E se Deus tivesse criado o homem sem dizer o que ele é? Foi essa a versão da criação de Adão que Pico della Mirandola contou no Discurso sobre a Dignidade do Homem, um dos textos mais célebres do Renascimento. No livro A Morte de Deus e o Crepúsculo da Cultura Ocidental, o Pr. Jonas J. Mendes mostra que essa releitura, que soa como um elogio à liberdade humana, foi uma ruptura com tudo o que até então se pensava sobre o homem, e uma semente do humanismo que mais tarde dispensaria Deus.
O que Pico della Mirandola disse sobre a criação de Adão?
O Pr. Jonas conta que Pico, influenciado por uma mistura de humanismo e neoplatonismo cristianizado, narra uma nova versão da criação do homem, diferente da dos outros animais.
Na narrativa de Pico, os animais receberam uma natureza definida, presa a leis estabelecidas. Adão, não. Deus não lhe dá uma natureza fixa. Diz a ele que poderia descer às formas animalescas ou erguer-se às ordens superiores, cuja vida é divina. A escolha ficaria nas mãos do próprio homem: ele forjaria a própria natureza.
A liberdade parecia um presente. O Pr. Jonas enxerga nela outra coisa. Se o homem forja a própria natureza, ninguém mais define o que ele é, nem mesmo Deus.
Por que o Renascimento pôs o homem no centro?
A narrativa de Pico não surgiu sozinha. Contrariando o pensamento medieval, centrado em Deus, os humanistas renascentistas passaram a ver o homem como o modelo do mundo, na expressão de Leonardo da Vinci, e não como simples criatura.
A arte da época mostra a mudança. O Homem Vitruviano de Leonardo põe a figura humana no centro do círculo e do quadrado. O Davi de Michelangelo exalta as formas humanas. Francis Schaeffer, citado pelo Pr. Jonas, resume o movimento dizendo que a natureza passou a tragar a graça: o que era natural e humano foi ocupando o espaço do que vinha de Deus.
O que Pico tem a ver com Sartre?
Para o Pr. Jonas, a narrativa de Pico della Mirandola ajudou a romper com a cosmovisão medieval e preparou o caminho para o humanismo ateísta, como o existencialismo de Sartre.
Na perspectiva de Pico, o homem é o próprio criador e faz de si mesmo o que deseja. É livre para ser o que quiser, porque a inventividade humana não teria limites. Pico ainda falava de Deus, e era Deus quem dava a Adão essa liberdade. Mas, uma vez aceita a ideia de um homem sem natureza definida, bastou um passo para tirar Deus da cena e deixar só o homem que se inventa. O existencialismo deu esse passo.
O que é a autonomia absoluta?
O Pr. Jonas descreve o homem moderno como alguém que deseja se libertar de Deus, explicar o mundo a partir de si mesmo e escolher o próprio destino. Ele quer a autonomia absoluta e deseja o poder de se tornar um deus.
A comparação que o Pr. Jonas faz é com o Éden. É o mesmo desejo de Adão e Eva no jardim, diante da promessa da serpente: "Porque Deus sabe que no dia em que dele comerdes se vos abrirão os olhos e, como Deus, sereis conhecedores do bem e do mal" (Gênesis 3.5). O tema volta em outro capítulo do livro, sobre Eva e os modernos diante da árvore do conhecimento.
Michael Goheen e Craig Bartholomew, também citados pelo Pr. Jonas, dão nome ao resultado. Eles chamam o humanismo secular de centro espiritual da cultura ocidental, uma visão em que os seres humanos substituíram Deus como Criador, Regente e Salvador.
Criatura ou criador de si mesmo?
No relato de Pico, Adão forja a si mesmo. Séculos depois, o humanismo secular terminou o trabalho e tirou Deus do lugar de Criador. A leitura do Pr. Jonas J. Mendes ajuda a perceber que muitas ideias que hoje parecem neutras, como a de que cada um define o que é, têm uma história e uma teologia por trás. A pergunta que o Renascimento abriu continua valendo: o homem recebe a sua natureza de alguém, ou a inventa? A resposta muda o que entendemos por liberdade.






