Por que ninguém atirou a pedra na mulher adúltera de João 8? A resposta mais comum fala de consciência: os acusadores teriam lembrado dos próprios pecados e ido embora envergonhados. No livro A Arte da Leitura Bíblica, o Pr. Jonas J. Mendes chama isso de leitura sentimental e propõe outra, mais atenta ao contexto: havia ali uma armadilha jurídica e política para capturar Jesus, e ele a desmontou com a própria Lei.
Qual era a armadilha contra Jesus em João 8?
O contexto começa antes. No capítulo 7, os líderes judeus tentam prender Jesus e falham. Então armam o laço no auge da festa, possivelmente a dos Tabernáculos, com o templo lotado e vigiado por soldados prontos para reprimir qualquer tumulto.
Trazem a mulher e lançam a pergunta: "Mestre, esta mulher foi apanhada em flagrante adultério. E na lei nos mandou Moisés que tais mulheres sejam apedrejadas; tu, pois, que dizes?" (João 8.4-5). Para o Pr. Jonas, era uma armadilha de duas lâminas. Se Jesus mandasse apedrejar, violaria a lei romana, porque os judeus não podiam aplicar a pena de morte sem autorização de Roma, e seria acusado de sedição. Se proibisse o apedrejamento, violaria a Lei de Moisés e seria acusado de heresia, indigno de ser mestre. Qualquer resposta o levaria preso ali mesmo.
Onde estava o homem flagrado em adultério?
A hipocrisia aparece num detalhe que o leitor apressado não vê. A Lei mandava a morte dos dois, o homem e a mulher flagrados em adultério (Levítico 20.10; Deuteronômio 22.22). O homem sumiu da acusação. Para o Pr. Jonas, esse sumiço mostra o jogo sujo da liderança: não se tratava de zelo pela Lei, mas de uma isca.
Jesus se abaixa e escreve no chão. O Pr. Jonas lembra que era um chão de pedra, não de areia. O texto não diz o que ele escreveu, mas o gesto ecoa o Êxodo: o dedo que escreve no chão é o mesmo que gravou a Lei em tábuas de pedra. Jesus não ignora a Lei. Ele a conhece melhor que todos os que estavam ali.
O que significa "atire a primeira pedra"?
Então Jesus devolve a Lei aos acusadores: "Aquele que dentre vós estiver sem pecado seja o primeiro que lhe atire pedra" (João 8.7). A frase parece apenas moral. Segundo o Pr. Jonas, ela é também jurídica, porque a Lei exigia que as testemunhas lançassem a primeira pedra (Deuteronômio 17.7). Testemunhas verdadeiras deveriam iniciar a execução e, com isso, provar a veracidade da acusação.
Agora a armadilha muda de lado. Se atirassem a pedra, os acusadores infringiriam a lei romana e seriam presos por sedição. Se recuassem, revelariam que o testemunho era falso ou corrompido, e testemunhas falsas recebiam a mesma pena que queriam aplicar. Jesus os encurralou com a mesma Lei que eles usavam como arma.
Por que os acusadores foram embora?
A leitura sentimental diz que eles saíram tocados pela culpa. O Pr. Jonas vê outra coisa: sem saída e expostos como mentirosos, eles abandonaram a cena porque a farsa falhou. A mesma Lei que eles tinham citado pela metade os deixou sem saída.
Sobra a mulher diante de Jesus. Ele não nega a gravidade do pecado: "Nem eu tampouco te condeno; vai e não peques mais" (João 8.11). Para o Pr. Jonas, Jesus não rasga a Lei. Ele a cumpre e a envolve em misericórdia, e o que era uma armadilha para matá-lo se torna uma chance de graça para ela. Não é a única vez que Jesus sai ileso de quem queria eliminá-lo, como mostra a cena de Nazaré em por que Jesus fechou o rolo de Isaías no meio da frase.
O Pr. Jonas fecha a leitura com um aviso: ninguém consegue se esconder atrás da religião para tramar injustiça diante de Jesus. Lida assim, a cena deixa de ser só uma lição sobre não julgar os outros. Ela mostra o perigo de usar a Bíblia como pedra na mão, e a graça que alcança quem estava no centro da roda.






