A ideia de pessoa parece tão natural que quase ninguém pergunta de onde ela veio. Cada um tem nome, direitos, vida interior e um destino próprio. No livro A Morte de Deus e o Crepúsculo da Cultura Ocidental, o Pr. Jonas J. Mendes mostra que essa ideia foi construída em camadas: Roma deu à pessoa um lugar na lei, a filosofia pagã fazia o indivíduo se perder diante do eterno, e o cristianismo afirmou cada pessoa como imagem de Deus.
Como o direito romano criou a pessoa individual?
Foi em Roma que nasceu o direito civil do Ocidente. O Pr. Jonas conta que o direito romano separou o direito das pessoas, das coisas e das obrigações, e criou o direito privado para proteger o que é de cada um.
Philippe Nemo, citado pelo Pr. Jonas, dá a esse passo um peso enorme. Ao inventar o direito privado, afirma Nemo, os romanos inventaram a pessoa individual, livre, dotada de vida interior e de um destino singular. Daí vem, segundo ele, o humanismo ocidental.
O direito, porém, protegia a pessoa diante dos outros. Dizia o que era de um e o que era de outro. Não respondia à pergunta mais funda: quanto vale um indivíduo diante do eterno? Para essa pergunta, a filosofia pagã tinha outra resposta.
O que a filosofia pagã pensava do indivíduo?
Charles Taylor, citado pelo Pr. Jonas, mostra que o paganismo via o indivíduo como secundário. Para Plotino, quanto mais o homem se aproxima do eterno, mais perde a individualidade. Subir em direção ao divino significava deixar de ser alguém em particular.
Aristóteles seguia por um caminho parecido. Ele afirmava que a individuação vem da matéria que recebe uma forma. No nível das formas puras não há indivíduos, e com isso a imortalidade pessoal acaba enfraquecida.
Roma tinha dado à pessoa um lugar na lei, mas faltava uma visão de mundo que desse a cada indivíduo um valor diante de Deus. É o mesmo contraste entre Atenas e Jerusalém que aparece em o Deus que chora.
O que significa ser criado à imagem de Deus?
Para o cristianismo, os indivíduos são importantes porque foram criados por Deus como seres singulares. Cada homem tem a própria especificidade, mas todos são criados à imagem e semelhança do Criador. A raiz está na primeira página da Bíblia: "Criou Deus, pois, o homem à sua imagem, à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou" (Gênesis 1.27).
O Pr. Jonas lembra que a dignidade do ser humano criado à imagem de Deus foi um dos elementos que o cristianismo introduziu e que não existiam na cultura greco-romana. A diferença está no fundamento. No direito, a pessoa conta porque a lei a reconhece. Na fé cristã, ela tem valor porque Deus a fez, antes de qualquer lei. Como essa diferença pesou na vida prática do mundo antigo, da criança deformada ao escravo, é o tema de de onde vem a dignidade humana.
O que acontece com a ideia de pessoa sem o cristianismo?
Até o filósofo John Gray reconhece a dependência. Citado pelo Pr. Jonas, Gray observa que, para os cristãos, tudo de valor no mundo emana de uma pessoa divina, a cuja imagem os humanos são feitos. Uma vez abandonado o cristianismo, conclui Gray, a ideia de pessoa se torna suspeita.
Philippe Nemo descreve o Ocidente como a síntese de Atenas, Roma e Jerusalém. No percurso que o Pr. Jonas traça, Roma deu à pessoa um lugar na lei, e a fé cristã mostrou cada pessoa como imagem de Deus.
Tirar a segunda camada e esperar que a primeira fique de pé é apostar que a lei, sozinha, sustenta o valor de alguém. Gray já desconfia dessa aposta. Quem defende hoje os direitos da pessoa está apoiado, saiba ou não, numa convicção que nasceu em Gênesis.






