Galileu costuma aparecer como o mártir da ciência contra a igreja, e a história dele virou prova de que fé e ciência são inimigas. No livro A Morte de Deus e o Crepúsculo da Cultura Ocidental, o Pr. Jonas J. Mendes conta a revolução científica de outro modo. Galileu e Newton estudavam a natureza para entender o Criador. O que a ciência derrubou não foi a Bíblia, e o que veio depois foi uma ciência que ficou com a ordem do mundo e dispensou o Autor.
A igreja sempre foi contra a ciência?
Para o Pr. Jonas, a ideia de uma igreja sempre contrária aos avanços científicos, com Galileu como prova, não passa de contos infantis. Ele não nega que houve atritos. Diz que eles não foram exclusividade da igreja.
Quem defende uma ideia contrária ao que se sabe até então recebe oposição também da comunidade científica do seu tempo. Para o Pr. Jonas, a história das ideias é a história dos conflitos. Ler o caso de Galileu como uma guerra entre a razão e a fé simplifica o que foi, na verdade, um choque entre uma ideia nova e o consenso de uma época.
A ciência refutou a Bíblia?
A revolução científica dos séculos XVI e XVII mostrou que a Terra não era o centro do universo. Com isso caiu o geocentrismo de Aristóteles e Ptolomeu, que a igreja tinha adotado. Quase todas as crenças que a igreja aceitara dos gregos foram rejeitadas pela ciência.
O ponto do Pr. Jonas está aí. O que caiu foram interpretações impostas ao texto bíblico para acomodá-lo à filosofia grega, como a perfeição dos astros supracelestes e o próprio geocentrismo. Ele resume numa frase: "Não foi a Bíblia que a ciência refutou, mas as interpretações que a igreja havia dado até então."
A distinção importa para quem lê a Bíblia hoje. Uma coisa é o texto; outra é a moldura filosófica que uma época colocou em volta dele.
Galileu e Newton acreditavam em Deus?
Os próprios cientistas da revolução eram, em boa parte, cristãos, e o trabalho deles partia de uma teologia de fundo sobre o Criador. O Pr. Jonas mostra que eles acreditavam que Deus criou o mundo com uma estrutura matemática inteligível. A tarefa deles era decifrar a mensagem de Deus na criação, porque a criação revela o Criador. O universo podia ser estudado porque refletia a mente racional de quem o fez. É a mesma convicção do salmista: "Os céus proclamam a glória de Deus, e o firmamento anuncia as obras das suas mãos" (Salmos 19.1).
Newton levava isso tão a sério que temia uma física que expulsasse o Criador. Afirmou que o mundo precisava de intervenções periódicas de Deus para continuar funcionando. Leibniz discordou, porque, para ele, isso implicaria um Criador imperfeito, que teria feito uma obra incapaz de se manter.
Como a ciência deixou Deus de lado?
O Pr. Jonas mostra que, com o desenrolar da modernidade, as leis naturais e a ordem matemática passaram a ser vistas como propriedades do próprio mundo. Já não era preciso um Criador para explicá-las.
A natureza começou a ser lida como uma grande máquina, que funciona sozinha. Hermisten Maia Pereira da Costa, citado pelo Pr. Jonas, lembra que a ciência passou a tratar Deus como hipótese ultrapassada. A história do Deus que fez o relógio e se retirou está em o relojoeiro de Voltaire.
A ordem e o Autor
A ciência moderna nasceu lendo a criação como obra de Deus, e depois ficou com a ordem e dispensou o Autor. A leitura do Pr. Jonas J. Mendes tira do cristão o constrangimento diante da ciência. A fé não precisa temer o telescópio, porque foi a convicção de um mundo criado e inteligível que levou muitos dos primeiros cientistas a olhar por ele.






