso capitalista, como histórias de opressão e violência. Uma dessas promessas modernas, a de que o saber salvaria o homem, aparece em a educação como salvadora.

A suspeita, porém, não para nas utopias políticas. Ela atinge qualquer narrativa que faça grandes afirmações sobre o rumo e o destino da história, e isso inclui a fé num Deus providente.

Por que a fé na providência virou alvo?

John D. Caputo, citado pelo Pr. Jonas, lembra que Lyotard contrastou o pós-moderno com os consolos da fé num Deus que vigia o mundo com onipotência e onisciência. Para Caputo, essa é a mais grandiosa das grandes narrativas antigas, e para Lyotard ela se tornou inacreditável. Stanley Grenz acrescenta que, na era pós-moderna, a própria ideia de uma narrativa grandiosa perdeu todo o crédito.

O ponto merece atenção. A crítica pós-moderna não escolhe só um adversário da vez: ela recusa a forma inteira de pensar que vê na história um começo, um sentido e um fim. A Bíblia tem exatamente essa forma. Abre com "No princípio, criou Deus os céus e a terra" (Gênesis 1.1) e fecha com aquele que está assentado no trono dizendo "Eis que faço novas todas as coisas" (Apocalipse 21.5).

Como viver depois do fim das grandes histórias?

Se nenhuma grande história merece crédito, resta saber como viver. O teórico David Harvey, citado pelo Pr. Jonas, descreve quatro maneiras de seguir em frente sem metanarrativa alguma.

A primeira é aceitar a falta de sentido. A segunda é negar a complexidade, refugiar-se em slogans simplistas e abraçar a superficialidade, como Andy Warhol. A terceira é concentrar-se no próprio pequeno mundo e descobrir uma identidade de grupo. A quarta é construir uma linguagem própria e jogar o jogo, afirmando o próprio poder.

Repare que nenhuma das quatro devolve à pessoa uma história maior do que ela. Cada saída, a seu modo, reduz o horizonte ao tamanho do indivíduo ou da tribo.

O Evangelho é uma metanarrativa?

É, e o Pr. Jonas não tenta disfarçar isso. Diante das saídas de Harvey, ele lembra que o cristianismo não faz sentido fora do Evangelho. Se o Evangelho se perde, a redenção se perde junto. A fé cristã não sobrevive como um conjunto de bons conselhos separado da história que lhe dá sentido.

Brian Walsh vê na rejeição das metanarrativas o maior desafio à fé, justamente porque a fé conta uma história que vai da Criação e da Queda à redenção e à consumação. Mesmo assim, diz ele, é essa história que deve ser contada. E Walsh vai além: para ele, o Evangelho é a única grande história que de fato cumpre o que promete.

A conclusão do Pr. Jonas é direta: sem o Evangelho, o cristianismo deixa de fazer sentido. Para quem prega e ensina, a lição é não encolher a mensagem para que ela caiba na desconfiança da época. A história que começa no Éden e termina na nova criação continua sendo a que precisa ser contada inteira.

A Morte de Deus e o Crepúsculo da Cultura Ocidental

Do livro do Pr. Jonas J. Mendes

A Morte de Deus e o Crepúsculo da Cultura Ocidental

De Nietzsche à era pós-cristã: o que acontece com uma cultura quando ela esquece Deus e as próprias raízes. Somente em Kindle.

  • #metanarrativa
  • #pós-modernidade
  • #Jean-François Lyotard
  • #David Harvey
  • #Brian Walsh
  • #Evangelho
David Marrone

Sobre o autor

David Marrone

Apresentador do Cenáculo do Saber - Entrevista

  • Apresentador e entrevistador do Cenáculo do Saber - Entrevista
  • Escreve as reflexões do Cenáculo do Saber a partir das conversas do programa
  • Membro da Igreja Evangélica Assembleia de Deus
  • Acadêmico do sexto ano de Medicina pela Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT)
Siga no Instagram