Pergunte a um ateu se ele acredita em Deus, e ele responde com certeza que não. Pergunte a um apático, e ele dá de ombros: pouco importa. É essa segunda resposta que o Pr. Valmir Nascimento chama de apateísmo. No EP. 35 do Cenáculo do Saber - Entrevista, com David Marrone, ele explicou por que, para ele, um dos maiores problemas da sociedade contemporânea em termos de religiosidade não é necessariamente o ateísmo, e por que o mesmo problema aparece dentro da igreja.
Ter dúvidas é perder a fé?
O apateísmo aparece no livro Homens de Deus (CPAD) dentro da crise da fé. Para o Pr. Valmir, a fé é o elemento primordial da vida espiritual de um obreiro: "sem fé é impossível agradar a Deus" (Hebreus 11.6), e sem fé também é impossível ser obreiro. Quem perde a fé perde a razão da sua atuação ministerial.
Isso não quer dizer que não haja perguntas. As indagações são naturais, diz ele, porque somos limitados, e o Senhor responde as nossas dúvidas quando abrimos o coração e as apresentamos a ele. "O problema não são as dúvidas, o problema são as dúvidas não sanadas. As dúvidas não sanadas, elas geram incredulidade." O exemplo é Tomé: ele estava com dúvida, e Jesus deu a prova antes que ele se tornasse incrédulo (João 20.27).
O alerta que o pastor faz em seguida é duro, e ele mesmo o chama de chocante: é possível que muitos pregadores preguem sobre fé e intimidade com Deus tendo perdido as duas coisas. O obreiro não pode viver da aparência, diz ele, mas da vida interior.
Por que o ateísmo deixou de ser o maior desafio?
O ateísmo clássico, lembra o Pr. Valmir, foi um problema no início do iluminismo e da modernidade, quando as pessoas passaram a defender enfaticamente a inexistência de Deus. Os cristãos responderam com uma apologética contundente, com argumentos da existência de Deus que contrariaram os pressupostos do darwinismo e do evolucionismo.
Só que a sociedade mudou. Vivemos, explica ele, uma época chamada de pós-secular, em que a religião está em todos os lugares. O que Nietzsche disse sobre a morte de Deus, no sentido da perda de relevância da religião, não se concretizou (o anúncio de Nietzsche é o tema de O louco da praça). As pessoas estão buscando espiritualidade. O problema é o tipo de espiritualidade que buscam.
O que é apateísmo?
O termo, que o Pr. Valmir toma de alguns pesquisadores, descreve uma mistura de ateísmo com apatia. O apático nem se ocupa da pergunta sobre a existência de Deus. Ele mexe os ombros e diz que pouco importa, porque Deus não influencia a sua vida e não tem relevância para ele.
Segundo o pastor, esse é o problema de muitos jovens e adolescentes. Eles não estão interessados em voltar a Tomás de Aquino, às cinco vias ou aos argumentos cosmológicos e ontológicos; se alguém começar por aí, nem vão querer ouvir. O desafio deixou de ser responder a uma negação e passou a ser despertar quem não se importa.
A apatia espiritual também está na igreja?
Está, e aqui o Pr. Valmir volta aos obreiros. Muitos obreiros e crentes sofrem de apatia espiritual: vão à igreja, são evangélicos formais, mas o coração não está vivo do ponto de vista da espiritualidade. Com o tempo, a espiritualidade foi minando, a fé foi se perdendo, e a pessoa passa a ver Deus somente na vida do outro.
A saída que ele propõe não é só intelectual. A apatia não se resolve apenas com conhecimento, afirma, mas com paixão, com fogo, com vida espiritual. É hora de voltar ao primeiro amor e à simplicidade do evangelho, deixar de fazer muitas coisas para fazer o básico, porque o básico bem feito, em termos de espiritualidade, é aquilo que Deus quer.
Fogo antes de argumento
Para o Pr. Valmir Nascimento, o ateu nega a existência de Deus e o apático dá de ombros, e a segunda atitude pode estar tanto na rua quanto no banco da igreja e no púlpito. Argumentos continuam tendo lugar, mas não acendem um coração frio. A crise da fé fecha a lista que ele apresenta em As 5 crises do ministério cristão, e a pergunta que ela deixa é simples: o básico ainda está sendo feito?





